Arcadismo – Sempre mais do mesmo

Ôooooo

Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?

(Mais do mesmo. Legião Urbana.)

Referência interna, exclusiva para fãs: Urbana Legio Omnia Vicint!

Era o que eles queriam ouvir e ler, sim. Eles quem? Os consumidores de literatura do século XVIII, claro! E quem são? Burgueses que querem comprovar para os aristocratas que podem ser tão cultos quanto eles, mas de um jeito diferente: sua cultura ilustrada vai se afirmar através da ciência, da razão e do cultivo do bom gosto clássico, elegante em sua linguagem minimalista, sem excessos.

E qual é esse mais do mesmo, o repetido repetitório, como diria Drummond, que eles tanto queriam ler/ouvir? Olha só:

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores,
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares, o sutil Nordeste
Os torna azuis; as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza
!

Olhe de novo:

Ah! enquanto os Destinos impiedosos
Não voltam contra nós a face irada,
Façamos, sim façamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração, que frouxo
A grata posse de seu bem difere,
A si, Marília, a si próprio rouba,
E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores.
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

Entenderam o que é o mais do mesmo? O tal do convencionalismo árcade de que eu falei tanto no post anterior, no campo temático dá é nisso: de Bocage, autor do primeiro texto, a Tomás Antônio Gonzaga, do segundo, nem o nome da pastora-musa teve alteração. As imagens, o cenário, exatamente o mesmo: uma natureza bucólica, um locus amoenus, o desejo de viver o presente e seus prazeres. A pastora bela e delicada, quase uma fadinha da Disney, com seu vestido esvoaçante, os cabelos loiros cacheados ornados por uma grinalda de flores, pele rósea, lábios róseos, depilação em dia, hálito de menta, dentição completa, alinhada e digna de estrelar uma propaganda de creme dental.

Seguindo o mais do mesmo em todos os lugares, em todos os tempos do século XVIII (e, aqui no Brasil, adentrando o século XIX, já que oficialmente o Arcadismo se encerra com o início do Romantismo em 1836), a convenção saturou. Ficou artificial, como boy band pré-fabricada, seguindo o modelo: o carinha latino, o bom moço, o bad boy, o esportista. E fica mais artificial ainda quando sabemos que aquela idealização da vida no campo, perfeitamente compreensível em países com processos de urbanização e revolução burguesa, como Inglaterra e França, em Portugal e no Brasil não convencem ninguém. Como se justifica idealizar o campo e afirmar sua superioridade sobre a cidade se o que temos, lá e cá, são cidades ainda no modelo de vilas campesinas? Claro que uma ou outra eram diferentes, como Salvador cá, Lisboa e Coimbra lá, mas a situação geral era exatamente a da cidadezinha qualquer drummondiana.

Então o tal do artificialismo que você mencionou no post anterior vem dessa repetição excessiva do modelo pastor-apaixonado-convida-pastora-de-beleza-idealizada-para-uma-sessão-de-carpe-diem?

Principalmente. Mas tem mais. Um elemento básico da convenção árcade na imitação de Horácio e Virgílio é o uso, na poesia lírica, de pseudônimos latinos. Estes pseudônimos são nomes falsos usados pelos poetas no exercício de seu fingimento poético. Seguindo os lemas da arte clássica e da arte classicista — o Bom, o Belo, o Verdadeiro — a poesia do século XVIII vai buscar o verdadeiro com esse pseudônimo: ao invés de usar sua própria assinatura, o autor procura se despersonalizar, assinando como se o texto houvesse realmente sido elaborado por um pastor. Daí que teremos a obra não de Gonzaga, mas de Dirceu, e não de Cláudio Manoel da Costa, mas de Glauceste Satúrnio.

