Gabaritos 2011 – Ficha 1

Olá, bonitos!

Deixem-me aproveitar o domingo para atualizar o blog com os gabaritos e os comentários da ficha 1, já concluída em sala.

O foco do nosso primeiro material de trabalho foi a discussão do que é arte. Se a definição que encontramos de Literatura, desse objeto de conhecimento que estudamos na escola e que leva o nome de literatura, é “Literatura é a arte da palavra“, precisamos saber o que é arte, não é mesmo?

Para poder identificar o que é arte, primeiro fizemos o teste do reconhecimento de objetos artísticos entre objetos que não são considerados artísticos. Vocês observaram as nove imagens da primeira página da ficha e, depois de algumas discussões em sala, concluímos que as imagens B, D, E, F, G e I apresentavam objetos artísticos: no caso de B, G e I consideramos o objeto que a imagem reproduzia, a cama, o vaso e a pintura, e no caso de D, E e F consideramos a própria imagem (o desenho e as fotografias).

Ao tentar definir o que era arte e o que não era, observamos dois critérios principais: a preocupação estética e a utilidade prática. Se observarmos com atenção, temos dois objetos que, por definição são idênticos, mas que num caso era um objeto de arte e em outro não: a cama e o vaso. “Como uma coisa pode ser arte em alguns casos e em outras não?” foi uma dúvida geral: e a resposta estava justamente nesses dois critérios. Em um dos casos a cama e o vaso foram pensados para serem objetos úteis, para cumprir uma função prática: servir de lugar para repouso de alguém e armazenar líquidos, farinhas ou grãos. Isso não os impediria de serem belos, mas era evidente que a principal intenção daqueles objetos não era aquela.

No outro caso, tanto a cama como o vaso ostentaram uma preocupação estética gritante. Essa preocupação não os impedia de serem usados para o repouso e o armazenamento, mas ficava claro que o primeiro fim de cada um deles era a apreciação de sua própria forma. Foi aí, nesse momento, que primeiro chegamos à definição de que o objeto artístico não tem uma função prática, utilitária, porque se define pela preocupação com a própria estética. Mais importante do que o “para que serve?” é o “como foi feito?“.

Esse mesmo critério serve para a distinção entre a fotografia da imagem C e o desenho e as demais fotografias. Na foto da imagem C há um único propósito, que é prático: identificar o fotografado. E, por mais que Brad Pitt pareça uma obra de arte da natureza, temos que nos ater ao conceito de arte como uma produção humana. O desenho e as demais fotos revelam um pensar sobre a própria construção da imagem e, embora também possam servir para o reconhecimento de pessoas, não satisfazem a esse fim primeiro. Para conferir outras fotografias que não têm como objetivo a identificação de coisas reais, dê uma olhada nos trabalhos do fotógrafo espanhol Chema Madoz aqui e aqui.

Essa falta de utilidade prática e a completa relevância da preocupação estética ficam mais evidentes ainda no quadro da imagem I. Ela reproduz esta obra do Jackson Pollock. Uma pintura abstrata não tem outra função no mundo a não ser a de servir para a contemplação. Nem mesmo pra remeter a um objeto da realidade que pode ser nela reconhecido ela serve: esse não é o seu propósito. Mesmo que muita gente teime em tentar visualizar nela seres e coisas que existem, pode apostar: se é para ser arte abstrata, você não vai encontrar nada ali que não seja o espectador que esteja colocando na obra. Ah, e só para constar, quem afirma isso não sou eu, são os próprios pintores.

Pausa para o momento cultural do post

Futucando no maravilhoso portal Zupi (que está linkado na lateral do blog) eu achei um site que é uma homenagem ao Jackson Pollock: o JacksonPollock.org. O site, que venceu um prêmio internacional em 2009 para a melhores criações da web, reproduz a técnica de action painting que o Jackson Pollock usava para fazer suas pinturas. Enquanto Pollock estendia a tela ou o papel no chão e sobre essa base deixa respingar suas tintas, sem tocá-la com os pincéis, no site quem faz isso é o visitante, com o uso do mouse. Se você clicar vai parar numa página em branco e, movendo o mouse sobre ela, vai deixar respingar sua “tinta”. A cada clique, uma mudança de cor acontece (se você entrar e perceber uma barra de rolagem vertical, para descer o texto, use! Você terá à sua disposição muitos jeitos de pintar à Pollock, inclusive com direito à escolha de espessura dos respingos e de coloração única.). É, no mínimo, uma brincadeira interessante!

