Literariedade e suas polêmicas – o caso Anne Frank

Hey,pessoas bonitas!

Depois de duas semanas duzinferno é tão bom poder vir aqui! A lei de Murphy (um link só porque teve UMA criatura que me perguntou esse ano o que é a lei de Muprhy, e o Literarizando também é cultura inútil! :P) esteve comigo durante os últimos quinze dias, afff! Postar que era bom não rolou mesmo!

Bom, águas passadas não movem moinhos, então, deixa. Bora pro que interessa: um jeitinho de revisar conteúdo de prova com gabaritação de exercícios da ficha 5!🙂

O diário de Anne Frank… Literatura ou não, eis a questão! Não, não vou responder, nem se iludam! Eu só vou ajudar vocês a acharem as respostas.

Temos muitos motivos para perceber o diário de Anne Frank como texto literário e outros tantos para não. Olhando a entrada de 11 de novembro de 1943, achamos uma entrada com um elemento absolutamente extraordinário (no sentido de incomum) para um diário: uma entrada com título! Anne escolheu, nessa data, produzir um texto que é uma verdadeira crônica (confira aqui um ótimo texto sobre esse gênero textual), um tipo de texto que, pelas próprias características, tem um pé na literatura — às vezes os dois. E no caso desse texto, particularmente, vemos uma narração (e não um simples relato) cuidadosamente arquitetada. Há um desenrolar dos fatos que culmina num momento de tensão (o paradeiro desconhecido da caneta tinteiro) e uma conclusão sobre os eventos que nos dá a dimensão da espirituosidade que Anne desenvolveu como escritora.

O texto de 11 de novembro de 1943 (ou a Ode à minha caneta de tinta permanente) é, certamente, um texto com características literárias. Mas observe que ele é um (eu, pelo menos, não lembro de outro com as mesmas características de construção narrativa) em todo o diário. Não é possível julgar O diário de Anne Frank como texto literário apenas com base nas características dessa entrada.

E a entrada de 8 de novembro de 1943? Ela tem a estrutura comum a todas as demais entradas do diário (ou pelo menos a maioria massiva): uma carta para Kitty, a interlocutora imaginária, que é o próprio diário como Anne escolheu personificá-lo. Se lembrarmos do início da obra, vemos que Anne declara que o propósito do diário é substituir a figura do amigo que ela não tem. Ela estabelece a identidade dessa amiga como Kitty, como uma leitora que poderia compreendê-la, como ela espera que essa verdadeira amiga faria.

Essa entrada tem como característica mais marcante a poeticidade alcançada nos parágrafos finais, principalmente a imagem construída por Anne do Anexo como um círculo por entre nuvens densas e ameaçadoras (que simbolizam os problemas da guerra e do Holocausto que ameaçam Anne, sua família e os demais moradores do Anexo). A linguagem usada nessa parte do texto é marcantemente conotativa, simbólica, o que evidencia uma preocupação com a estética textual.

Se pensarmos em conteúdo, o texto de 11 de novembro de 1943 é que dá suporte à tese de Francine Prose de que O diário de Anne Frank é uma obra literária. Partindo de um acontecimento real, Anne manipula eventos e pessoas para dar ao texto ritmo e suspense. Se considerarmos a linguagem como elemento definidor da literariedade de um texto, a entrada de 8 de novembro de 1943 é que pode ser usada como argumento.

Essa ambivalência oferece um pequeno nó conceitual. É possível que um texto seja considerado literário apenas quando tem uma dessas características? Depende. Há teorias da literatura que inferem que sim e outras que afirmam que não. Entretanto, considerando-se que a questão 4 se refere à recepção do livro como literário em oposição a um livro de memórias comum, a mim parece elemento mais inesperado no livro de memórias a ficcionalização da realidade, a sobreposição da narrativa ao relato. O livro de memórias, em princípio, deveria contar as coisas como aconteceram, sem preocupação com um ritmo narrativo e um suspense. É um pressuposto do gênero.

