Funções sociais da literatura – gabarito e comentário dos exercícios

Minhas bonitezas,

Eu juro que daqui pro fim de junho eu perco o restinho de sanidade que me sobrou depois de virar professora. Que semestre trabalhoso e que semestre rápido!!!

Se eu puxar a cordinha o motorista para na próxima estação? Preciso de férias!!

É por isso que o tadinho do blog ficou às moscas. Juro que postar no escritório no meio de todos os livros ainda em caixas (as 25 que eu e meu esposo trouxemos na mudança) me dá uma preguiça infinita. Parece que as ideias ficam com dificuldade em se arrumar.

Mas, cá estou. Em pouco tempo teremos as provas parciais e eu não quero deixar vocês sem assessoria, de jeito nenhum!

Minha última dívida com você foi o gabarito e os comentários das questões relativas às funções sociais da literatura que solicitei no Caderno de Exercícios e no livro texto. Vamos a elas.

No Caderno de Exercícios, essas questões estão na página 14 e 15. Com exceção da questão 1 da seção Guia de Estudo, as demais questões da página 14 são bons exercícios discursivos. Treinem bastante, pois é o tipo de questão que vocês deverão resolver na próxima avaliação. Já as questões da página 15 pedem exemplos da lista de leituras de vocês. Não há aqui, portanto, erro e acerto, mas uma recomendação: daqui a algum tempo, retomem essa lista e avaliem se vocês continuariam dando os mesmos exemplos ou se os mudariam. É uma observação muito interessante sobre como as leituras mudam para nós depois que nós mudamos um pouco.

A definição de “função do texto literário” não pode ser construída sem se fazer uma relação com as expectativas que os grupos sociais e os indivíduos fazem da literatura. Afinal, é o leitor que faz com que o texto literário possa ter este ou aquele significado, mais ou menos complexo. Depende muito do espaço que o leitor dá ao texto literário a capacidade de este texto promover entretenimentopromover catarse ou, ainda, promover uma reflexão sobre a sociedade e sobre a própria constituição humana – as tais funções adicionais do texto literário. Ao mesmo tempo, existe aquela função geral que todo texto literário desempenha (mesmo que não seja muito bem sucedido nisso): a de ser um objeto de apreciação estética. Podemos achar que o texto é bem construído em seus aspectos técnicos, ou o contrário, mas ele está lá para que observemos como ele foi construído.

Eu gosto, nesse momento, de comparar a função que um texto literário tem em nossa vida com a função que uma pessoa tem nela. Durante toda nossa existência encontramos centenas, milhares, até, de pessoas, como também encontramos centenas, milhares, até, de textos literários. Cada uma dessas pessoas e cada um desses textos têm uma forma única de ver o mundo e carregam consigo uma única história, que nunca se repete. Mesmo dois irmãos gêmeos idênticos não percebem o mundo da mesma maneira. O quanto essas pessoas vão ser fundamentais para nós, que função elas vão exercer nas nossas vidas depende muito do espaço que oportunizamos para elas. Tem gente que passa na nossa vida e nós nunca conhecemos – e temos consciência disso, sem nenhum remorso. Tem gente que passa, nós não conhecemos mas, ainda assim, emitimos mil opiniões sobre essas pessoas – fulano é chato, sicrana é metida, não sei quem é complexada. Sobre essas às vezes temos consciência de que o julgamento não tem base nenhuma, sobre outras nem tanto. E tem quem conheçamos de verdade e essas pessoas podem ter nenhuma, pouca, alguma, relativa ou muita importância para nós.

Com a literatura é bem parecido. Tem livros que mudam nossa forma de perceber o mundo – como tem amigo ou gente que nem é tão amigo assim (às vezes pelo contrário), mas que por algo que diz ou faz, leva a gente a rever os nossos conceitos. Tem livros que passam como amigos de farra: são boas companhias em alguns momentos, às vezes uma boa fase da vida, mas isso não nos muda, fundamentalmente. Tem livros que passam sem a gente ter o menor conhecimento deles, tem livros que a gente não leu e não gostou (feito gente que começa a reclamar de Otelo ANTES de começar e ler, né, Dani Farias? :P).

Se ficou demais nas entrelinhas o recado, deixa eu fazer isso de forma mais clara. Como professora de Literatura eu não estou dizendo que você tem a obrigação de gostar tudo do que lê (do mesmo jeito que você não tem obrigação de gostar de todo mundo que você conhece). Só estou dando o toque para você deixar os livros se conhecerem antes de não gostar deles. Do mesmo jeito que a vida da gente se torna mais rica quando nos permitimos conhecer mais gente, ela fica mais rica quando conhecemos mais livros. Nem todos serão seus amigos de infância, mas no não vi, não gostei ou nos julgamentos precipitados você pode perder a oportunidade de conhecer amores de uma vida inteira! Dá uma chance pros coitados, vai!

A primeira questão da seção Guia de Estudo do Caderno de Exercícios (na página 14, ainda), de certa forma, parcialmente, contém a resposta da questão anterior. O enunciado é adequadamente completado pela expressão “o público leitor”, retomando parte do que eu acabei de discutir aqui: as funções que a literatura desempenha dependem de quem a lê. A questão seguinte trata de dois conceitos importantes e que retomam quase toda teoria que vimos até aqui: as definições de verdadeiro e verossímil.

