Gabaritos 2011 – ficha 3

Olás,

Aqui chegamos ao último capítulo da saga de carnaval “Atualizando o dever de casa”. Com esse post quito minhas dívidas com vocês, colocando os gabaritos de todos nossos exercícios (até agora) no ar.

A ficha 3 tratou de funções da linguagem. É muito comum vocês trocarem essa expressão e usarem, em seu lugar, figuras de linguagem. Cuidado, cuidado, cuidado! (Dito em tom de “Remember, remember the 5th of november“, lá do V de Vingança.)

  • Funções da linguagem são os seis modos distintos como usamos a linguagem para atingir os seis objetivos básicos de comunicação (1 – estabelecer contato, 2 – informar, 3 – persuadir o ouvinte/leitor, 3 – exprimir nossas — de quem constrói o texto — emoções, 4 – explicar a própria linguagem ou a confecção do texto, 5 – construir um objeto estético).
  • Figuras de linguagem são, principalmente, os meios de explorar novas possibilidades de significados e efeitos para as palavras. Um oxímoro (mais conhecido como paradoxo), por exemplo, associa os significados de seres ou coisas em princípios opostos (como no último bafafá da internet: Sandy devassa — para alguns, um sinal certo de que o mundo acaba em 2012 dimermo).  Já uma aliteração explora efeitos sonoros das palavras, como nessa campanha publicitária aqui.

Por essa causa, motivo, razão & circunstância, NÃO, não é a mesma coisa você escrever na sua provinha figuras de linguagem no lugar de funções da linguagem. Atenção, remember, remember…

Visto isso, vamos aos exercícios. Não vou revisar nesse post funções da linguagem. Se vocês sentirem necessidade, deem um toque que eu faço um post semana que vem, ok?

Na questão 1, temos, em ordem, textos nos quais predominam:

  1. Função metalinguística
  2. Função apelativa (ou conativa)
  3. Função apelativa (ou conativa)
  4. Função metalinguística
  5. Função emotiva (ou expressiva) (desculpem, não achei o link da tirinha)

Observem que nos textos 1 e 4 e nos textos 2 e 3 temos a presença da mesma função. No entanto, existem diferenças em seus empregos. No texto 2 a função apelativa está tanto na estrutura dos conselhos (o que você deve e o que não deve fazer para ser uma pessoa feliz e saudável) como na própria ironia da tira, que chama a atenção do leitor para um questionamento: será que realmente só é possível ser feliz cumprindo todos esses requisitos? No texto 3 a função apelativa é bem óbvia pelo fato de o texto ser o anúncio de um produto. Se o objetivo de qualquer texto publicitário é convencer o público a fazer algo (adquirir um produto, contratar um serviço ou adotar um comportamento), então nesses textos prevalece a intenção de influenciar o receptor.

No texto 4 temos a função metalinguística eu seu exercício mais óbvio: a linguagem verbal explica um de seus termos (palavras apresentam o sentido de outras palavras). No texto 1 a metalinguagem é exercida porque o tema do texto é a sua própria confecção.

A maior dificuldade de vocês em relação à função metalinguística é diferenciá-la da função informativa. Fixe o foco no seguinte: a metalinguagem é como se fosse um se olhar no espelho que a linguagem ou texto fazem. É um voltar-se sobre si mesmo, sobre seu próprio fazer. A função informativa olhar para os objetos da realidade e dá informações sobre eles. A função metalinguística observa os objetos da própria linguagem.

Eu sei que nessa hora a coisa complica um pouquinho. A dica é: lembre do quadro do René Magritte. A função informativa fala do cachimbo do mundo real. A metalinguagem fala do signo que remete ao cachimbo que existe — e que na linguagem verbal é a palavra cachimbo. Ou, ainda, fala do fazer um quadro (como no outro quadro do Magritte).

Por sinal, olha essa outra viagem do Magritte, que é quase uma mistura do Isto não é um cachimbo com o Clarividência. O quadro se chama Dois mistérios. Um é fácil: o do cachimbo do quadro que não é um cachimbo (por que é só uma simulação que remete a um). Qual o segundo mistério? Façam suas apostas!

Agora vamos para a questão 2. Vou revisá-la pessoalmente com vocês, bem direitinho, para não haver dúvidas, mas quero já deixar a resolução aqui.

Para poder encontrar as funções da linguagem presentes no texto do Nicolas Behr, é preciso preciso primeiro entendê-lo. Você pode revê-lo aqui (ao fim da página), junto com outros poemas do autor (é a página oficial dele!).

À primeira vista não tem mistério não é? O texto é uma receita. Ele leva receita no título. É organizado em ingredientes e modo de preparar. Texto assim é receita receita mesmo, de bolo, de lasanha. E uma receita é um texto que pretende ensinar uma pessoa como fazer alguma coisa, informar como é que um determinado prato ou alimento é feito. Aí parece que já matamos a charada, e que a função informativa é predominante no texto e ponto. Ponto com ponto br.

MAS, PORÉM, CONTUDO, ENTRETANTO, TODAVIA, NÃO OBSTANTE...

