História da literatura: mais e mais dos mesmos

Oi, povo!

Já estava agoniada de não vir aqui encontrar vocês. Essas duas semanas foram agitadas e essa semana, principalmente, foi quente pra dedéu. E calor tem tudo a ver com minha disposição pra postar, já que a minha casa é uma sauna (apartamento em andar baixo e poente é uma sucursal do inferno no verão… nesse, então, é o primeiro círculo do inferno de Dante) e o quarto onde fica o computador é um verdadeiro forno.

Mas hoje o calor foi menor, está rolando uma brisa amiga aqui e a inspiração veio me visitar. Então, como diria uma repórter excessivamente simpática da Record, bora lá?

As nossas últimas conversas foram sobre os mitos que cercam a literatura. Acredito que vocês não têm maiores problemas com os mitos da realidade, do significado e da expressão das emoções (se eu estiver errada avisem, por favor!). A mistificação dos temas — essa coisa de acharmos que dá para reconhecer um artista ou movimento artístico pelo tema de que ele trata — foi o nosso último elemento de trabalho e, às vezes, parece ser o mito mais difícil de combater.

Não se iludam. A história da literatura e da arte é sempre mais do mesmo, como diria Renato Russo. Os temas passam, depois voltam, e passam, e voltam, e por aí vai… É que o que nos toca, o que é realmente importante para nossa experiência humana sobre a Terra, no fundo no fundo, são exatamente as mesmas coisas. A vida e essa coisa de sermos carne e espírito, ou de sermos apenas carne, ou de sermos espírito apesar de ser carne… A morte… O desejo de ser feliz, de amar, de ser amado… As desigualdades sociais… A nossa relação com o lugar onde vivemos, ao qual pertencemos — nossa cidade, nosso lar, nosso país. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como observou Camões, não importa: estas questões estão lá, e é sobre elas que os escritores se debruçam. Nós temos ideias diferentes sobre elas, respostas diferentes para esses problemas, mas eles, os problemas humanos, são os mesmos.

Em sala, observamos o tema do carpe diem, ou, ainda, da efemeridade da vida. Geralmente os livros de história da literatura vão usar essas expressões para mencionar temáticas particularmente importantes para o Barroco (movimento artístico do século XVII) e o Arcadismo (movimento artístico do século XVIII). Mas antes e depois desses movimentos o tema estava lá, ecoando nos textos de autores do Classicismo (século XVI), do Romantismo (século XIX), do Modernismo (século XX) e em muitos outros movimentos artísticos.

Observem os poemas que foram destacados no material de vocês. O primeiro texto, esta lira de Tomás Antônio Gonzaga, aborda a temática da passagem do tempo e da efemeridade da vida a partir do ponto de vista de um homem do campo (observe a presença das expressões “façamos de feno um brando leito“, “o velho cordeiro está deitado“, “ferro do torto arado“: fazem referências a um universo rural) que, em sua simplicidade, entende que, se a vida é passageira, deve-se aproveitá-la enquanto se é jovem e se tem força para isso (“aproveite-se o tempo, antes que faça / o estrago de roubar ao corpo as forças / e ao semblante a graça“). Detalhe que o homem do campo que fala no texto não é o Gonzaga, seu autor, mas Dirceu, o pastor inventado por Gonzaga. Lembram de que essa coisa de que a literatura exprime as emoções do artista é mito? Tanto é que no Arcadismo uma convenção artística, um modelo que se tinha que seguir para atingir os ideais da época, era a imitação dos poetas gregos e latinos. E esses poetas faziam textos em que se passavam por pastores de ovelhas que habitavam uma região chamada Arcádia (daí que veio o nome Arcadismo). Por causa dessa característica, para bem imitar esse poetas, os autores árcades cultivaram o pastoralismo, a imagem idealizada de pastores e pastoras vivendo felizes num cenário campestre de uma natureza meiga e tranquila.

