Na história da literatura, uma andorinha só…

… não faz verão. Como um galo sozinho não faz uma manhã.

Nada vem do nada, já dizia uma música de A noviça rebelde.

O fato é que tudo que já se escreveu um dia veio de alguma coisa que alguém disse. Tudo o que se disse, veio de algo que se escutou ou viu. Criação artística não é geração espontânea: é o produto de uma digestão cultural, que às vezes é longa, muito longa.

Uma coisa interessante a respeito das relações que as obras de arte travam é que esperamos, hoje em dia, que elas se assinalem pela diferença e pela originalidade. Um artista, pensamos, é alguém que tem um jeito único de fazer a sua expressão. Mas não faz tanto tempo assim que essa questão da originalidade era o último elemento que o público esperava nas obras.

Lembram quando vimos as relações entre a poesia erudita, a popular e a iconoclasta? Até o século XIX o público da poesia popular esperava sempre os textos com as mesmas regras de construção e o mesmo universo de referência que sempre tinha tido; o público da poesia erudita idem. Apenas 3% da população mundial sabia ler e escrever, e esses 3% tinha lido exatamente os mesmos autores. Aí vem a tal da burguesia assumir o papel de elite e, junto com ela, lá vêm os poetas iconoclastas a romper com aqueles padrões aos quais todos estavam acostumados. Foi com eles que essa ideia de originalidade surgiu. Se compararmos isso com a história da literatura no ocidente, que remonta ao século VIII a.C. temos 200 anos de originalidade contra 2.600 anos de tradicionalismo e repetição. Para você ter uma ideia, tradução, até o século XVIII, era autoria. Copiar trechos inteiros de outros textos, idem. Olha só essa construção poética empreendida conjuntamente por três letrados no Brasil do século XVII — Bernardo Vieira Ravasco, Antônio Vieira — ele mesmo, padre Vieira, — e Gregório de Matos. A propósito: não há qualquer confirmação de que o texto atribuído ao Pe. Vieira seja dele mesmo, tá?

Mas Bianca, se no século XIX os artistas começaram a querer fazer diferente, então eles romperam com isso! A partir daí fica tudo diferente!

Eles tentaram, ninguém pode negar. Mas entre querer e fazer existe uma distância… O que fica diferente, principalmente, é o jeito de dizer — ninguém pode negar. Mas o que se disse, ah, isso continua partindo do que os outros disseram antes, não tenha dúvida. Afinal, eles efetivamente LERAM o que foi produzido antes. Por mais que queiram apagar as marcas dessas leituras anteriores, elas estão lá, e acabam emergindo aqui e ali. Quanto mais um autor se preocupa em ser original, quanto mais ele se preocupa em dizer de um jeito novo ou algo que ninguém nunca disse, mais ele é atormentado pela angústia da influência, por saber que no fundo, no fundo, seu texto tem pitadas aqui e ali de um monte de outros textos.

Como cada artista de maior relevância digeriu essa angústia, só estudando detidamente um por um. O importante é você saber que ela existe, e que, muitas vezes, para apreciar um texto com toda plenitude, você precisa descobrir com quem ele conversa. Às vezes, para entendê-lo, você vai precisar saber disso. Uma leitura que não reconhece os diálogos intertextuais é muito mais ingênua e desatenta do que uma que os observa. É como você ver Mudança de Hábito depois dos primeiros 15 minutos de filme: perde a referência de onde vieram as músicas que as freirinhas vão cantar no filme todo e porque isso incomoda tanto as pessoas mais conservadoras. Ou ainda assistir a todo Moulin Rouge sem um conhecimento mínimo do cancioneiro pop. Se você vê essa cena (em que há uma confusão de identidades básica para dar humor à trama) sem nunca ter ouvido falar na canção de Os homens preferem as loiras, ou, no mínimo, sem nunca ter ouvido falar em Madonna com a Material Girl (ela mesma mais que intertextual!), uma boa parte da diversão do filme passa batidíssima.

