Essta tal de arte poética

Oi, pessoas!

Saudade de escrever aqui! A correria está é grande! E eu sentindo a maior falta do nosso espaço.

Não vou fazer postagens sobre Quinhentismo e Vieira (pelo menos não por enquanto) porque tem muita coisa no arquivo do blog. Podem fuçar bastante. Prefiro ir para aquilo que é novo, que é o nosso estudo sobre as tradições de poesia. Tão novo que estou criando uma categoria que não existia aqui no Literarizando ainda: vocês são a primeira turma que vai estudar literatura sem seguir caminhos tão historicistas — e isso vai ser muito bom

Até agora conversamos principalmente sobre a poesia popular — o que nos levou a falar um pouquinho sobre a poesia erudita também. Se, hoje em dia, essa divisão entre o que é popular e o que é erudito é particularmente difícil de ser feita no Brasil, na origem da poesia em língua portuguesa (e em nosso país numa época não tão distante, quando os índices de analfabetismo eram mais que vergonhosos), saber o que era erudito e o que era popular era bem fácil. O erudito era escrito, ficava no círculo das elites sociais e era produzido pelos chamados intelectuais dessas elites. O popular era oral, circulava nas ruas, nas praças, estava nas atividades do cotidiano, no trabalho na lavoura, nas atividades das lavadeiras nos riachos e fontes, nas brincadeiras infantis. O erudito era sério e pomposo, o popular era festivo e simples.

Se, talvez, um dia isso foi verdade, o fato é que hoje essa distinção é bem superficial, rasteira até. É por isso que eu prefiro falar em poesia de tradição popular e poesia de tradição erudita do que em popular e erudita propriamente. Hoje (e nem tão hoje assim) que um grande intelectual escolha, por muitos motivos diferentes, fazer textos que seguem os modelos e regras adotados pelos poetas populares de outrora. E com a democratização do conhecimento, nada impede que aquela personalidade popular, que o poeta da periferia, use com destreza as regras da poesia erudita.

Já vimos a principal regra da tradição popular: a manutenção de um padrão, em todo texto, que assegure a cadência rítmica para a veiculação oral do poema. Para manter esse padrão, os poetas de tradição popular dão preferência à redondilha (versos cuja métrica é de 5 ou 7 sílabas), a rimas intercaladas (geralmente com versos brancos) e a estrofes de quatro a sete versos. É importante notar, entretanto, que estes elementos (com exceção da métrica que é uma regra praticamente inquebrável na poesia popular) são preferências. Não há, em princípio, impedimentos para o poeta popular quando ao número de versos por estrofe, o que interfere na disposição das rimas. É o caso do belíssimo A morte de Nanã, do Patativa do Assaré (veja a declamação pelo próprio Patativa aqui). O poema tem as redondilhas maiores (7 sílabas poéticas) típicas da poesia popular, exploradas em estrofes mais longas, as décimas (estrofes de 10 versos).

Muitos teóricos de literatura afirmam que a décima, na verdade, é a combinação de uma quadra (4 versos) com uma sextilha (6 versos). Não sei até que ponto podemos justificar esse raciocínio, mas é interessante que notar que as décimas de A morte de Nanã rimam num padrão nos quatro primeiros versos (rimas intercaladas) e em outro nos seis restantes (duas rimas ficam emparelhadas — isto é, são sucessivas — e uma fica interpolada — tem duas emparelhadas separando as terminações).

Tá, eu sei, fica difícil entender sem ver. Então veja as duas primeiras estrofes para acompanhar o padrão.

Eu vou contá uma histora
Que eu não sei como comece,
Pruquê meu coração chora,
A dô no meu peito cresce,
Omenta o meu sofrimento
E fico uvindo o lamento
De minha arma dilurida,
Pois é bem triste a sentença
De quem perdeu na isistença
O que mais amou na vida.

Já tou velho, acabrunhado,
Mas inriba dêste chão,
Fui o mais afortunado
De todos fios de Adão.
Dentro da minha pobreza,
Eu tinha grande riqueza:
Era uma querida fia,
Porém morreu muito nova.
Foi sacudida na cova
Com seis ano e doze dia.

E as regras da poesia erudita? Ah, essas são cenas do próximo capítulo! Mas, se alguém quiser se aventurar, fica um desafio: comparem a forma usada pelo poeta popular Patativa do Assaré em A morte de Nanã com a forma usada pelo poeta erudito Fagundes Varela em um poema do mesmo tema, o Cântico do Calvário (clique aqui para ler o texto). A morte de Nanã eu deixo aqui, como uma homenagem ao Patativa do Assaré e a alguém que se comove muito com esse texto: minha vó postiça, dona Mariinha.  Dona Mariinha trabalha para minha família desde que minha mãe tem cinco anos de idade. Depois que meu avô morreu, quem tem mais moral na família é ela, com todo mundo. Ela foi trabalhadora rural, e fala  sobre o cultivo da terra e a infância dela ao lado do pai, na lavoura, com um encantamento que é comovente!

Quem topa o desafio e arrisca a comparação da forma entre o Cântico do Calvário e A morte de Nanã?

Beijinhos para vocês!

Eu vou contá uma histora
Que eu não sei como comece,
Pruquê meu coração chora,
A dô no meu peito cresce,
Omenta o meu sofrimento
E fico uvindo o lamento
De minha arma dilurida,
Pois é bem triste a sentença
De quem perdeu na isistença
O que mais amou na vida.

Já tou velho, acabrunhado,
Mas inriba dêste chão,
Fui o mais afortunado
De todos fios de Adão.
Dentro da minha pobreza,
Eu tinha grande riqueza:
Era uma querida fia,
Porém morreu muito nova.
Foi sacudida na cova
Com seis ano e doze dia.