Sendo o pastor um homem simples, que vive em um ambiente de tranquilidade e paz, a questão da efemeridade da vida, para ele, não representa maiores conflitos. Se o destino é ímpio, impiedoso, insensível, então o que se pode fazer é aproveitar a existência antes que a oportunidade acabe. Observe que essa é uma atitude conformada, e que é fruto de uma forma racional de lidar com o problema. Esse racionalismo já não é característico nos textos do Barroco e do Romantismo, época em que as emoções estavam em evidência. No caso do Barroco, as emoções ganham destaque porque o movimento aconteceu numa época marcada por muitos conflitos religiosos. O homem daquele período viva muita angústia existencial, angústia essa que podemos perceber no texto do Gregório de Mattos.

Observe que na primeira estrofe existe uma constatação da realidade, de que todas as coisas são finitas e acabam encontrando seu contrário (o sol nasce, mas vai embora — morre, metaforicamente —; a luz é passageira e seguida pela noite; a formosura, isto é, a beleza, vira feiúra — as tristes sombras do texto —; a alegria vira tristeza). E logo em seguida, o poema questiona essa realidade, mostrando inconformismo, incapacidade de entender porque as coisas são assim. Como não obtém respostas, o texto retoma o raciocínio inicial, frisando que a única certeza é a da incerteza das coisas.

Os conflitos que o homem barroco vivenciavam são tão fortes que não apenas interferiam no seu modo de perceber as coisas, mas também afetavam as escolhas estéticas de sua arte. Observem que em todo o texto o autor buscou o contraste entre coisas opostas para ressaltar o conflito existente no mundo. Ele fez isso através das figuras de linguagem que chamamos de antítese e de paradoxo. Aqui no blog você vai encontrar postagens com muitas informações sobre essas figuras de linguagem. Pesquise também aqui , aqui e aqui.

Agora observe — e essa é uma das coisas que me faz achar literatura o máximo — como, não apenas o texto barroco e o texto árcade se expressaram de maneiras muito diferentes sobre o mesmo tema, mas que também o texto romântico é muito diferente deles. Mesmo sendo um texto emocional e pessimista, como o texto barroco, a forma usada para a construção do texto, o estilo é muito diferente. Além de não explorar os contrastes (e, por isso, não precisar da antítese e do paradoxo), o poema de Álvares de Azevedo tem uma característica que o distingue de todos os outros poemas do conjunto: a importância do eu. Veja que no poema 1 (o de Gonzaga) e no poema 4 (da Cecília Meireles, daqui a pouco eu falo dele), há um interlocutor (a Marília, no poema 1, e um tu que não sabemos quem é, no poema 4) a quem os textos se dirigem e que em ambos, assim como no poema de Gregório de Mattos, a referência à passagem do tempo é como algo que acontece a tudo e a todos. No poema do Álvares de Azevedo, não. A questão desse texto é a passagem da vida do eu, de mais ninguém. Esse egocentrismo é muito típico do Romantismo, o movimento do qual o Álvares de Azevedo fez parte, e, principalmente, da geração de poetas do Álvares de Azevedo, conhecida como ultrarromântica ou mal-do-século. Se o Romantismo foi um movimento artístico em que as emoções eram muito valorizadas, na sua segunda geração de poetas essas emoções foram exacerbadas ao máximo e predominou a melancolia, o pessimismo, a depressão, o tédio. Morrer muitas vezes era uma ideia reconfortante, porque representava o fim do sofrimento, da vivência dessas emoções ruins. E veja que essa ideia está lá no texto do Álvares de Azevedo: embora a morte represente uma perda para a família — especialmente a mãe e a irmã — e para o próprio eu do poema, que não terá mais a natureza e não mais viverá o amor, a morte é também o fim da dor (“essa dor da vida que devora / (…) /A dor no peito emudecera ao menos / Se eu morresse amanhã!“).

