O Dom da dúvida – ou o crime perfeito

Prometi o post sobre Dom Casmurro. Prometi e estou cumprindo: senta que lá vem a história.

Para começar, vamos revisar o básico do básico sobre o livro de Machado. Faça isso com este vídeo.

Como bem assinalou o professor Fernando Marcílio, as personagens de Machado são um dos grandes atrativos do livro. Mas a questão vai além dos personagens. Tecnicamente, quando definimos os personagens, veremos que eles são iguais a uma porção de outros que existem por aí. Em essência, Bento Santiago não difere muito de Otelo, de Luís Negreiros (de O relógio de ouro, conto maravilhoso de Machado que você pode ler aqui), do Sr. Nogueira (de Missa do Galo, meu conto favorito de Machado, que você pode ler aqui): homens movidos pelo ciúme ou pela dúvida. Os personagens da literatura, no fundo, são sempre variações sobre um mesmo tom e você sempre vai encontrar alguém que é a cara do fulano ou da fulana de tal e tal obra. Pra resumir, Diadorim e Mulan são, em essência, a mesma criatura.

Então, concordando com o professor Marcílio, eu discordo dele. O grande em Machado e no livro de Machado não são os personagens — embora eles sejam personagens marcantes, ícones do imaginário literário nacional. O grande em Machado é a forma de contar, que, essa sim, torna esses personagens e todo o livro uma obra grandiosa.

Quando eu penso em Dom Casmurro, eu na maior história detetive da literatura. De toda a literatura, de todos os tempos. E quando penso em grandes escritores de histórias de detetive, lembro, de cara, de Edgar Allan Poe: escritor inglês do século XIX que Machado traduziu. Poe foi o primeiro criador desse tipo de narrativa, o grande precursor de Sherlock Holmes e das histórias de Agatha Christhie. Com a diferença que, enquanto as obras que sucederam o caminho aberto por Poe são grandes best seller, as histórias de Auguste Dupin, o detetive de Poe, são verdadeiras obras de arte.

Por que, Bianca?

Porque nas histórias de Sherlock e em todas as histórias de detetive comum, o que importa é que você descubra o mistério junto com o detetive. Se não descobrir ao mesmo tempo que ele, o prazer é acompanhar o raciocínio que esclarece o mistério. No caso das histórias de Poe, principalmente num conto chamado A carta roubada, a história em si é banal. O que é absolutamente interessante são as pistas espalhadas pelo autor que dão duplicidade à história. Não é uma duplicidade no sentido de ambiguidade, no sentido de o leitor ficar sem a certeza a respeito do que realmente aconteceu. Essa sacada foi de Machadão. A duplicidade acontece na história de Poe porque as cenas vão se repetindo com estruturas muito, muito parecidas, como se fossem duplicadas num espelho. E a chave para a questão toda do conto está em prestar atenção nesses duplos. Infelizmente, não achei uma tradução adequada para que se possa ver as duplicidades todas do conto para linkar — essa vou ter que ficar devendo.

A sacada de Machado é que ele tanto duplica histórias em Dom Casmurro como ele dá duplicidade à história, tornando tudo ambíguo.  O que faz de Dom Casmurro essa grande história não é o tema — o adultério feminino — nem os personagens. Se assim fosse, não haveria diferença entre Dom Casmurro (1900), O primo Basílio (1878) e Madame Bovary (1857). Nas três obras, um marido apaixonado é corneado pela esposa fútil. Nas três obras as mulheres são de classe social mais abastada, não precisam se preocupar com a manutenção da casa nem com o trabalho doméstico. Nas três obras o casamento, quando a traição (no caso de Dom Casmurro, suposta) acontece, o casal não tem filhos. Como fazer uma obra diferente das outras?

