Qual a maneira mais eficaz de se conquistar algo/alguém?

Resposta ao título do post: seduzindo. Se fazendo necessário ao outro. Fazendo com que o outro se identifique com quem somos e como somos. Fazendo com que ele queira ser como nós.

Quino, o cartunista que criou Mafalda, refletiu na tirinha sobre a influência cultural de língua inglesa na Argentina. Em língua inglesa e dos ingleses, já que, na época, eram os Beatles quem refazia as invasões bárbaras, e que, mais tarde, vai ser contra os ingleses que nuestros hermanos vão lutar por território . A tirinha no contexto brasileiro atual falaria diretamente com a dita americanização do brasileiro e serviria de argumento pra muito deputado por aí. Mas aqui ou na Argentina o caso da essência da nacionalidade é muito, muito, mas muito mais complicado do que a mistura do nosso riso com essa expressão envergonhada/incrédula/surpresa de Mafalda na tirinha. Como se fala de nacionalidade e de conquista (no caso, perda de si) pelo estrangeiro em países cujo povo nativo sucumbiu por completo? Sucumbiu pelas armas & pelas almas? (Esse é o momento referência a uma tirinha que já vi — não lembro onde, e este é o problema — em que soldados e jesuítas portugueses davam o mesmo grito de guerra: só que com instrumentos de luta diferentes. Se alguém souber onde acho essa tirinha, avisa aí, tá?)

Segundo Oswald de Andrade, antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade. O Brasil e a América como um todo, talvez. Em essência, o que ocorreu aqui com os povos autóctones não foi tão diferente do que ocorreu nos demais países do continente. (Pode conferir abaixo as conclusões de Chris na redação sobre o Dia de Ação de Graças: siga direto para os 08:10s do vídeo.) Enquanto as tribos serviram aos propósitos dos invasores europeus, o manejo dos nativos foi gentil. Quando os índios sentiram a necessidade de impor limites à presença estrangeira, foram massacrados.

 

O manejo “gentil” dos nativos brasileiros é a sedução à qual eu me referi no início do post. Como você pode perceber nas postagens antigas e superdetalhadas sobre O auto de São Lourenço (clique aqui e aqui), era extremamente interessante para Portugal estabelecer alianças com os indígenas e, sem usar a força, fazê-los caminhar para o lado luso da Força (momento piada nerd dedicado a Lucas Ambrósio e demais viciados em Star Wars). Falando a sério: dá menos trabalho, gastam-se menos energia e menos recursos convencer as pessoas, diplomaticamente, a fazerem aquilo que se deseja que elas façam. Se toda guerra tem uns psicopatas que adoram a oportunidade de matar gente, para o Estado e para a maioria dos envolvidos, um conflito armado nunca é a melhor saída.

É por isso que em toda colonização americana (não só brasileira) a presença de ordens religiosas missionárias foi de extrema importância. No caso da América Latina, a Companhia de Jesus (ordem dos padres jesuítas cujo nome vira piada pronta pra mim, sempre: parece nome de banda de pagode gospel!) vai ser quase que a representação da ONU na intermediação dos conflitos entre europeus e indígenas, principalmente na Confederação dos Tamoios (outras informações aqui também). Mas mais do que tentar apaziguar os conflitos, os jesuítas tiveram o essencial papel de, através de uma educação espiritual, transformar a visão de mundo dos indígenas. E transformar a visão de mundo de um povo significa interferir em sua cultura, fazendo-o assimilar os princípios de outra. A esse processo dá-se o nome de aculturação.

Para conseguir esse objetivo — que do ponto de vista religioso era completamente legítimo, pois equivalia a salvar as almas dos índios do inferno — a literatura de catequese foi a grande arma. Embora seu caráter artístico seja polemizado (detalherei isso novamente no próximo post, que também vai tratar da literatura de informação), a eficiência de seu uso foi incontestável. Primeiro porque, para produzir literatura de catequese, os padres tiverem que se apropriar da língua dos índios — os textos eram produzidos em tupi e em guarani, e depois em nheengatu uma mistura de tupi com português que era a língua mais falada no Brasil até o século XVIII). Segundo porque não bastava que a língua fosse reconhecida, mas era preciso que os textos tivessem forte aproximação com o mundo tal qual ele era reconhecido pelos índios, na mesma medida que ele também se afastava desse mundo, propondo outra forma de existir.