Procura, mas não consegue muito. Isso porque o pseudônimo age apenas como um disfarce para a identidade do autor: é só uma questão de capa. A linguagem, o estilo são os mesmos que aquele escritor usaria se fosse assinar a obra com seu próprio nome. E essa é uma diferença gritante entre o fingimento poético dos árcades e o Fernando Pessoa no século XX. Pessoa não adota simplesmente nomes falsos para despistar sua identidade: os heterônimos, todos, escrevem de jeitos completamente diferentes sobre temáticas também completamente distintas. Eles têm uma biografia específica, cada um. Usando uma imagem que acho que facilitou a vida de muitos de vocês numa postagem anterior sobre Fernando Pessoa, o caso é o seguinte: os árcades fizeram fakes em que apenas mudaram o nome para um nick qualquer, sem alterar o resto do perfil e o jeito de postar nas suas comunidades. É só comparar, por exemplo, Gonzaga e os seus dois fakes, o pseudônimo usado para a poesia lírica (o Dirceu de Marília de Dirceu) e para a poesia satírica (o Critilo de Cartas chilenas) com Pessoa e os três heterônimos principais. É como se Gonzaga entrasse no Orkut e não quisesse que ninguém soubesse que era ele. Cria dois perfis, que frequentam as mesmas comunidades, têm as mesmas informações pessoais e profissionais, usam basicamente a mesma linguagem. Só que um posta em comunidades de relacionamento amoroso, apenas, e o outro em comunidades de discussão política. Já Pessoa entrou no Orkut, fez o seu perfil e resolveu brincar de fazer fakes com nome, informações pessoais e profissionais, comunidades de interesse e jeito de postar completamente diferentes uns dos outros e dele mesmo. E ficou brincando com esses fakes do jeito que lhe era conveniente, mas a cada vez que postava raciocinando como o fake, e não como ele mesmo.

Retomando: o artificialismo vem, portanto, de um esgotamento do tema geral e também do uso de um recurso de fingimento poético que, pretendendo dar uma aura de verdade à obra, não atinge seu objetivo. Ao invés de lermos o texto e sentirmos nele um pastor de verdade como autor, lemos o texto e percebemos que por trás dele está um homem letrado, ilustrado.

Ok, entendi. Agora fala mais dessas obras de Gonzaga e das obras dos outros autores importantes da época.

Oxe, mas é agorinha!

Dentre os autores árcades de língua portuguesa, os mais relevantes são o português Manuel Maria du Bocage, o mezzo português, mezzo brasileiro Tomás Antônio Gonzaga e o brasileiro Cláudio Manoel da Costa.  Bocage é considerado até hoje um dos poetas mais populares da história da literatura portuguesa. Ele e o nosso Gonzaga, nascido português, mas brasileiro por sua infância em nossas terras, para as quais regressou já maduro, têm em comum essa popularidade em sua época, o fato de ambos terem se dedicado à poesia satírica e à poesia amorosa e o de esta última prenunciar elementos do movimento romântico, que sucedeu o Arcadismo. Uma distinção essencial entre eles é a aventura de Bocage na poesia satírica de verve mais ferina, na poesia erótica e na pornográfica. Não é à toa que a Desciclopedia o elegeu como membro fundador do desciclopedismo em Portugal.

Um grande poeta, Bocage. Um Gregório de Mattos português e árcade. Pena que não iremos estudá-lo efetivamente, já que nossa concentração é nos autores brasileiros.

E Gonzaga? Só isso sobre ele?

Não, calma. Tem mais sim!