Personagens por personagens, só para citar O primo Basílio, temos Juliana, a antagonista da história. Se na adaptação para cinema, feita em 2007, Glória Pires estava ótima no papel, em 1988, quando O primo Basílio foi transformado em minissérie pela Globo, quem comandou foi Marília Pera. É, porque em O primo Basílio — e em Madame Bovary — a questão não é se traiu ou não. Todo mundo acompanha o processo de chiframento. A questão nas duas obras é: o que deve acontecer com uma mulher adúltera. E como, ao contrário de Emma Bovary, que tem uma personalidade sonhadora e termina se desiludindo com os casos, a Luísa de O primo Basílio não tem nenhuma crise de consciência pela traição e não tem nenhum laço afetivo com Basílio, o que acontece é sofrer, sofrer muito: na mão de Juliana, a empregada chantagista. Sinta o gostinho da forra de Juliana contra Luísa aqui e aqui.

Portanto, não, não são os fantásticos personagens de Machado que fazem de Dom Casmurro um dos maiores romances de todos os tempos. O que faz dele um romance ideal (só para manter a realão com o último post sobre o assunto) é o fato de a forma dar a dimensão exata do seu conteúdo: a dúvida que o protagonista diz que não tem, mas tem. É o questionamento sobre o que é verdade, de que o professor Marcílio falou. A verdade, em Dom Casmurro, qual é? A de Bentinho ou a dos fatos? Mas como saber a verdade dos fatos? Pela narração? Mas a narração, pra começo de conversa, é feita pelo marido que se considera traído. Portanto, já perdemos o importante elemento da objetividade diante dos fatos. A verdade dos fatos já se confunde com a verdade pessoal — o que não aconteceu nos outros livros, simplesmente porque esse não era o objetivo deles.

Como questionar a verdade e transformar o que poderia ser apenas mais uma história de adultério numa grande história de dúvida? Que forma dar à dúvida? Resposta de Machado: deixando o leitor em dúvida. Para deixar a dúvida, é preciso espalhar pistas e duplicidades na obra: duplicidades de sentido e de ocorrência. E quando nos damos conta dessas duplicidades é que vemos a grandiosidade daquele livrinho que parece, em princípio, tão simples e com uma história tão banal. Olha só 0 que a mente genial e detetivesca de Machado armou para sua charada:

Questionar o status de verdade da narração para isso ele mantém o foco narrativo na primeira pessoa, o tendencioso marido com histórico de crises de ciúmes. Além do foco narrativo tornar a objetividade do relato questionável, torna o alcance de sua verdade limitado. Bento pode contar o que ele viu, o que ele ouviu ou o que contaram para ele. Mas não pode falar o que pensam e sentem os outros se essas coisas não forem exteriorizadas. Esse é um elemento importante na diferenciação da forma de Dom Casmurro: tanto em Madame Bovary como em O primo Basílio, o narrador é uma terceira pessoa, um observador apenas, e é um observador onisciente, que sabe o que todos pensam e sentem: por isso não há dúvida sobre a verdade.

Dar à ação principal da obra caráter psicológico tudo que Bento conta é o que ele lembra. E por isso está sujeito a muitas marcas do tempo: o tempo da ação mais importante de Dom Casmurro é o psicológico, o da lembrança, o da memória. E, como diz o Sr. Nogueira, narrador de Missa do Galo, a memória pode dar margem a confusões, contradições, enganos. Depois de tantos anos, coisas importantes se apagam e coisas não tão importantes adquirem muita força. Cerca de trinta anos separam Bento narrador de quando ele supõe ter descoberto a traição da esposa. Por mais que ele queira ser exato, não é possível.

