Romance Ideal

Eita que as férias acabaram! Só cinco minutinhos a mais, manhê!

Tá, cinco minutinhos não resolveriam, mas cinco dias, confessa, ia ser ótimo!

Mas “cabo-se o que era doce” e é MUITO bom estar com vocês de novo. Eu não canso de repetir isso: como é BOM ser professora de vocês! Cada início de semestre é aquela ansiedade por ver vocês, saber como estão, viver coisas novas junto com vocês! Juro que domingo passado eu nem dormi direito só pensando nisso.

E como o semestre começou, vamos que vamos. Bem vindos ao primeiro post. E com o detalhe que esse post é ultrachique! Não é só o primeiro post do segundo semestre como é o primeiro post da categoria Realismo da história do Literarizando. Já estava mais do que na hora de Machado adentrar o universo do blog.

E para começar, antes de eu falar dessa coisa de romance ideal, vai escutar o que os Paralamas disseram sobre isso. Clique aqui (e não me pergunte qual é a de TOP GUN nesse link. Eu não faço a mínima!).

Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance… Porque eu estou pagando pelos erros que eu não sei se eu cometi…

Parece que a gente pode resumir um tal de Bento Santiago nesses dois versos da canção dos Paralamas né? E é por isso que a canção cai como a luva. (Mensagem subliminar no grifo anterior. Pesquise Machado e você descobre qual é a referência.)

É, a história de Bentinho e Capitu é um romance ideal. Não porque seja uma história de amor perfeita – porque de perfeita a história deles não tem nada. É que romance, em literatura, é uma coisa diferente de história de amor. Romance, em literatura, é uma forma narrativa em prosa, assim como o conto e a novela. É, como a epopeia, uma das manifestações do gênero épico.

Ai, Bianca, vai devagar que eu tô voltando das férias! Como assim forma narrativa e gênero épico?

Tá bom, cara-pálida, eu me empolguei. Vamos fazer como Dexter (essa piada com Jack o Estripador tá muito velha!): vamos por partes.

Há muito muito muito muito muito muito muito muito muito (espero que você tenha captado o tédio da repetição) tempo atrás, quando se começou a pensar a teoricamente a literatura, Platão e Aristóteles perceberam que existiam três tipos de texto literário: o lírico, o dramático e o épico. O texto épico é a mesma coisa que texto narrativo — o narrativo tradicional, feito para ser lido e que tem um narrador contando para quem lê a história. Ele foi chamado de épico e não de narrativo porque as narrações artísticas da época receberam o nome de epopeia.

Tá, Bianca. Mas você disse que o romance é uma forma narrativa junto com o conto e a novela. E essa tal de epopeia?

Ô, Jesus, tem calma, criatura! Eu disse que o romance é uma das formas narrativas em prosa, como o conto e a novela. Então, no gênero épico ou narrativo (tanto faz aqui um nome ou outro), conto, novela e romance são feitos em prosa. Eu deixei a epopeia fora disso porque ela não é escrita em prosa, mas sim em versos.

Isso significa que a epopeia é um grande poema narrativo. E o que ela conta? Aí tem uma coisa importante: as aventuras de um herói que NÃO tem dilemas existenciais com o mundo.

É, esse não é importante. Ele vai diferenciar essencialmente a epopeia do romance. Mas vamos com calma entender esse lance de dilemas existenciais.

As epopeias contam as aventuras de grandes heróis que são seres de valor sobre-humano. Eles são reis, são príncipes, são superguerreiros, são filhos de deuses com mortais. As aventuras em que eles se metem são sempre grandiosas, grandes guerras, lutas contra monstros gigantescos e poderosíssimos. A epopeia não é pra qualquer um não, meu bem! E como ela não é pra qualquer um, esse herói tem que ser um grande exemplo para o povo que ele acaba representando na história. Ele tem que ser não apenas forte, valente, corajoso, mas também tem que ter qualidades nobres. O herói épico é um homem que cumpre seu dever. Se é pra ir se arriscar na guerra ele vai sem pensar duas vezes, porque ele faz exatamente o que se espera dele. É só ver essa cena de 300 pra lembrar: não importa quem o protagonista é e o que ele tem a perder, ele tem um dever a cumprir. E o herói vai, decidido a cumpri-lo sem se distrair com o questionamento se o que ele deve fazer é o que ele quer fazer.