Aquilo que é verdadeiro é aquilo que não é falso. Isso é óbvio, eu sei, mas quando a gente fala de literatura não é tão óbvio assim. Não foi pra Platão. Platão teve uma birra danada com a arte porque ele julgava tudo que compõe o mundo com a categoria de verdadeiro e falso. Como o raciocínio sobre a verdade naquela época (e ainda hoje) postula que só uma coisa pode ser verdade e o que é diferente da verdade é a mentira, o que não é igual ao verdadeiro não tem valor. Pra Platão só era verdade aquelas ideias primordiais das coisas. Nem aquilo que existia no mundo concreto podia ser verdadeiro, por que há variações entre essas coisas.

Tá, eu fui longe na filosofia. Mas tem calma que eu aproveito e reviso Platão pra você e já ajudo na próxima prova da matéria.

Você já viu duas maçãs rigorosamente iguais? Rigorosamente mesmo: mesmo tamanho, peso, cor, manchas, formato… Não né? Podem ser extremamente parecidas, mas sempre tem uma coisa que as diferencia se olharmos com atenção. Então qual delas pode ser uma maçã verdadeira? Não podem ser as duas, pois a verdade é uma só.

Para responder a esse problema, Platão invetou a teoria das ideias. Ele dizia que nada no mundo empírico (esse nosso, concreto) era verdadeiro: todas as coisas, inclusive cada ser humano, era uma reprodução, uma cópia da verdade, que seria a ideia. Todas as maçãs do mundo são cópias imperfeitas de uma ideia de maçã, e assim vai. Por serem cópias, todas as coisas são imperfeitas, e por isso não podem ser belas. E são, também, por definição, falsas, já que a verdade está no mundo das ideias, que é um mundo metafísico (ou seja, que está para além do físico, para além das coisas que têm corpo e que podemos sentir).

A arte, para Platão, era ainda mais falsa. Se um pintor faz um quadro de uma maçã ele está imitando a imitação: é uma cópia duas vezes piorada. Através da arte, para Platão, o homem se afastaria cada vez mais do que é verdadeiro, e ficaria cada vez mais preso a um mundo falso, preso aos sentidos e ao corpo, quando ele deveria se prender puramente à sua razão.

É claro que hoje não pensamos mais como verdadeiro o que Platão pensava. Para nós aquilo que é verdadeiro é o que, de maneira geral, podemos comprovar com a observação dos fatos e a análise da ciência. Verdadeiro é o que assumimos, todos, como sendo algo real. Para todos os seres humanos que vivem no Ocidente tempo suficiente para em 2001 ter um mínimo de conhecimento sobre o que significa guerra, EUA e Al Qaeda, o 11 de setembro é uma verdade e o medo do terrorismo, em maior ou menor escala, também. Para quem viveu suficientemente a década de 1980 no Brasil, o medo da inflação é uma verdade muito bem fundamentada (eu ainda lembro das filas para abastecer os carros ANTES que a gasolina subisse de preço. Era um INFERNO!) . Para os adolescentes de hoje, essa história de inflação é meio esquisita e só é verdadeira porque está documentado em fontes socialmente reconhecidas que aconteceu. Se não, dependendo do relato, a coisa era apenas verossímil.

Aquilo que é verossímil é aquilo em que se pode acreditar como se fosse verdade. Note o uso do como se, ele é muito importante. Se alguém faz um relato muito verossímil para a polícia, esse alguém consegue fazer com que a história tenha ares de verdadeira, de confiável. Se vai ser verdade ou não, a investigação dos fatos é que vai comprovar. Uma coisa é verossímil quando, dentro de um contexto, ela tem uma coerência tão grande que ela se passa por verdadeira. E é com isso que a arte trabalha. A verossimilhança (ou semelhança com a verdade) é a tal da verdade/realidade textuais. Dentro de uma obra literária, por mais que cada fato e personagem pareçam verdadeiros, eles são apenas produtos da imaginação do escritor.

Ao contrário do que fazia Platão, não podemos julgar uma obra de arte como boa ou ruim pelo fato de ela se parecer com o mundo empírico ou não. Se o que você quer é verdade, no cinema, veja documentário, em livros, procure os que não são de literatura, e tome muito cuidado com a fotografia (depois do photoshop a relação entre a fotografia e a realidade nunca mais vai ser mesma). Quando julgamos a arte, devemos considerar, na questão da realidade, se, dentro da sua proposta, ela é verossímil ou não. Os personagens são coerentes em sua construção? Os deslocamentos de tempo e espaço são adequadamente cumpridos dentro do universo da trama (se numa ficção o personagem tem o poder de se teleportar, ele pode sair de Recife e ir para o show de Paul no Engenhão em segundos – mas ele voltar no momento em que saiu sem ninguém falar sobre ele poder voltar no tempo é OUTRA conversa)? Esses são apenas alguns poucos aspectos de como uma ficção pode ganhar ou perder em verossimilhança.

Para fechar a postagem de hoje, os comentários das questões 6 e 7 da página 29 do livro texto de vocês. No trecho do livro de memórias de Érico Veríssimo, Solo de clarineta, o autor relaciona o seu trabalho como escritor a uma experiência que teve quando adolescente, em que tinha que segurar uma lâmpada para auxiliar um médico a socorrer uma pessoa muito machucada. Veja que seu papel, ao segurar a lâmpada, era ajudar uma pessoa a ver melhor, para que algo pudesse ser consertado, modificado. Se o papel do escritor é esse, cabe a ele a função de promover reflexão sobre a realidade através daquilo que ele escreve. A lâmpada (ou como Veríssimo também transforma em imagem, a vela, os fósforos) é o próprio texto que ele produz.

Por hoje eu fico aqui. Volto nos próximos dias com um link para vocês pegarem a apresentação da aula de Gêneros Literários.

Até amanhã.

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