Isso não significa que quem propôs a linguagem poética como sendo o elemento para definir o caráter literário de O diário de Anne Frank errou a questão 4. Depende da argumentação. Dediquem-se a argumentar, pessoas: a prova de quinta vai pedir muito isso!

Uma síntese por agora: SE O diário de Anne Frank não pode ser considerado um texto literário, podemos ver potencialidades enormes de literariedade em sua escritora. Que Anne teria se tornado uma artista da palavra se houvesse sobrevivido ao holocausto, eu não teria dúvidas. A habilidade com a linguagem já é algo que podemos perceber nos textos de sua adolescência, bem como a capacidade de manipular a narrativa. E, além disso, Anne desenvolveu, sim, uma capacidade de observar a realidade que não é exatamente comum a qualquer pessoa. A maneira como ela apresenta as expectativas e temores dos moradores do Anexo (incluindo a si mesma, como vemos no segundo, terceiro e quarto parágrafos da entrade de 8 de novembro de 1943) e como oferece informações que ficariam obscuras para o leitor comum, que não conhecia a realidade do Anexo (como a referência a todas as negociações necessárias para se dividir os espaços do Anexo e coordenar as atividades — escrever, estudar, catar feijões na entrada de 11 de novembro).

2 thoughts on “Literariedade e suas polêmicas – o caso Anne Frank

  1. Professora, quando fala-se que Anne Frank não tem um pacto de ficção com o leitor não concordo, pois ela não descreve a verdadeira maneira de que tudo aconteceu, só para começar o autoria do livro não é dela ( De acordo com a o que diz o livro) o livro ¨o diário de Anne Frank¨é nada mais do que baseado no diário de uma menina judia chamada Anne Frank( Acho eu).Levando isso em consideração ¨O diário de Anne Frank¨ poderia ser considerado uma obra literária? E o que esta pode esta errado nesse raciocínio?

    • Arthur,

      Vamos, como Jack, por partes.

      “quando fala-se que Anne Frank não tem um pacto de ficção com o leitor não concordo, pois ela não descreve a verdadeira maneira de que tudo aconteceu”

      Pelo que eu entendi, você assume que Anne não relata as coisas com fidelidade, pois ela tem uma percepção subjetiva do assunto (corrija-me se eu tiver entendido mal!). Se for assim, é interessante lembrar que Samira Campedelli e Jésus Barbosa, em texto sobre o Quinhentismo brasileiro (que está na ficha 6, questão 2, último texto) dizem:

      “não podem ser considerados literatura artística, e sim manifestações literárias, já que não são criações de caráter artístico, mas produtos da observação ora objetiva, ora subjetiva”.

      Veja então que a subjetividade e, com ela, a fantasia solitária da realidade, o exagero dela, não constituem um critério para caracterizar o texto como ficcional. O pacto que Anne (e aqui podemos assumir Anne a pessoa que realmente existiu ou a entidade autoral que se constrói com a edição do livro) assume com o leitor é que seu texto relata o que aconteceu com ela e sua família. Ela não assume que as pessoas que aparecem em seu livro são personagens inventados por ela.

      Quanto ao livro, ele é a reprodução do diário da Anne. Evidentemente, essa reprodução não é do diário exatamente como ele foi feito, porque foi feito um processo de revisão dos textos, seleção (Otto Frank censurou algumas partes, atendendo alguns desejos que Anne manifestara no processo da reescritura e intervindo, ele mesmo, em outros, que não julgou apropriados, na época). Mas, ainda assim, ele se apresenta ao leitor como a publicação do diário, não uma obra de ficção baseada no diário. Obras de ficção baseadas diretamente no testemunho de Anne temos uma peça de teatro e uma adaptação para o cinema (em 1959) e uma para a TV (em 2001).

      O diário não é ficcional, não estabelece essa condição com o leitor. E SE, levando em consideração APENAS o caráter ficcional do conteúdo um texto é literário quando o pacto da ficção se firma com o leitor, E o diário não estabelece o pacto ficcional, PORTANTO…😛

      Resta observar o outro elemento, o da linguagem. E aí, é ou não é?🙂

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