Pensando sobre o 12 de outubro…

Não, não é todo 12 de outubro em que isso acontece. Mas calhou de, esse ano, eu ficar pensando em postar alguma coisa sobre crianças e livros. E isso me fez pensar, claro, no eu mesma criança e os livros. É, eu era uma menina que nadava em livros.

Engraçado que geralmente as pessoas fazem uma correlação esquisita criança + livros = solidão. Ou então criança + livros = aversão a movimento e alegria. Taí algo que não poderia ser mais falso, pelo menos na minha biografia. Contrariando todas as expectativas para um rato de biblioteca, eu fui uma grande esportista na infância. Teve época de na mesma tarde ir ao treino de volley, de ginástica e de natação. E por isso mesmo, a hora de ficar em casa era a hora de voar de outros jeitos, de mergulhar nos meus livros e exercitar outra coisa, a minha imaginação. Era um amor tão roxo, meus livros e eu, que minha mãe passou um tempo escondendo os livros pela casa, para ver se a mania diminuía um pouco. Como vocês suspeitam, não diminuiu e cá estamos nós.

Um poeta amigo meu em certo texto se definiu: “eu sou os livros que bebi“. Eu parafraseio meu querido amigo Marcos, acrescentando. É que eu sou os livros em que mergulhei, os professores que observei e as pessoas que amei. Uma divisão boba até, com esses verbos, porque, evidentemente, eu mergulho nas pessoas que amo, e amo os livros que me sorveram.

Amo tanto que precisei, como a Lygia Bojunga, fazer algo por eles, numa troca um pouquinho diferente. Não tenho talento para escrever para crianças. Quem sabe um dia terei para outros públicos, mas para criança não. Escrever para criança requer um quê de ver sem filtros que eu não consigo. Mas faço a minha troca, ao meu modo: se não dou aos outros o que ler, dou o meu jeitinho de levá-los a ler. E basta que um, um dia por ano, diga que uma leitura foi divertida ou significativa que eu me derreto toda e passe o resto do ano tendo a certeza de que vale a pena.

Aos livros e à infância ficam os meus pensamentos de hoje. Os meus e os da Lygia Bojunga, no poema que me traz duas gotículas à linha d’água de meus olhos. Eles ficam brilhantes, como eu vejo que ficavam quando, com minha mãe, eu chegava à antiga Livro 7 e dizia “eu quero esse, esse, esse, esse, esse…” ou quando meu avô entrava à noite em casa com mais um Lobato em suas mãos. Aos livros da minha infância, à minha mãe, ao meu avô e ao Lobato, as palavras da Lygia, que são minhas também.

LIVRO: a troca
Lygia Bojunga Nunes

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena
os livros me deram casa e comida.
Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo;
em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada;
inclinado, encostava num outro e fazia telhado.
E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá
dentro pra brincar de morar em livro.
De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto
olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois,
decifrando palavras.
Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça.
Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto
mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando
de consertar o telhado ou de construir novas casas.
Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava
a minha imaginação.
Todo o dia a minha imaginação comia, comia e comia;
e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no
mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu,
era só escolher e pronto, o livro me dava.
Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca
tão gostosa que — no meu jeito de ver as coisas —
é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no
livro, mais ele me dava.
Mas como a gente tem mania de sempre querer mais,
eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar
tijolo pra — em algum lugar — uma criança juntar com
outros, e levantar a casa onde ela vai morar.

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