Tá, eu sei, essa parte foi profunda. Então deixa eu explicar melhor.

Se você quer que uma pessoa aprenda uma coisa nova, você parte daquilo que ela já conhece. Vamos pensar que alguém esteja sendo ensinado a surfar. Primeiro essa pessoa vai treinar os movimentos do surfe no universo que ela conhece e domina: o chão sólido, a areia da praia. Depois de muito treino dos movimentos básicos ali, de muita conversa com o instrutor e de observação de como se faz na terra e como outros fazem na água, é que se vai treinar os movimentos na água.

No surfe, a realidade do iniciante é a da terra. Ele só conhece o surfe de ver os outros fazerem, mas para ele a ação é um universo desconhecido. Para poder entrar no universo, o aprendiz começa pelo seu, o da areia.

Como a catequese é um ensinamento, um aprendizado de como o mundo se organiza e o como o homem deve se comportar nele de acordo com a ética de uma religião, a ação de catequisar faz exatamente isso: parte do mundo como ele é conhecido por quem está sendo catequizado para um mundo que ele ainda não conhece, pois não é assim que ele o vê. E para que esse mundo fosse mais visível, mais concreto, os padres jesuítas perceberam que a literatura seria uma aliada poderosa. Com aquela questão da ficcionalidade, que já foi tão discutida por aqui e nas aulas, sabemos que a literatura cria um mundo que não conhecemos com base em coisas que já conhecíamos antes.

Uma ressalva nesse ponto é importante. O grande detalhe (e é por isso que eu vou morrer dizendo que literatura de catequese não é texto artístico, literário) é que o mundo proposto pelos textos da literatura de catequese seria um mundo real, porque é nele que se deseja que o público acredite. No caso de O auto de S. Lourenço, o mundo real, empírico do autor era aquele em que antropofagia era pecado, era uma ação contrária às leis divinas e, por isso, coisa que só podia ser obra do demônio.

Um texto de literatura de catequese bem sucedido era aquele que não apenas ensinava ao público o que era ser cristão, mas aquele que o convencia de que o demônio existia e que, para afastá-lo, era preciso adotar uma série de comportamentos de bons cristãos e rejeitar uma lista de outros comportamentos. Convenientemente, estes comportamentos eram aqueles que ameaçavam o projeto de colonização do estado português, principalmente o guerrear, o comer os inimigos. A liberdade sexual também estava na lista, como algo que devia ser combatido tanto pelo estado (que desejava manter a “pureza do sangue”) como pela igreja (pelos seus princípios dogmáticos, claro). E lógico que nesse caso contribuiu muito a longa discussão que se travou nos âmbitos da Igreja daquela época sobre se índio era ou não era gente (e, por consequência, os invasores que tivessem relações sexuais e filhos com indígenas estarem procriando com animais) e se índio tinha ou não tinha alma.

É, essa questão da alma é real. Parece que não, mas é. Dá uma olhada nessa cena do filme A missão. O cenário do filme é o extremo sul do Rio Grande do Sul no fim do século XVIII (o que significa 300 anos de indecisão sobre índio ter alma ou não ter).

 

A missão é um filme de conteúdo histórico verídico. O filme relata as ações dos governos espanhol e português quando redefiniram fronteiras e Portugal expulsou as missões jesuíticas de seu território. O filme tem belíssimas tomadas da natureza brasileira — e o alumbramento que nós, seres urbanoides, temos com as imagens deve ser algo bem próximo do maravilhamento cenas da contemplação dos primeiros portugueses que aqui puseram os olhos. E os primeiros contatos entre índios e padres jesuítas através da arte, são representados na cena abaixo com uma sensibilidade belíssima. A trilah sonora do Enio Morricone, então, é pra deixar qualquer cinéfilo babando!

 

Por hoje é só, pessoal! Como no arquivo temo dois posts sobre o Auto de São Lourenço, não precisamos mesmo de postagem exclusiva para esse texto. Cliquem nos links que eu já disponibilizei lá no início da postagem e, os mais ousados, leiam a peça. Basta clicar aqui.

Beijinhos e até a próxima!

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