Detalhar eventos que não contribuem para a compreensão dos fatos e omitir passagens importantes Notaram que Bentinho às vezes se demora muito em contar coisas que não servem para que compreendamos melhor quem é ele ou quem é Capitu? A morte e o enterro de Manduca, por exemplo: ele passa vários capítulos detalhando isso, como que para nos mostrar que vai nos contar tudo, tintim por tintim, sendo fiel à verdade. Mas, em contraste com esse desvio (apenas um exemplo de vários outros), temos hiatos de coisas importantes na obra. Cadê os cinco anos de estudo na faculdade de Direito? E com foi a relação com Capitu nesse tempo? A única coisa que ele tem a contar são as cartas? E quando se viram, nas ocasiões em que se encontraram, como foram os encontros? Como se portava Capitu? Como ele mudou durante esses cinco anos?

Não sabemos nenhuma dessas coisas. E aliás, note uma duplicidade interessantíssima: do mesmo jeito que Bento faz voarem os cinco anos de faculdade, ele faz voarem os cinco de vida de Ezequiel. Ele nos conta com bastante riqueza os dois anos de seminário, e apresenta vários episódios da vida de casado antes de Ezequiel nascer. Mas os cinco anos de faculdade e os cinco de vida de Ezequiel estão em branco. Considerando a soma de tempo dos estudos de Bento e a soma do seu tempo de casado temos duas vezes o número 7, formado pela mesma estrutura narrativa quanto à passagem desse tempo 2 anos detalhados + 5 anos omitidos.

Se o sete tem real significado, não sei. Pode ser uma pista falsa. Mas, pelo que eu conheço de Machado, um leitor de Poe, o sete está lá por um motivo. Vejamos os significados atribuídos ao número:

  • Sete são os pecados capitais (gula, avareza, luxúria, ira, melancolia, preguiça, vaidade e orgulho — não necessariamente nessa ordem), ao mesmo tempo que são sete as virtudes humanas (castidade, generosidade, temperança, diligência, paciência, caridade e humildade);
  • Sete são as cores do arco-íris, os dias da semana e as notas musicais — coisas que formam o mundo como o conhecemos — assim como sete é o número recorrente das fábulas: sete anões da Branca de Neve, sete cabritinhos da história com o lobo, sete léguas das botas do Gato de Botas, sete anos de feitiço eram recorrentes nas maldições — coisas inventadas;
  • Na numerologia, uma pessoa que é regida pelo número 7 é descrita como

“Aparentemente uma pessoa fria e calculista, mas na verdade super exigente com ela mesma e com o próximo. Geralmente se isola e prefere ser solitária, mesmo para se entregar a um relacinamento precisa de muito tempo e prefere antes ficar só para analisar.

“As pessoas dessa Vibração são individualistas e independentes. Estão sempre em desacordo com a opinião dos demais, por isso encontram-se, na maioria das vezes, sozinhos em seu caminho.”

Parece com um conhecido nosso?

  • E para terminar: diz-se, popularmente, que “sete é conta de mentiroso”, devido à recorrência do número em fábulas e contos de fadas: hitórias inventadas.

Não me perguntem o que significam os dois setes de Dom Casmurro: não sei, só sei que foi assim! Tá lá na obra, pista escondida pelo detetivesco Machadão. E nesse caso, elementar, meu caro Watson, o Robert Langdon é você e O Símbolo Perdido é o livro: o de Machado.

Com os hiatos e com o foco da narração limitado, apagam-se as certezas. E para tornar tudo cada vez mais ambíguo, acontece a duplicidade da semelhança e a duplicidade do espaço. A primeira acontece na extensão a Ezequiel de uma característica de Capitu: se a Capitu é tão parecida com a mãe de Sancha e elas não têm parentesco, isso pode perfeitamente ter se duplicado no filho e ele não ter parentesco algum com Escobar — o que contraria a tese de Bento da traição baseada nessa única materialidade. Aliás, alguém reparou que nenhum outro personagem declara essa semelhança toda entre Ezequiel e Escobar? Não é estranho isso?