E como eu faço para não perder essas referências na literatura?

Aí só tem um jeito: leia! Leia o máximo que puder, leia tudo que puder. Quanto mais ligações entre textos você fizer, mais os textos vão significar para você. E, de repente, algumas obras que pareciam absolutamente irrelevantes ou sem sentido podem mudar completamente.

E quais são as relações textos diferentes podem travar entre si mesmo?

Ok, vamos lá.

Se a conexão dos textos é feita de maneira direta, com a reprodução do texto original tal como ele foi escrito, estamos diante de uma epígrafe ou de uma citação. A única diferença entre essas duas formas de linkar um texto a outro é o espaço em que a reprodução foi feita. Se ela acontece entre o título do novo texto e seu corpo (e isso tanto acontece em livros como em textos curtos), temos uma epígrafe. Se a reprodução é feita no corpo do texto, temos uma citação. Simples assim.

Exemplos? Confira aqui que em Noite na Taverna Álvares de Azevedo não só abre o livro com uma epígrafe como depois, cada um dos textos (que funcionam como se fossem contos costurados por uma narração em terceira pessoa) são introduzidos por uma epígrafe também. Ah, e pode gravar o pdf para você sem medo: disponibilizado pelo Ministério de Educação e Cultura e pela Biblioteca Nacional, essa versão eletrônica não fere os direitos autorais de ninguém. O texto é legalmente de domínio público.

Se a transcrição desses trechos acontecesse no corpo da obra (como temos na página quatro do mesmo arquivo, em que se fala de Mary Stuart, uma peça de Friederich Schiller, escritor alemão, sobre a tragédia da rainha da escócia) teríamos uma citação.

A epígrafe pode ser usadas em vários tipos de obra. No cinema pode surgir uma epígrafe na abertura do filme. Na música ela pode estar no encarte do CD – a Legião Urbana recorreu a algumas epígrafes nos últimos discos. No último — A tempestade — a referência é Oswald de Andrade: “O Brasil é uma / República Federativa / cheia de árvores / e gente dizendo adeus“. Quem prestou atenção na época à fraca voz de Renato Russo em algumas das gravações já percebeu quem dizia adeus ali. Renato morreu poucos meses depois do lançamento do disco.

A citação também pode acontecer no cinema e na música. Confira a citação na música instrumental nessa cena de Superman Returns (perdão pela dublagem em espanhol, mas não achei outro vídeo com a música completa. A referência começa a ficar evidente a partir de 2:30) a citação da música dessa cena de Superman (a versão de 1978).  O recurso à citação foi muito explorado na poesia contemporânea através da técnica de bricolagem. Na bricolagem “colam-se” os recortes de vários textos diferentes de um modo em que se redimensiona seu significado — como aconteceu nessa cena de Moulin Rouge, formada por trechos de 11 canções diferentes.

A paráfrase e a paródia já são relações intertextuais menos explícitas. Na paráfrase o texto original é retomado numa relação de concordância. Seu sentido original e muitos elementos de forma são mantidos. Na paródia o texto original tem seu sentido desviado, num canto paralelo (para + ode). A paródia é frequentemente crítica e muitas vezes ironiza o texto original.

Em literatura de língua portuguesa não conheço referência melhor para a observação da paráfrase e da paródia que Canção do Exílio. O texto de Gonçalves Dias é o mais retomado de nossas letras. Aqui você pode conferir a paródia de Jô Soares, feita na época do impeachment de Collor, e aqui a paráfrase de Carlos Drummond de Andrade.

Por hoje é isso, pessoas. Quem se interessou pela questão da intertextualidade em Moulin Rouge, que explora tanto esse recurso, acho interessante dar uma olhada aqui e aqui. Você vai descobrir mais referências intertextuais usadas na construção do filme.

Beijinhos pra todos e até a próxima!

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