Gabaritos 2011 – ficha 2 (parte1)

Ois!

Como eu sou uma pessoa que do carnaval só gosta do descanso que ele proporciona para quem fica, como eu, quietinho em casa, vou aproveitar para deixar a casa (essa, virtual, e a minha, física – tem uma pilha de roupa pra passar me esperando no reinado de Momo) em ordem, fazer uma prova parcial bem bonitinha para os meus alunos, fazer um monte de leituras e terminar a quinta temporada de Dexter.

É, meu carnaval vai ser movimentado! 🙂 Por isso resolvi arregaçar logo as mangas e começar a fazer todas as coisas que me esperam antes mesmo do Galo cantar lá na ponte Duarte Coelho. Os conceitos da ficha 2 já revisamos aqui e aqui. Vamos aos gabaritos?

Como as questões 1, 2 e 3 são sobre a canção Acrilic on canvas, aproveite as possibilidades desse espaço virtual. Clique aqui, deixe a música rodando, e siga a minha versão!

Acrilic on canvas, a expressão título da canção, é o nome de um tipo pintura, que usa tinta acrílica sobre tela. Assim, o título já antecipa que a canção se relacionará com o universo da pintura. E como é comum em pintura identificar-se uma tela e até o estilo de um pintor pelos materiais empregados, de certa forma a escolha da expressão reproduz também a função que ela desempenha no mundo da pintura: identificar a obra de arte.

O universo da pintura é reiterado quase o tempo todo na canção. Entretanto, a segunda estrofe chama a atenção do leitor atento de que ele não deve levar muito a sério essa ideia da pintura. Observe que, segundo o eu lírico do texto (o personagem que fala nesse texto, que não é o autor da letra, nunca esqueçam disso! As explicações de por que usamos esse nome, eu lírico, são cenas dos próximos capítulos, aguardem!) “Os traços copiei do que não aconteceu” e “As cores que escolhi entre as tintas que inventei, / Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos /De um dia sermos três“. Ora, se, para fazer o desenho perfeito da amada, o pintor usa tintas inventadas, se ele não usa tintas de verdade, ele não está fazendo uma pintura de verdade. É por isso que os traços podem ser copiados de coisas que não existiram. O desenho é uma ficção no texto, é uma projeção imaginativa desse personagem.

Se pensarmos que no mundo paralelo que é o universo da canção, uma pessoa pode pintar com tintas que inventa, temos um sentido imediato, literal, para cada um dos versos da canção. Assim, o verso “Trabalhei você em luz e sombra” significa buscar o contraste entre a luz e a sombra, o claro e o escuro da imagem desenhada. “E rabisquei meu horizonte” significa traçar o próprio horizonte da tela, a linha em que o céu e a terra (ou a água) se tocam, o ponto a partir do qual não podemos ver além. “De amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim” são as duas flores que levam esse nome. Clique aqui e veja amores-perfeitos e clique aqui e aqui e veja a miosótis, conhecida como “não-esqueças-de-mim”.

Porém, como no nosso mundo, no mundo real, não é possível imaginar pinturas feitas com tintas que não existem e traços copiados de coisas que também não existem – e como é improvável (ainda que possível) que alguém faça pincéis com cabelos deixados pela casa – temos que pensar em outros significados para esses versos, encontrar seu equivalente real no nosso mundo. Para fazer isso, a primeiro coisa de que precisamos é estabelecer o que significaria então esse ato de desenhar a mulher amada. Como desenhamos coisas para podermos vê-las, mostrar como as coisas são, podemos assumir que o nosso suposto pintor deseja é entender quem essa mulher é/foi. Como a canção tem como assunto o término de um relacionamento (observe que o texto se inicia e se encerra com a referência à saudade), o nosso personagem se revela uma pessoa sozinha, que remói o passado (veja que ele diz que está fazendo o desenho “mais uma vez”).

Se o desenho, se a pintura é a tentativa de entender a pessoa que está sendo desenhada, o que pode ser o “Trabalhei você em luz e sombra“? Temos várias repostas possíveis, sendo as mais ligadas ao universo da pintura aquelas que pensam que a luz e a sombra são características da própria ideia de quem a pessoa é. Luz e sombra seriam, assim, características opostas, qualidades e defeitos da mulher desenhada. Há quem pense que luz e sombra poderia ser uma referência ao dia e à noite, ao tempo em que o eu lírico estaria pensando na mulher, tentando entendê-la. Essa é uma leitura menos próxima do universo da pintura, mas acho que ela é bem válida, já que o “mais uma vez” dá essa ideia de uma busca quase obsessiva por quem ela é.

E o “Rabisquei meu horizonte“? Se esse horizonte não é o da pintura (olha o “meu” nos lembrando isso no verso), o horizonte é o do próprio eu lírico. E o que são os nossos horizontes pessoais? Aquilo que desejamos, que queremos para nós, não é mesmo? É também, aquilo que está longe, que não podemos alcançar.

Uma pausa para análise interessantíssima. Na canção o horizonte foi riscado com o carvão que era ou é um batom dela (“Fiz carvão do batom que roubei de você”). Agora visualiza uma coisa dessas acontecendo literalmente: o cara pega o batom da ex, põe no fogo, espera queimar, espera esfriar, junta o que sobrou e vai fazer um desenho. Bizarro!!