A segunda é, no mínimo, intrigante: a casa de Engenho Novo é idêntica à casa de Matacavalos. Que dizer, idêntica do modo como a memória pode tornar possível ser: o espelho da memória sempre embaça as coisas. Mas, nesse processo, um detalhe parece estar fixado na mente de Bento: as pinturas da parede, que ele mandou reproduzir. A de César é a de Júlio César, o imperador romano. “Traído pelo filho! Que era adotivo, não era dele!” escutei alguém exclamando. “Não, o que foi apaixonado por Cleópatra e traído por ela!“, tem mais alguém achando significados. Calma, caro Watson! O buraco dessa história de Júlio César é mais embaixo: se ele foi traído por um grupo de conspiradores no qual estava seu filho adotivo, e se ele teve um caso com Cleópatra, a sedutora e misteriosa rainha do Egito, não, Cleópatra não traiu Júlio César. Ela teve o caso com Marco Antônio depois que César morreu. Mas, para completar a ambiguidade da coisa, vamos ao momento cultural do dia:

(Entra toque de sineta agudo e curto)

Você sabia que Júlio César foi casado, pela segunda vez, com uma tal de Pompeia? E que essa Pompeia foi acusada de sacrilégio e adultério e que teve que se divorciar de César por causa disso. E que César não acreditava na traição dela, mas afirmou que: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta“?

Agora você sabe, porque lê o Literarizando.

(Entra o toque de sineta. Fim do momento cultural)

É. Machadão ataca de novo!

Nero eu não preciso explicar quem foi: um imperador romano doidinho que tacou fogo na própria cidade — pelo menos é a fama que ele adquiriu. Mas não só ele tacou fogo na própria cidade: Nero teve um caso com a esposa de um amigo e ordenou o assassinato da própria mãe e da primeira esposa.

Bianca, o tacar fogo no próprio império pode ser uma alusão para o fato de Bento destruir a própria família ao se separar de Capitu?

And why not, Watson? Mas que a pintura pode ser mera coincidência, pode. Entretanto, olha mais uma recorrência do tema traição, nas pinturas: Massinissa foi um rei árabe (um mouro — olha uma alusão para uma alusão: o nosso mouro, O mouro de Veneza, o querido Otelo da coitada da Desdêmona) que achou que a esposa estar numa festa em homenagem à vitória de Cipião, chefe romano (de quem ele era ALIADO, entenda-se bem), e mandou de presente uma taça de veneno a ela, matando-a.

Homens que se separam da esposa inocente: ou que a matam. Nas paredes da casa. Disso Bento lembra. Será que é lembrança?

Será Machado dando pistas?

Não sei, só sei que foi assim!

Duplicar, duplicidade, ambiguidade. Claro que Bento não quer que a história tenha duplicidade: ele faz digressões, conversa com o leitor, analisando os fatos, as pessoas, opinando. Tenta nos convencer a pensar junto com ele, a pensar como ele.  Talvez essa seja uma lição de lá do mestre Poe: Auguste Dupin, o detetive, diz que se você quer pegar um bandido, tem que pensar como ele, para saber onde ele se esconde e o que pretende fazer. Só que Machado não quer nem que saibamos quem é o bandido nessa história: Bento, o marido rancoroso, o advogado que acusador, ou Capitu, que na vida adulta pouco espaço tem para falar na obra, que é silenciada, sufocada? Sufocada com Desdêmona, talvez, já que pode ser que esse Bento seja um Santo Iago. Será que o nome é a composição com o nome do mentiroso Iago, que espalha as pistas falsas sobre Desdêmona para que Otelo acredite ter sido traído? Para que nós acreditemos na traição de Capitu?

Pode ser. Não sei, só sei que foi assim, de novo. É que Machado tem o Dom. Todos os movimentos foram friamente calculados. E por isso ele construiu o mistério insolúvel, que nem Sherlock, nem Poirot, nem Miss Marple, nem Robert Langdon, nem Dupin, o pai de todos os detetives vai conseguir solucionas. Não adianta chamar a equipe do CSI: Dom Casmurro é um crime perfeito.

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