Eu já vi receita que usa sangue. Galinha de cabidela é cozida no próprio sangue. Só que eu nunca vi como cozinhar nada com esperanças, sonhos e canções. Esperanças e canções não se comem. Sonho, só se for da padaria, e esse não tem nada de erótico. Portanto, o texto não é uma receita de verdade. Ele se apropriou da estrutura da receita para ser outra coisa, para ensinar a fazer uma coisa que não é de comer. Que coisa é essa só fica clara na frase final: “Sirva o poema simples /
ou com ilusões“.

Tá, o texto é uma receita, um como fazer, de um poema. E, embora não tenha rimas, ele É um poema. Observe que ele não foi escrito para formar parágrafos. A sua estrutura pula de linha sem ter terminado a frase: é uma estrutura em verso.

Se nós temos um texto que ensina a fazer um texto de mesmo tipo, temos metalinguagem. E se o texto em questão é um poema, é um texto literário. E em textos literários, o principal objetivo é explorar criativamente novos sentidos e efeitos das palavras. Isso quem faz é a função poética da linguagem.

Duas funções, então, compõem o texto. Qual delas é predominante? O que é mais importante: ensainar a fazer um poema ou fazer o poema em si?

Aqui vai um cascudo para algumas comissões de vestibular que insistem num erro bem velho (caso da UPE da última vez que construiu uma questão do tipo): gabaritar como mais importante a função metalinguística.  É, esse é um erro do ponto de vista teórico, e eu provo.

Se o que define um texto como literário não é o seu conteúdo, mas a organização artística do conteúdo, se ele fala sobre um gato fazendo xixi numa pensão burguesa ou sobre como se fazem poemas, não importa. Se alguém tem como principal objetivo ensinar como fazer algo esse texto é utilitário (e a não-utilidade é a primeira característica dos objetos artísticos). Portanto, nem o conteúdo nem a intencionalidade são critérios válidos para a metalinguagem prevalecer sobre a função poética. Se o texto é literário a intencionalidade é não utilitária.

Mas como ter certeza de que esse é realmente um poema? Esse formato de verso não foi um acidente na reprodução?

É só voltar um pouquinho na análise: é possível no mundo real, empírico, cozinhar canções, sonhos eróticos e esperanças? Não né? Num mundo ficcional isso é possível, mas no mundo empírico não. Para tratarmos dessas coisas no nosso mundo temos que considerar que essa receita é um modo de dizer outra coisa.  Temos, portanto, um mundo ficcional (da literatura) no qual essa receita é possível (significado numero um) e um mundo real, no qual temos que entender essa receita de outra maneira (significados números dois, três, quatro…). Junte isso com o fato de que, além da estrutura interrompida que já mencionamos antes, no modo de preparar não foi empregado nenhum sinal de pontuação, que todas as declarações começam com minúsculas que você tem sinais socialmente reconhecidos de um poema.

Portanto: O texto de Nicolas Behr combina as funções poética e metalinguística, com predominância da primeira sobre a segunda. Essa predominância se justifica pelo fato de o texto criar um universo ficcional através da uso inusitado da linguagem. Como no mundo real só é possível “cozinhar” tendo como ingredientes “sonhos eróticos” e “canções”, observa-se que toda ação da receita foi construída com uma linguagem conotativa, que caracteriza a função poética da linguagem. Visto que a receita ensina como preparar um poema, e a própria receita é um poema, caracteriza-se, também, a metalinguagem.

Para as questões 3 e 4 vou usar o mecanismo de sempre das questões de proposições múltiplas: gabarito primeiro e justificativa dos itens falsos depois.

Questão 3: FFVVV

Item 0  0) Este item está incorreto porque relacionou o uso da função emotiva/expressiva a qualquer falar sobre emoções. Para termos essa função da linguagem, é preciso que quem fala esteja falando sobre seu próprio universo emocional. Falar das emoções simplesmente como coisas que existem no mundo real, de maneira impessoal não é “usar a linguagem para expressar emoções“.

Item 1  1) A maneira como Caramelo (lindinho de titia, esse caramujo!) define as emoções não pode ser entendida de maneira objetiva — e a função informativa predomina em textos que discorrem sobre as coisas de maneira objetiva. Tanto é assim que essa função também se chama denotativa, pois usa as palavras em seu sentido dicionarizado, comum, prático.

Questão 4: VFVVF

Item 1  1) O texto da proposição resumiu-se ao cumprimento do Bidu. Ele usou a linguagem para “estabelecer contato“. Isso é coisa da função fática. Essa função não está presente no texto B, em que predominou a função informativa/referencial/denotativa.

Item 4  4) O texto da proposição concentrou-se no universo subjetivo de Flaubert quanto ao tema “justiça humana”. No texto o escritor francês expõe suas posições pessoais: o desprezo e o senso de ridículo quanto ao assunto. Predomina aí, portanto, a função expressiva/emotiva, sendo que no texto C predominou a função apelativa/conativa.

Bem, povo lindo, é isso. Até segunda!

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