Morreu na sua inocença
Aquêle anjo incantadô,
Que foi na sua isistença,
A cura da minha dô
E a vida do meu vivê.
Eu bejava, com prazê,
Todo dia, demenhã,
Sua face pura e bela.
Era Ana o nome dela,
Mas, eu chamava Nanã.

Nanã tinha mais primô
De que as mais bonita jóia,
Mais linda do que as fulô
De un tá de Jardim de Tróia
Que fala o dotô Conrado.
Seu cabelo cachiado,
Prêto da cô de viludo.
Nanã era meu tesôro,
Meu diamante, meu ôro,
Meu anjo, meu céu, meu tudo.

Pelo terrêro corria,
Sempre sirrindo e cantando,
Era lutrida e sadia,
Pois, mesmo se alimentando
Com feijão, mio e farinha,
Era gorda, bem gordinha
Minha querida Nanã,
Tão gorda que reluzia.
O seu corpo parecia
Uma banana-maçã.

Todo dia, todo dia,
Quando eu vortava da roça,
Na mais compreta alegria,
Dento da minha paioça
Minha Nanã eu achava.
Por isso, eu não invejava
Riqueza nem posição
Dos grandes dêste país,
Pois eu era o mais feliz
De todos fio de Adão.

Mas, neste mundo de Cristo,
Pobre não pode gozá.
Eu, quando me lembro disto,
Dá vontade de chorá.
Quando há sêca no sertão,
Ao pobre farta feijão,
Farinha, mio e arrôis.
Foi isso que aconteceu:
A minha fia morreu,
Na sêca de trinta e dois.

Vendo que não tinha inverno,
O meu patrão, um tirano,
Sem temê Deus nem o inferno,
Me deixou no desengano,
Sem nada mais me arranjá.
Teve que se alimentá
Minha querida Nanã,
No mais penoso matrato,
Comendo caça do mato
E goma de mucunã.

E com as braba comida,
Aquela pobre inocente
Foi mudando a sua vida,
Foi ficando deferente.
Não sirria nem brincava,
Bem pôco se alimentava
E inquanto a sua gordura
No corpo diminuía,
No meu coração crescia
A minha grande tortura.

Quando ela via o angu,
Todo dia demenhã,
Ou mesmo o rôxo beju
De goma de mucanã,
Sem a comida querê,
Oiava pro dicumê,
Depois oiava pra mim
E o meu coração doía,
Quando Nanã me dizia:
Papai, ô comida ruim!

Se passava o dia intêro
E a coitada não comia,
Não brincava no terrêro
Nem cantava de alegria,
Pois a farta de alimento
Acaba o contentamento,
Tudo destrói e consome.
Não saía da tipóia
A minha adorada jóia,
Infraquecida de fome.

Daqueles óio tão lindo
Eu via a luz se apagando
E tudo diminuindo.
Quando eu tava reparando
Os oínho da criança,
Vinha na minha lembrança
Um candiêro vazio
Com uma tochinha acesa
Representando a tristeza
Bem na ponta do pavio.

E, numa noite de agosto,
Noite escura e sem luá,
Eu vi crescê meu desgôsto,
Eu vi crescê meu pená.
Naquela noite, a criança
Se achava sem esperança
E quando vêi o rompê
Da linda e risonha orora,
Fartava bem pôcas hora
Pra minha Nanã morrê.

Por ali ninguém chegou,
Ninguém reparou nem viu
Aquela cena de horrô
Que o rico nunca assistiu,
Só eu a minha muié,
Que ainda cheia de fé
Rezava pro Pai Eterno,
Dando suspiro maguado
Com o rosto seu moiado
Das água do amô materno.

E, enquanto nós assistia
A morte da pequenina,
Na menhã daquele dia,
Veio um bando de campina,
De canaro e sabiá
E começaro a cantá
Um hino santificado,
Na copa de um cajuêro
Que havia bem no terrêro
Do meu rancho esburacado.

Aqueles passo cantava,
Em lovô da despedida,
Vendo que Nanã dexava
As misera desta vida.
Pois não havia ricurso,
Já tava fugindo os purso.
Naquele estado misquinho,
Ia apressando o cansaço,
Seguido pelo compasso
Da musga dos passarinho.

Na sua pequena bôca
Eu via os laibo tremendo
E, naquela afrição lôca,
Ela também conhecendo
Que a vida tava no fim,
Foi regalando pra mim
Os tristes oínho seu,
Fêz um esfôrço ai, ai, ai,
E disse: “Abença, papai!”

Fechô os óio e morreu.
Enquanto finalizava
Seu momento derradêro,
Lá fora os passo cantava,
Na copa do cajuêro.
Em vez de gemido e choro,
As ave cantava em coro.
Era o bendito prefeito
Da morte do meu anjinho.
Nunca mais os passarinho
Cantaro daquele jeito.

Nanã foi, naquele dia,
A Jesus mostrá seu riso
E omentá mais a quantia
Dos anjo do Paraíso.
Na minha maginação,
Caço e não acho expressão
Pra dizê como é que fico.
Pensando naquele adeus
E a curpa não é de Deus,
A curpa é dos home rico.

Morreu no maió matrato
Meu amô lindo e mimoso.
Meu patrão, aquele ingrato,
Foi o maior criminoso
Foi o maió assassino.
O meu anjo pequenino
Foi sacudido no fundo
Do mais pobre cimitero
E eu hoje me considero
O mais pobre dêste mundo.

Soluçando, pensativo,
Sem consôlo e sem assunto,
Eu sinto que inda tou vivo,
Mas meu jeito é de defunto.
Invorvido na tristeza,
No meu rancho de pobreza,
Tôda vez que eu vou rezá,
Com meus juêio no chão,
Peço em minhas oração:
Nanã, venha me buscá!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s