Os retratos do artista

Hello, pessoas,

Gostaram dos nossos três primeiros enigmas? Elaborar respostas para eles é pensar em uma teoria da literatura. Em uma, no indefinido, porque existem/existiram muitas correntes teóricas em vários lugares e tempos e provavelmente continuarão existindo. Para citar nomes podemos falar, só nas mais recentes, no formalismo russo, no new criticism americano, na escola da recepção e na teoria do efeito.

Ai, meu Deus, a gente vai ter que saber cada uma dessas teorias?

Ai, meu Deus, digo eu! Calma, cocada. Deixei aí apenas para constar alguns nomes, e só. Não vamos estudar essas teorias, mas é bom saber que existem várias. Não, também não precisa saber alguns nomes não. Mais calmo agora?

O que vamos fazer ao trabalhar com nosso primeiro tema, o qual é a arte e a própria literatura, é pontuar as orientações mais importantes dessas teorias para que possamos compreender o que significa lidar com arte, lidar com literatura. E o nosso primeiro foco vai ser responder à pergunta mais básica de todas, que orienta todo restante. E a pergunta mais cabulosa de todas, por consequência:

  • O que é literatura?

Já deixei muitos de vocês, a maioria quase absoluta, eu acho, pensando nisso. E vou deixar mais um pouquinho (é, eu adoro um suspense. Acho que li Agatha Christie demais quando tinha 12 anos). Dar uma definição, um norte para esse questionamento será uma cena dos nossos próximos capítulos. Por hoje eu prefiro discutir mais aprofundadamente uma outra coisinha com vocês: o papel dos artistas na sociedade.

Se alguém ainda acha que artistas são artigos de luxo na escala de sobrevivência da humanidade e que se 2012 acontecesse agora o importante mesmo era a sobrevivência de médicos, engenheiros, agrônomos, zootecnistas e outros profissionais que na prática realmente garantem a sobrevivência e o avanço da humanidade, pare agora. Pense  outra vez. Coloque, nessa sua projeção de futuro, a vivência cotidiana dessas pessoas. Com o fim dos tempos, esses sobreviventes teriam perdido toda conexão com o legado cultural anterior a eles. Sem registros de música, sem livros, sem pinturas, esculturas, fotografias, nada, zero. E sem músicos, pintores, escultores, fotógrafos, paisagistas, escritores, atores, gente que pudesse fazer novas obras de arte (só sobreviveram os práticos, sem talento ou formação artística). E faça o que sobrou da humanidade viver, dia após dia, o resto da vida, nesse cenário: nenhuma música, nenhuma história, nenhuma imagem bonita. Só a realidade do cotidiano. Dia após dia.

Paro eu agora porque me dá calafrios! Como os calafrios da cigarra, na fábula da cigarra e da formiga. Seguindo a moral tradicional, a cigarra é apenas uma leviana, irresponsável, que não se preocupa com o futuro, e certa está a formiga, porque trabalha – e trabalhar significa acumular dindim na fábula – e se prepara para tempos de escassez. Não deixa de ser uma concepção de mundo válida, evidentemente. Não, eu nunca vou dizer para vocês que a moral da fábula original está incorreta. É lógico que temos que nos preparar para o futuro. Mas será que passar o dia cantando e dançando como a cigarra faz não significa também um trabalho? Um que pode ter resultados muito incertos em termos de estabilidade, talvez? Fazer arte também não é exercer um trabalho? E um importante?

Na versão de Monteiro Lobato para a fábula da cigarra e da formiga, temos duas formigas e dois finais. Uma delas, a formiga boa, lembra-se do prazer que o canto da cigarra lhe dava durante o trabalho, como ele ajudava que a labuta fosse menos dura. A outra, a formiga má, que Lobato diz ser invejosa, diz que o trabalho da cigarra (a música dela) é irritante. A formiga boa salva a cigarra dando abrigo e a má a condena a morrer congelada. No primeiro final, a cigarra continua cantando no tempo do estio; no segundo, o mundo, no tempo bom, perde o canto da cigarra e fica mais triste.

Se o mundo não para (que agonia escrever isso sem acento!) porque um artista deixa de existir, também não dá por falta sem a existência de um trabalhador do tipo comum. Mas sem o artista algo muda para a coletividade. Existe uma perda nas nossas vidas quando a arte não está mais lá. Uma perda que Lobato, na fábula, chamou de alegria, e à qual podemos dar outros nomes. Entretenimento, distração, escape, enlevação, reflexão, prazer.

É para isso que serve um artista? Para nos dar apenas essa coisa fútil que é o entretenimento?