Essa coisa de o que eu quero é coisa moderna, sabe? É coisa de quando começamos a valorizar o individualismo, o eu, em detrimento da comunidade. Isso de o que eu quero × o que esperam de mim é coisa de um mundo burguês. É coisa de romance.

É por isso que se diz que o romance é uma invenção da burguesia. Porque os personagens do romance não são mais os grandes heróis reis ou semideuses, as lutas deles não são mais guerras ferozes contra adversários invencíveis. Os personagens do romance são essas pessoas comuns, do dia a dia, e os problemas que elas enfrentam são os comuns do dia a dia. E todos eles se resumem em o que eu quero × o que querem que eu faça. TODOS.

Está duvidando? Vamos analisar rapidinho o argumento de três romances:

Frankenstein → antes que você faça cara de espanto, vou logo adiantar: Frankenstein é um romance gótico inglês. Mary Shelley, a autora, o escreveu numa reuniãozinha de amigos — diz a lenda num castelo muito antigo. Dessa reunião saíram dois dos monstros mais conhecidos da história da literatura: Frankenstein e o vampiro (Bram Stoker ia se basear na história escrita por John Polidori, na ocasião, para fazer Drácula).

Para quem não lembra de nada, em Frankenstein o protagonista não é o monstro, mas seu criador. O nome da obra é o sobrenome do estudante de medicina Victor, o “herói” do romance. Victor Frankenstein perseguiu obsessivamente o segredo de criação da vida e fez uma horrível experiência com eletricidade e um corpo feito de pedaços de outros corpos humanos. Quando ele conseguiu finalmente dar vida (It’s alive!) ao… ao bicho feio lá… ele se arrepende profundamente. A criatura que ele criou tem cérebro, mas digamos que o cérebro não funciona lá muito bem mais, depois de ter morrido. E não, o Victor Frankenstein não pensou nisso ANTES de fazer o seu monstrinho ficar vivo.

Resultado: Victor Frankenstein foi fazer o que queria e fez o que não devia. E ficou o restante da história tentando consertar o erro e tentando ficar em paz com o mundo. Para isso ele tem que matar o monstro que ele mesmo construiu.

Tá, eu sei, a história de Victor Frankenstein não é lá muito comum no século XIX. Mas não é nada incomum hoje em dia: quantos médicos, geneticistas biomédicos não lutam contra os problemas éticos de suas experiências? Não discutimos transgênicos, reprodução assistida, clonagem?

Vamos para outro exemplo, mais próximo do cotidiano.

Tieta do Agreste → esse é um romance de Jorge Amado que foi adaptado pela Globo na novela Tieta e também virou filme. Tieta foi expulsa da cidade de Santana do Agreste pelo pai aos 17 anos. Motivo:  Perpétua, sua irmã mais velha, pudica e reprimida, denunciou as aventuras amorosas (e eróticas) de Tieta. Vinte e cinco anos depois, Tieta volta rica e poderosa, disposta a ajudar a cidade.

Na volta de Tieta para Santana do Agreste o conflito entre a protagonista e o mundo que já estava firmado no início da obra (uma mulher liberal × uma sociedade ultraconservadora) se acentua. O quanto do caráter de Tieta pode ser julgado pela forma como ela vive? É possível que ela, uma mulher que vive de um dinheiro cuja fonte não é lá muito bem vista socialmente (vamos ficar por esses termos), possa ser aceita no círculo de Santana do Agreste como benfeitora? É possível a harmonia entre quem Tieta é e quer ser e quem a sociedade impõe que ela seja?

Pausa para minhas lembranças de infância com a reprise Tieta na televisão. Eu não tinha paciência pra novela, mas morria de curiosidade com o mistério da caixa de Perpétua. Joana Fomm estava impagável no papel!

Dom Casmurro → claro que eu tinha que falar do nosso romance ideal machadiano aqui né? O conflito eu × mundo de Dom Casmurro a história desse livro na história da literatura brasileira divulga para cada leitor que se depara com o livro. Um homem idoso e sozinho escreve seu livro de memórias e ali se concentra sobre a questão mais importante de sua vida: o enigma de Capitu.

