Reflexões carnavalescas (ou O que literatura e patinação no gelo têm em comum?)

Hello, pessoas!

Saudades de encontrar com vocês! Que tal o reinado de Momo? Viajaram? Brincaram? Beijaram? Descansaram? Todas as alternativas anteriores?

Eu, que exerço minha porção pessoa-claustrofóbica quando falamos de ambientes abertos nos quais se espremem 500 pessoas num espaço em que só cabem 50, fiquei bem quietinha em casa, curtindo o descanso. E aproveitei para ver as competições de patinação no gelo das Olimpíadas de Inverno, que estão rolando lá em Vancouver.

Assistindo à competição das duplas (que é a que eu mais gosto, a mais bonita pra mim), fiquei pensando como a patinação artística e a literatura são parecidas.

Não, eu não surtei de vez. Siga a minha versão!

Quando nós buscamos a definição de arte e de literatura, chegamos ao conceito de que a arte é o meio, o objeto que construímos através de uma técnica inovadora, criativa. Esse objeto expressa nossa forma de ver, de interpretar o mundo e nossos conceitos de beleza. Essa técnica consiste na combinação consciente, proposital dos elementos que compõem o objeto que construímos, de modo a obter um efeito de beleza neles.

Como literatura é a modalidade de arte que se define por usar a palavra, a linguagem verbal como elemento básico da composição, os textos literários têm como característica principal a preocupação com o COMO dizer, o COMO organizar as palavras que constituem a mensagem. Se relembrarmos os elementos que formam o ato da comunicação, o assunto (as informações sobre o assunto, também chamado de referencial) não é tão importante. Uma notícia de jornal, uma receita culinária têm preocupação extrema com o seu assunto. O texto literário não. O assunto pode ser completamente obscuro, de o autor quiser que seja assim. A forma COMO se fala dele é mais importante.

Momento nerd: isso está me lembrando agora uma cena do Matrix Reloaded. Nela Neo, Morpheu e Trinity encontram com um personagem chamado Merovíngio, que é uma espécie de mafioso. O tal do Merovíngio os recepciona e, no meio da conversa (ou é no início, não lembro), começa a falar em francês. O que ele diz até hoje eu não sei – eu não falo francês (ainda! Um dia eu aprendo!) e não tem legenda no DVD em idioma nenhum. Só sei que tem uma hora que ele solta um merd (ou será mèrd? Grafia em francês pode ser muito esquisita) merde (UPTADED graças a Jade e a meu amigo Bruno!). E logo depois ele diz que o francês é uma língua fantástica, porque você pode falar os piores xingamentos e ainda ser extremamente chique quando faz isso (ele compara com se limpar após usar o sanitário com um lenço de seda).

E o sentido da minha divagação é que da mesma maneira que falar os piores impropérios e isso parecer uma coisa legal porque se escolhe o francês para fazê-lo, é que em literatura você pode escolher falar as coisas mais sem sentido e isso ainda ser interessante e criativo: porque o trabalho com a linguagem, as explorações de significado das palavras e das sensações que elas provocam (visuais e auditivas) é que tem mais relevo na identificação do texto literário. Um exemplo clássico é a letra de uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que faz parte do disco Tropicália ou Panis et Circenses (um marco na história cultural do país): Batmacumba. É isso que você leu, Batmacumba. Aliás, aproveita e dá uma olhada no texto aqui e numa análise dele aqui. E antes que você me pergunte se quem pirou mais foi o Caetano e o Gil quando fizeram a canção ou se foi o Gonzalo Aguilar, que é o autor do texto citado no site do Antonio Miranda, eu já digo que não sei. Que a análise do Gonzalo faz sentido, faz. Mas que eu nunca que ia chegar à interpretação que ele teve dessa viagem do Caetano e do Gil sem ler o texto, ah, não ia nunquinha!

Abrindo um parêntesis — antes que você me pergunte se letras de música é literatura, leia isso aqui. O Antônio Cícero, que é poeta e letrista (ou, melhor, poeta, apenas – para mim a música é mera circunstância, no caso dele), tem um texto fabuloso sobre o assunto e eu concordo com ele em gênero, número e concordaria em grau, se grau tivesse relação de concordância.

Retomando. Essa questão do texto nonsense é a teoria básica do que é literatura aplicada na prática com o máximo de radicalismo. E por ser muito radical essa proposta, são pouquíssimos os escritores que abandonaram completamente o compromisso com a lógica. Portanto, relaxe: você dificilmente vai ter que lidar com um Batmacumba e muito menos ser desafiado a interpretar um texto assim. Só se você for masoquista corajoso o suficiente para encarar uma faculdade de Letras — e olhe lá!

E o que patinação artística tem a ver com isso tudo? Tudo, ué.

Na patinação artística não importa o que se faz (patinar do ponto A para o ponto B). Importa como se faz: a trajetória sinuosa, a expressão do corpo… O ato de se deslocar usando patins, em si, é pouco para a patinação que se faz arte. Nela é muitíssimo mais relevante as posições do corpo (em pé, agachado, de frente, de costas, com uma perna para trás, para cima, para o lado), os gestos que acompanham o deslocamento, a expressão do rosto, os giros, os saltos. Lembra uns versos do Thiago de Mello, um poeta amazonense (biografia aqui, textos aqui), que diz que “Não, não tenho caminho novo / O que tenho de novo / é o jeito de caminhar“.

É toda essa plasticidade, essa criatividade no uso do corpo que faz com que haja uma patinação no gelo (e em rodas, mas, desculpa aí, no gelo é mais bonito) que tenha o nome de artística. E eu passei o carnaval babando com a beleza dessa arte, que é também esporte.

Se você ficou curioso, aqui tem o vídeo de uma das apresentações que eu achei mais lindas. Não é à toa que esses chineses (olha só no campeonato mundial do ano passado, que lindos) levaram a medalha de ouro — e olha que no segundo dia de apresentações teve um outro casal de chineses que eu achei que se apresentou ainda melhor do que eles, mas somando as duas deu Zhang & Zhang. Parabéns a eles e a todos os outros atletas, que deram para mim e para muita gente (eu me surpreendi com a quantidade de pessoas que me disse ter acompanhado a competição) alguns minutos de puro embevecimento estético. Que cigarras maravilhosas que eles são!

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