Fútil é uma palavra forte e pejorativa demais para algo que é importante para nossa existência (ajudar a suportar a carga do cotidiano). E não, um artista não serve apenas para nos dar entretenimento. Existem outras funções legitimadas por cada sociedade, para seus artistas. É o caso dos mbongi entre os banto (um grupo étnico moçambicano). Como nos fala Antonio Candido em seu Literatura e Sociedade, os mbongi são uma espécie de poeta-puxa-saco-oficial dos chefes da sua etnia. O fato de eles irem à frente dos chefes, sempre que eles se deslocam, declamando poemas que elogiam o chefe, seus ancestrais e seus descendentes tem uma grande importância na etiqueta, no protocolo social daquele lugar. Mais ainda: é uma forma de manutenção das relações de poder. Se a população ouve sempre aquela ladainha de que os chefes são seres incríveis e maravilhosos, vai ser influenciada a sempre concordar com as determinações deles.

Por isso o Antonio Candido chamou esse grupo de artistas de parasitários. Sendo parasitas, eles são organismos que se beneficiam de uma estrutura mas não contribuem com ela. Os mbongi não produzem nada para o grupo social que os gerou, apenas para os chefes, e contribuem para que a população permaneça alienada, sem consciência da possibilidade de mudar seu contexto social.

Quando lemos Candido pode parecer que esse tipo de artista só existe em lugares remotos ou em tempos muito antigos. Mas a conduta dos mbongi me lembra de alguns casos, bem recentes até, de obras que foram financiadas para sustentar ideologias e grupos dominantes. É o caso dos filmes da  Leni Riefensthal.

Leni Riefensthal foi a diretora de cinema responsável pelas duas obras cinematográficas que mais consistentemente exportaram a ideologia do partido nazista: O triunfo da vontade (filme de 1934, indicado na lista dos 1001 filmes para ver antes de morrer) e Os deuses do estádio (filme de 1938 ligado às Olimpíadas de Berlim). Os dois filmes fizeram parte do projeto de propaganda nazista elaborada pelo ministro da Propaganda, Joseph Goebles, junto com muitas outras obras. O governo, na época, financiava projetos que divulgassem os ideiais nazistas, a teoria da superioridade racial dos arianos e/ou que reforçassem ódios e preconceitos contra os inimigos do Reich. Em obras de ficção judeus eram os grandes vilões, assim como os russos eram bárbaros e o comunismo uma ideologia que incentivava suas tendências para cometer crimes. Detalhe: como durante a II Guerra Mundial houve um período em que Alemanha e Rússia assinaram um acordo de não-agressão, durante o período em que esse pacto vigorou, os personagens russos nos filmes passaram a ser bem mais agradáveis.

É claro que não apenas na II Guerra Mundial se usou a arte para defender ou reforçar ideologias. E também que não apenas o cinema foi usado para isso, qualquer expressão artística pode ser transformada em veículo ideológico. Até a moda, que alguns dizem ser uma nova forma de expressão artística. A música, se vocês observarem com atenção, pode defender ideologias sobre os papéis masculino e feminino, afirmando que mulher de verdade é Amélia, aquela que não tinha a menor vaidade, ou que são as cachorras e as mulheres-fruta as que interessam.

Mas, prof, essas músicas não são financidas pelo governo, como os filmes da II Guerra Mundial foram. Então não são coisas de parasitas, né?

Muito bem lembrado, Daniel Sam! Não, não são parasitas. Mas não significa que não haja várias obras parasitas por aí sem que a gente saiba. Tem um pessoal com uma teoria conspiracionista que jura de pé junto que o filme do Barreto sobre Lula é uma obra parasitária por excelência. Se é ou não, não sei, não me aventuro nesse tipo de julgamento. Mas que tem por aí muita gente, aqui no Brasil e lá fora, que recebe dinheiro de grandes empresas para colocar um molhozinho nas suas obras e propagar os intere$$e$ desses grupos, ah tem. Quem assistiu o Dia em que a terra parou, o remake, cansou do merchandasing, de tão evidente que foi.

Então, um artista não apenas diverte e entretém, mas ele pode, através de seu trabalho, conduzir uma sociedade para uma interpretação do mundo e das coisas. E, como vocês sabem, existe o lado branco e o lado negro da Força. Ele pode conduzir suas atividades para alienar as pessoas ou para fazê-las prestar mais atenção ao mundo que as rodeia, como o poeta da nódoa do Manuel Bandeira. Um artista pode servir a um grupo apenas ou à coletividade. São muitos os retratos que podemos fazer dessa cigarra nossa de todo dia. Este ano vamos conhecer vários deles e que papel ou quais papéis eles desempenharam com a sua arte.

Por agora é isso, fofíssimos. Beijos para todos!

PS: Gabarito da ficha 1 no ar amanhã, ok? Bjsss

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