Eu disse que não dava para levar a sério essa história da pintura. Mesmo se entendermos que esse “Fiz carvão do batom” significa usar o batom como se fosse um carvão para desenhar, a ideia também é bizarra e o cara é bem doidinho. Melhor entender que o horizonte dele, que ele tenta traçar, construir agora, é feito a partir do que ela deixou para trás, do que sobrou do relacionamento.

E o que é que ficou? Principalmente saudade! E se as flores amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim não forem flores de verdade, fica a saudade de quando se achava que o amor era perfeito e que nunca um deixaria de amar o outro. Ou é isso que ele gostaria que ficasse, nele e nela.

Eu, fã do Legião Urbana que sou de lá da minha adolescência, acho Acrilic on canvas uma canção perfeita. E eu, professora de Literatua que sou, acho o máximo essa consciência que o Renato Russo conseguiu dar ao texto sobre seu próprio caráter ficcional. Veja que o próprio eu lírico revela que o que ele faz não passa de uma invenção (“Mas então, por que eu finjo que acredito no que invento?/ Nada disso aconteceu assim — não foi desse jeito“). Como ele só pode tentar construir a imagem dela, entendê-la, a partir das poucas coisas que ficaram para trás, ele sabe que esse entendimento é como uma pintura ou um poema: não é o real, por mais que se pareça com ele. Ele nunca vai conseguir entender realmente quem ela é.

Machado de Assis, aliás, já tinha sentenciado isso havia mais de cento e oitenta anos, quando publicou Dom Casmurro. No livro, Bento Santiago tenta reviver na velhice a sua juventude e, com isso, entender a si mesmo e às pessoas que viveram à sua volta, principalmente Capitu, que foi o grande amor da sua vida. Mas já no início do livro ele decretou o seu fracasso nessa empreitada:

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.

Se uma pessoa não consegue, observando o próprio passado, nem recompor a imagem de si mesma, claro que não vai conseguir recompor a imagem de outras. O que vai ficar sempre vai ser especulação. Estabelecendo um parelalo com o que Renato Russo escreveu sobre a letra de uma de suas canções:  “Interpretar esses versos provavelmente dirá mais sobre quem tenta decifrá-los do que propriamente sobre a música em si” (troque versos e música sobre indícios e pessoa, respectivamente, que você tem uma frase exata sobre esse se debruçar sobre quem o outro é pelas pistas do passado).

Falaremos sobre isso, sobre esse tentar entender a si mesmo e aos outros na rememoração do passao feito por personagens de ficção, muito mais, só que mais tarde. Cenas dos próximos capítulos, de novo! 🙂

Como esse post ficou muito longo, eu vou parar por aqui. Volto depois em outra postagem, com as questões 3 e 4.

Se alguém tiver curiosidade em ler outras análises de Acrilic on canvas, eu recomendo este post do blog Perfeição. Ele reproduz uma análise da canção feita num livro sobre a obra de Russo.

Até o próximo post!

4 thoughts on “Gabaritos 2011 – ficha 2 (parte1)

  1. Boa noite, professora Bianca. Fiquei surpreso ao ver esta canção analisada aqui…
    Em 1992(!), escrevi (à mão, em papel almaço) um longo ensaio sobre ela. Está guardado em alguma pasta. Se achá-lo e for razoável, publico.
    Abraço,
    Vinicius Figueira

    • Nobre, Vinicius! Quanto tempo não comentávamos nos blogs, não?

      Os velhos tempos do papel almaço! Acho que a minha infância e a minha memória escolar estão no papel almaço! Todos os trabalhos de escola até 1996 foram na base do bom e velho almaço.

      Fiquei intrigada com o que Acrilic on canvas pode ter suscitado a você no ano do lançamento do meu disco favorito da Legião, o V. Favorito porque o disco que tem Sereníssima e Vento no litoralvai ser sempre o melhor para mim!

      Ainda se você achar que não deve ser publicado, eu acharia interessantíssimo ler o texto! Mande para mim!

      • Prezada Bianca, obrigado por responder. Tem umas coisas novas e interessantes aqui. Seus alunos devem orgulhar-se da professora que têm.
        Sim, o “II” é de 1986, não é? O “V” também me agrada (fui a show, até), mas acho que não havia saído à época em que escrevi o texto. Na verdade, comecei a prestar mais atenção à banda quando o Millôr traduziu uma canção deles, do quarto disco, para o português. A história é um pouco mais longa do que essa – estou resumindo… De qualquer forma, encontrei o texto. Precisarei de tempo para trabalhá-lo. Até o final do ano [risos], alguma coisa sai.
        Grande abraço (e parabéns pelo ótimo trabalho de educação dessa gurizada)

        • Vinicius,

          É, o II é de 86. É um disco de que gosto muito, junto com As quatro estações – justamente o disco da canção traduzida pelo Millor, Feedback song for a dying friend. É uma canção muito, muito forte.

          Infelizmente eu não tive tempo de ir aos shows. Quando eu descobri a Legião, em 95/96, Renato já estava bastante doente. O grupo não voltou a Recife nesse período e talvez se tivesse voltado eu ainda assim não estivesse lá. Foi numa época em que eu passava mal quando estava no meio de multidão.

          Obrigada pelos elogios! Vindos de alguém com a sua argúcia eles são especiais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s