Quem tiver interesse pode curtir mais desse casamento entre arte abstrata e informática, dê uma voltinha no site do Joshua Davis. Segundo o Zupi (adorei esse portal, sério mesmo), ele é um foi um dos primeiros a usar Flash para criar ilustrações e desde a década de 90 usa algoritmos para criar arte. Eu achei alguns trabalhos muito legais: só não entendo o suficiente de informática para saber como é feito.😦

Em seguida, discutimos os dois quadros do René Magritte (que você pode ver em cores aqui e aqui). No primeiro quadro, Magritte nos lembra que a arte é apenas representação. Isso não é um cachimbo porque é uma pintura.

Eu sei, é tão óbvio que parece idiota. Mas não é. Constatar que a imagem e a palavra não são as coisas que a elas associamos foi uma revolução no modo de pensar o mundo, a linguagem e a arte no início do século XX.

No Ocidente, em virtude da grande importância que a percepção de mundo nos legada pela Antiguidade Greco-Romana, estamos habituados à arte representacional. Por séculos e séculos avaliamos pinturas e esculturas observando como elas representavam os seres e coisas do mundo real. Quanto mais realista a representação, considerávamos melhor a obra de arte. No entanto, no Oriente, a percepção da arte era diversa. Nos países de cultura islâmica, por exemplo, a arte abstrata ocupa o espaço que reservávamos à arte representacional. Isso porque o Islã condena a idolatria, o culto a imagens representacionais da divindade e, embora o cristianismo também faça essa mesma condenação, importamos dos gregos e dos romanos a representação religiosa através de figuras humanas. Entre gregos e romanos, os deuses olímpicos; entre os cristãos católicos, Jesus, Maria e os santos.

Somente no fim do século XIX e no início do século XX é que essa visão unânime da arte realista começou a ser questionada. Quando começamos, no Ocidente, a nos dar conta de que as coisas em uma pintura ou uma escultura não são os seres, é que nos demos conta de que a arte não representa o real. Ela, no máximo, o recria, estabelece com ele um paralelo, uma relação de “como se”.

Isso porque, como nos advertiu o quadro Clarividência, do próprio Magritte, o que está na obra de arte nunca é o que o artista vê no mundo real. É o que está no mundo real mais aquilo que ele consegue ver, que ele vê além da realidade. Se o mundo real é um ovo, como no quadro, a arte pode ser o pássaro o qual, potencialmente, o ovo pode (ou não) gerar. O artista vê longe, vê além do que as pessoas normais porque, ao criar a obra de arte, ele não se prende ao real, mas transforma-o a partir da imaginação, criando, com isso, coisas novas, que não existem no mundo real. Ou alguém já viu um desses por aí?

Ou seja: se podemos afirmar que a ausência de finalidade prática e a prevalência da preocupação estética são características fundamentais dos objetos de arte, sobre a relação do objeto artístico com o mundo que o rodeia identificamos uma relação de reinvenção, de representação no sentido de mímesis: a partir daquilo que mundo que existe o artista produz coisas que não existem. Mesmo que elas se pareçam demais com coisas que existem no mundo real, como o cachimbo do Magritte.

É por isso que uma obra de arte não deve ser avaliada a partir do conceito de “ser realista” ou de “ser verdadeira”. Ela deve ser avaliada como expressão que se preocupou com a própria expressividade, com sua organização interna, com o uso de seus recursos. Para definir se a obra foi bem sucedida ou mal sucedida é preciso avaliar como ela usou seus componentes (cores, texturas, traços, luz, sombra, ritmo, movimento, som, palavra) e não como ela se relacionou com o mundo dos seres e das coisas reais.

Por agora é isso. Mais tarde ou amanhã eu posto os gabaritos e comentários da ficha 2.

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