Gabaritos 2011 ficha 2 (parte 2)

Hello,

E voltamos com a nossa programação normal, não é? Depois dos clichês básicos de todo ano (alguém mais já enjoou faz tempo dos comentaristas de carnaval com os seus “é a irreverência do folião” e com o “hora de arrumar as malas e se consolar de que no ano que vem tem mais”?), de trocar o dia pela noite — meu passatempo favorito — e de suar bicas com o período mais quente do ano, finalmente as coisas voltam para os eixos.

Espero que todos tenham se divertido e/ou descansado bastante. Eu aproveitei muito! Nada como quatro dias de descanso!

Felizes e/ou descansados, vamos para o que restou da ficha 2. Sigam-me os bons!

A questão 3 da ficha 2 demandou que vocês pesquisassem em livro didático e em outras fontes dois escritores: Pe. Antônio Vieira e Euclides da Cunha. De posse das informações sobre a obra desses autores deveria ser feita a classificação do que escreveram: suas obras são textos literários ou são textos não-literários?

Aproveite, antes de prosseguir no post, para conhecer um pouco mais desses autores. Eu recomendo, entre várias outras opções, o material do Alô Escola, da Tv Cultura, sobre Euclides da Cunha (clique aqui). Para conhecer Vieira eu recomendo a biografia do Dicionário Histórico de Portugal (aqui) e o acervo de sermões disponibilizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (aqui).

Essa questão toca num ponto muito sensível para alguns historiadores da literatura brasileira e, às vezes, para alguns teóricos. Diante da inegável habilidade desses dois escritores, de sua competência no uso da língua e na criação de um texto de valor atemporal, é de praxe classificarem ambos como autores de literatura (e daí vem o fato de eles estarem em livros didáticos de história da literatura).

O problema dessa classificação são os critérios que usa para definir o que é literatura: a importância das ideias da obra e sua perenidade (ou seja, a relevância do conteúdo) e a plasticidade da linguagem. O problema é que esses critérios não são critérios definidores de uma obra de arte — portanto não definem um texto como literário.

A relevância do conteúdo não define uma obra de arte?, pergunta indignado quem acha que a arte é uma coisa muito importante.

Não. Entenda: não se está dizendo, com isso, que uma GRANDE obra de arte não tenha ou não possa ter em seu conteúdo ideias relevantes e atemporais. Normalmente as obras de arte consideradas grandiosas terão isso. No entanto, não são as ideias que conseguem definir se uma coisa é uma obra de arte ou não. Uma guerra, por exemplo, pode ser tema de muitos textos diferentes: um documentário, um filme de ficção, um romance, uma epopeia, uma reportagem especial do Jornal da Record, daquelas bem longas, um poema lírico. Todos eles podem defender a mesma ideia sobre a guerra: ela traz miséria e sofrimento para a população dos dois lados combatentes e alguma glória para os soldados que sobrevivem.

Observe, então, que o fato de Euclides da Cunha falar sobre a guerra de Canudos em Os sertões não é critério suficiente para classificar esse texto como um texto literário. Também não é critério suficiente para chamar de literatura a obra do Pe. Vieira os temas de seus sermões.

A linguagem das obras, sem dúvida, coloca-as em contato com as obras literárias. Se você revisitarem os critérios que estabelecemos para que uma obra seja literária, o quarto elemento é a sua multiplicidade de significados e significações, que está, evidentemente, atrelada a um uso da linguagem que se afasta do comum, daquele que deseja privilegiar a simples comunicação de ideias ou de emoções. Mas esse uso da linguagem conotativa, sozinho, não garante a tal multiplicidade. A multiplicidade de significados e significações não é apenas a multiplicidade de significados e significações das palavras, mas da obra, como um todo.

Tá difícil, eu sei. Então vamos a um exemplo dos mais batidos. Todo mundo um dia já ouviu falar que Dom Casmurro é um clássico da literatura brasileira em que um cara, um tal de Bentinho, fala da sua vida e do baita chifre que ele levou da esposa. E que tem um monte de gente dizendo que no fim do livro o leitor fica com dúvida se ele levou mesmo o chifre ou se eke que era ciumento demais de viu chifre em cabeça de burro (com toda a infâmia do trocadilho).

Ok, ok, ok, como diria Nelson Rubens (esse negócio de chifre é Tv Fama feelings total) .  Dom Casmurro é uma obra de arte porque cada leitor pode ter uma impressão diferente do que aconteceu? Também. Mas tem mais:

  • Há quem leia a obra dizendo que ela apresenta um verdadeiro tratado crítico de Machado contra as regras sociais do fim do século XIX. Quem lê assim lembra que o protagonista supostamente-chifrudo se coloca no papel de vítima que foi cercada por aproveitadores (a mulher e o amigo encabeçam a lista) que sabiam dissimular melhor que ele. E esses aproveitadores teriam que saber dissimular porque era necessário para sua ascensão social, pois eles eram pobres e para desfrutar dos benefícios da convivência com o rico Bentinho, teriam que saber manipulá-lo.
  • Há quem leia a obra como um tratado da insegurança sexual de um homem que não consegue se afirmar como tal — e que essa insegurança revelaria, na verdade, não um homem traído pela esposa, mas pelo amigo por quem secretamente seria apaixonado. Quem pensa isso lembra que Bentinho, ao alpapar os braços de Escobar ( o Ricardão da história) fez isso como se fossem os de Sancha (mulher de Escobar), logo depois de ele ter se sentido atraído fisicamente por Sancha.  Quem pensa assim também defende que o primeiro impulso de Bentinho depois de Escobar morrer (e ele se convencer do chifre) foi de morrer, enquanto um homem traído pela esposa, no século XIX, pensaria em matá-la.
  • Há quem veja Dom Casmurro como uma recriação do drama de Otelo com um ir além impossível para Shakespeare no século XIX. Quem vê assim lembra que não apenas Machado foi um leitor voraz de Shakespeare como também que o nome do personagem Bento Santiago insere em si o nome do antagonista de Otelo, Iago. E que o papel de Iago é fazer com que Otelo acredite que sua esposa, Desdêmona, cometeu adultério. Como Bentinho faz com o leitor.