Quem conta uma história, conta algo importante e que precisa ser compartilhado, perpetuado historicamente. Porque um homem precisa contar que foi traído pela sua esposa com seu melhor amigo, e precisa fazer isso no século XIX, é algo que não parece muito lógico. A não ser que ele esteja fazendo como a mulher de Atrás da porta, aquela que fica “te adorando pelo avesso / para provar que ainda sou tua”.  Mas a forma que Bento escolhe para maldizer Capitu se volta contra ele mesmo: é um homem que no século XIX diz que foi traído, claramente.

A não ser que o que ele deseje não seja compartilhar a dor da traição. Até porque ele diz que ficou muito bem depois de resolver o como ficaria o casamento. Diz ele.

A questão não é contar a traição. É ter certeza da traição. Porque se Bento não foi traído, ele cometeu um erro terrível. A mulher e o filho passaram a vida toda longe dele, e ele perdeu o amor de sua vida por causa de um ciúme maluco. Ele precisa ter sido traído. Mas como não tem certeza, está lá, pagando pelos erros que ele não sabe se cometeu.

A dúvida de Bento não o deixa ficar em paz com o mundo. Ele está lá, apegado ao passado e não encontra um lugar para si mesmo. Se ele foi traído, ele fez o que o mundo esperaria dele e tudo estaria bem. Mas se não foi, o que o mundo espera dele, homem apaixonado e chefe de família, é o contrário do que ele fez. E a dúvida… Ah, a dúvida. “Se eu queria enlouquecer esse é o romance ideal”!

Então, voltando a fita:

  1. Epopeia = narração em versos de feitos heroicos de um protagonista super-humano que deseja fazer exatamente aquilo que é seu dever social.
  2. Romance = narração em prosa na qual o protagonista é um homem comum (não é um semideus, nem um rei ou um  guerreiro especial) que se debate entre o que ele deseja fazer e entre o que a sociedade espera dele.

E o conto e a novela, Bianca?

O conto é uma narração em prosa curtinha, centrado num único episódio e contendo poucos personagens. Fazendo um paralelo, o conto é a narração equivalente à narração de um filme da TV. O filme conta a história rapidamente (em uma hora e meia, duas horas) e, como tem pouco tempo, concentra-se num único episódio e tem poucos personagens. Já a novela literária é como se fosse um seriado de televisão. Ao invés de ter um único episódio no qual se concentra, tem vários (e geralmente parecidos. No fim das contas o que House faz essa semana não é muito diferente do que ele fez semana passada nem do que ele vai fazer semana que vem). Como são vários episódios, existem personagens fixas, que são de número limitado, e personagens que vão e vêm, mas que são descartáveis. E o que liga um episódio e o outro pode ser apenas o fato de acontecerem com o mesmo personagem (no tempo do MacGyver não tinha isso de cada temporada de série contar uma historinha não. Aliás, já contei que minha mãe adorava o MacGyver? Ela achava o ator um gato!) ou pode ser um acontecimento mais longo na vida do protagonista. Nas novelas de cavalaria — que são as novelas literárias como as conhecemos — surgidas na Idade Média era comum elas se concentrarem apenas no protagonista, o cavaleiro, ou os episódios terem como “desculpa” uma viagem ou missão mais longa do cavaleiro. Algo do tipo: missão: levar a mensagem do papa ao rei de Aragão; obstáculos: ajudar todas as pessoas que precisam se proteção que encontrar no meio do caminho.

No caso da novela temos duas semelhanças com a epopeia: o cavaleiro não é um homem comum — não chega a ser sobre-humano, mas também não é uma pessoa comum do povo — e também não tem problemas com o seu dever. O que ele faz é justamente o que ele quer fazer e as aventuras do cavaleiro, como as aventuras dos heróis das epopeias, são sempre externas a eles. O romance é que pode ser destacado como a narração em que os conflitos são internos, entre “quem eu sou e o que quero fazer”e “quem o mundo obriga que eu seja”.

Bom, visto o que é o romance e que Dom Casmurro é o romance da dúvida, fica para o próximo post isso de romance ideal: o que faz de Don Casmurro um romance perfeito.

Beijos e até a próxima!

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