Melancolia é também uma característica do poema da Cecília Meireles, essa fantástica escritora do Modernismo brasileiro, cuja vida daria uma tragédia grega, de tantas perdas que teve (veja nessa biografia aqui). Mas a melancolia do Álvares e a da Cecília são muito diferentes. Eles viveram em épocas diferentes, escreveram os textos em idades diferentes, tiveram experiências de vida diferentes. Isso faz com que o entedimento da vida e da morte mude, e muito. O poema de Cecília, embora melancólico, não é pessimista, mas sereno. Além disso, a referência à morte não é individualizada, pessoalizada como no texto de Azevedo. A morte parece afligir o interlocutor a quem o poema se refere, acalma e conforta. Morrer, no texto de Cecília Meireles, é deixar de ser enquanto se continua sendo (sim, isso é um paradoxo, como também são as dos dois últimos versos do poema). É que morrer é apenas mudar, para quem acredita na perenidade da alma. Se a vida é efêmera, essa efemeridade é do corpo, e há formas de se superar esse caráter passageiro, formas de continuar sendo. Se no jardim de nossas vidas acabaremos vendo rosas franzidas (murchas) e cinzas (desbotadas, sem cor), isto é, computaremos perdas, sejam elas de sonhos, de sentimentos, de pessoas que amamos, há quem se deixe espalhar por aí, se propagando pelo vento. Todos os escritores que lemos nessa discussão do carpe diem são pessoas assim, por sinal. Mortos há tanto tempo, há séculos a maior parte deles, e vivos, pelo que nos legaram. Ao “perderem” coisas de si mesmos, abandonando suas folhas (desfolhando-se, eles, nos textos com que nos presentearam, as outras pessoas naquilo que elas deixam de si para o mundo), eles alcançaram a eternidade, o seu sem fim. Desfolhar-se é se permitir o desapego, é propiciar que as coisas velhas — sonhos, vontades, sentimentos, o próprio corpo — se vão para que surjam outras. Desfolhar-se é renovar-se e também morrer — não porque a morte é uma fuga, mas porque ela existe, é inevitável e não é algo tão terrível (afinal, “Também é ser deixar de ser assim“).

Os espinhos? Os espinhos são as coisas que, nas flores, machucam. As mágoas, que sofremos. Possivelmente também as que infligimos aos outros também. No caso, os espinhos são da voz lírica que fala no texto (isso foi pessoalizado no poema).

Essa visão conformada sobre o fenômeno da efemeridade da vida (presente no poema de Tomás Antônio Gonzaga e no de Cecília Meireles, como vimos) também se faz notar na letra da canção de Lulu Santos e Nelson Motta (clipe ao vivo aqui!). Como uma onda, cujo título alternativo é Zen-Surfismo é o mais recente dos cinco textos. Ele se assemelha um pouco ao texto de Gregório de Mattos pelo fato de refletir sobre a passagem do tempo e a inconstância das coisas a partir de elementos da natureza. Entretanto, a perspectiva dos fenômenos é muito diferente. O poema de Gregório de Mattos, pela angústia existencial do Barroco, questiona essa inconstância, deseja a estabilidade, a permanência. O texto de Lulu Santos e Nelson Motta não, e a explicação para esse ponto de vista tão sereno é a fonte das ideias veiculadas no texto: o zen-budismo (e olha a criatividade no uso da língua na formação do neologismo surfismo, que faz a evocação de budismo). Um dos princípios do budismo e do zen-budismo (uma vertente do budismo) é o princípio da impermanência e o postulado de que aceitar a impermanência e praticar o desapego (das coisas materiais, das pessoas que se ama, de si mesmo) é uma das formas de se atingir a elevação espiritual. Confira essa ideia mais aprofundadamente aqui.

Nossa, fazia tempo que eu não montava um post tão longo. Esse aqui já deu. As questões de aprofundamento da ficha 4 e o conteúdo da prova ficam para o próximo post. Daqui pra sábado eu publico, ok?

Xêro, pessoas!

One thought on “História da literatura: mais e mais dos mesmos

  1. tem muita coisa pra estudar.. pelo menos tem esse blog pra resumir ^^

    se eu tirar um 7 nessa prova, tou mais do que feliz..

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