O detalhe é: se for bem fundamentada, bem argumentada, todas essas leituras estão certas. Nenhuma delas exclui a verdade das outras. O texto dá margem a essa multiplicidade de interpretações. E vejam que, em nenhum momento, eu analisei passagens do texto em que há o uso de linguagem conotativa, de figuras de linguagem. Elas estão lá, mas não constroem, sozinhas, a multiplicidade de significados e significações da obra.

E essa multiplicidade de significados e significações não vai estar presente nem nos sermões de Vieira nem no livro de Euclides da Cunha. Os sertões é uma obra de intencionalidade informativa. Euclides da Cunha teve, todo o tempo, o objetivo de revelar para o leitor como é a terra e a gente que viviam no sertão baiano e como foi a luta dos camponeses com os soldados da República. A ideia dele é uma só, que se perpetua de lá para cá, sem multiplicidade: Canudos era um povoado de gente pobre e miserável, que não recebeu do governo nenhum tipo de assistência, a quem foram negados todos os direitos básicos de cidadania e que, na sua tentativa de se governar por si só, de ser autossuficiente e digno, foi dizimado como são dizimados ninhos de barata. O mesmo ocorre com os sermões de Vieira. A sua plateia de hoje e a de seu tempo podem não concordar com o que ele pensa, mas ninguém poderá extrair dos textos de Vieira ideias diferentes daquelas que ele defende com argumentação impecável — o único jeito de encontrar outras ideias que não as explícitas no texto é falhar no entendimento dele. A intencionalidade de Vieira era ensinar como o bom cristão se comporta. E só.

Vocês notaram que eu frisei o uso da expressão intencionalidade. É para lembrar que essa é a primeira característica do texto literário: a intencionalidade artística. Para uma obra ser um texto literário, a primeira coisa necessária é a intenção de sê-lo. Se a intenção é outra: informar, ensinar, explicar, convencer… o texto pode ser lindo e importante, mas não é literatura, tá? Tranquilo?

Portanto, já aí vemos que não dá para classificar a obra de Vieira e a obra de Euclides da Cunha como textos literários. Como eu nunca esperaria que você soubesse, nesse momento em que estamos começando, que a multiplicidade de significados e significações está além da linguagem conotativa (tem que ter muitos anos de estrada pra reconhecer isso), o primeiro segredo para chegar à classificação correta estava na intencionalidade das obras. O segundo está na ficcionalidade. Se estabelecemos que um texto literário não fala do mundo real, que ele inventa um através da imaginação, que seu mundo é ficcional, e o mundo da obra de Vieira (o comportamento do homem cristão) e o mundo da obra de Euclides da Cunha são o mundo real, então, suas obras também não são literatura. Um texto só poderá ser literário se tiver as quatro características (intencionalidade, ficcionalidade, verdade e realidade textuais e multiplicidade de significados e significações) ao mesmpo tempo.

Aguentou aqui? Calma, jovem padwan: agora é só a questão 4, que é dois palitos.

O gabarito, como vimos em sala, é VVFFV. Como os itens verdadeiros são autoexplicativos, vamos olhar os falsos.

A proposição 2 2 afirma: “Outro elemento que distingue o texto 1 do texto 2 é o fato de este último ser mais elaborado no plano linguístico. O texto 1, devido a seu gênero, comporta desvios da norma padrão, como o registrado em “Se nós conseguirmos adotar ela”. Já o texto 2, em decorrência de seu caráter artístico não comporta tais desvios, sendo imprescindível que as regras da norma padrão sejam rigorosamente seguidas.

Seguinte… O texto 1 da questão é uma notícia de jornal. Em relação a esse gênero textual, a expectativa é que, ao contrário do que afirma a proposição, o autor use sempre a norma padrão. O desvio apontado na proposição é tolerado no texto porque ele está na reprodução da fala de um entrevistado e, mantendo-o, o jornalista estaria exercendo o compromisso de reproduzir os fatos com fidelidade.

Só por aí a proposição está errada, mas tem mais. Ao afirmar que o texto 2 não comporta tais desvios e que é imprescindível o uso da norma padrão no texto literário, a proposição erra e erra feio. E se o autor quiser escrever usando uma variante qualquer? E se o autor não domina o padrão e erra: um texto deixa de ser artístico por causa da gramática? Está entre os critérios que definem o texto literário o critério de seguir a gramática padrão? Não, né? Proposição completamente despropositada, portanto.

Vamos à proposição 3 3: “O narrador do texto 2 não reconhece a legitimidade do nascimento da menina de sua mãe porque, para ele, é impossível atribuir-se o caráter maternal a alguém que abandona o próprio filho.” O erro já começa em o narrador não afirmar isso no texto. Veja que no primeiro parágrafo em que ele apresenta que “Quem nasce sob tais condições negativas é como se não nascesse” as condições negativas tais, que ele enumerou antes, são: “Não era desejado, não veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação“. Em nenhum momento ele afirma que a mãe não pode ser considerada mãe (e implicitamente que ela tem que ser considerada má e cruel). O texto não julgou a mãe, em nenhum momento, mas sim as condições do nascimento.

Eu disse que eram dois palitos. Acabou. Dúvidas? Reclamações? Sugestões? A caixa de comentários está aberta pra isso. Eu vou nessa, que já passou da hora de eu tentar dominar o mundo hoje.

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