O nosso popstar árcade é um poeta bem multifacetado até (para os padrões convencionais do Arcadismo). É que Gonzaga, no seu Marília de Dirceu, mesmo na primeira parte do livro, em que ele busca a adequação completa aos postulados do movimento, deixa escapar elementos do seu eu que lhe dão autenticidade. E esse biografismo, em si, já é um prenúncio do movimento romântico. Vemos várias vezes na obra como um todo que Dirceu sente necessidade de repetir para Marília que embora ele ainda não esteja velho, ficará, e que a vida simples é o que mais importa como forma de viver (aurea mediocritas rules! Confira essas preocupações de Dirceu aqui e aqui — ambas são liras da primeira parte). E essa necessidade é também uma necessidade de Gonzaga em seu idílio amoroso pela jovem Maria Doroteia, muito mais moça e muito mais rica que o noivo. Além disso há referências constantes ao letramento e cultura de Dirceu, à sua atividade com papéis (versos e pleitos, ou seja, decisões jurídicas), que vão se desviando daquele artificialismo insosso. Para ajudar a popularidade do poeta, ainda temos a sua prisão como inconfidente e a produção da segunda parte do livro — em que Dirceu também está preso e lamenta a ausência de Marília, mais biografismo — como um elemento de forte apelo ao público da época, que se condoía com o sofrimento do pobre poeta-pastor. Junto a esse elemento pré-romântico básico temos outros: a natureza que muitas vezes deixa de ser bucólica e passa a reagir aos sentimentos de quem a descreve, como um espelho das emoções, a valorização da emoção sobre a razão (é famosíssimos o verso Eu tenho um coração maior que o mundo), a fuga da realidade através da lembrança do passado ou do sonho (em vários poemas da segunda parte Dirceu esquece que está preso transportando-se para suas lembranças ou sonhando com Marília; veja um deles, que eu considero lindo de doer, em que acontece o primeiro caso aqui.). Aiai… é ler e suspirar.

E fora essa coisa árcade-que-antecipa-o-futuro, ainda temos a obra satírica, outra face de Gonzaga. Disfarçado em Critilo para se proteger das represálias políticas, lá foi Gonzaga vingar-se das maracutaias do governador fanfarrão que explora os pobres, os indefesos, desobedece ordens reais, é feio e ignorante e inculto (os dois últimos defeitos gravíssimos na época da Ilustração!).  Fanfarrão Minésio, governador de Santiago do Chile que representa Vila Rica, representa o governador mineiro Luís de Sousa Meneses, uma figura tão torpe que é comparada a Sancho Pança, Nero e até Calígula (ele mesmo, o doidinho que elegeu o próprio cavalo como senador). Estas críticas foram efetuadas através de manuscritos anônimos, graças ao pseudônimo, que surgiram como se fossem cartas de um morador de Santiago (o tal Critilo) a um amigo na Espanha (Doroteu, associado ao poeta-inconfidente-e-amigo Cláudio Manoel da Costa) para denunciar o governador fanfarrão, torcendo-se para que os grandes de Espanha tomassem conhecimento dos fatos e providências contra o “indigno, indigno chefe“. Note, então, que a crítica não se dirige ao governo português (mesmo sendo Gonzaga um separatista). Ao todo, foram treze os poemas produzidos e divulgados até a prisão de Gonzaga; infelizmente, de alguns deles restaram apenas fragmentos.

Vistas as obras de Gonzaga, vamos ao Cláudio Manoel da Costa e suas Obras.

Costa é o introdutor do Arcadismo no Brasil — é ele quem publica o primeiro livro, justamente o tal Obras, e é o sócio-fundador da Arcádia Lusitana, a academia literária de Vila Rica. É a publicação de seu livro, em 1765 o marco que assinala o início do Neoclassicismo tupiniquim.

Sendo o primeiro, o abre-alas do movimento, Costa é um autor que ainda conta com alguns resquícios barroquistas em seu estilo. Entretanto, ao mesmo tempo, é o nosso árcade que seguiu de mais perto as convenções europeias — seus sonetos riquíssimos são composições de altíssima qualidade. Um elemento que o destaca, no plano temático, é a alternância de imagens da natureza absolutamente convencionais, europeias, com a natureza agreste de Minas (confira a primeira aqui e a segunda aqui). Em ambos os cenários, a cena mais comum é a do lamento pelo amor perdido ou não correspondido.

Enquanto a pastora-musa de Gonzaga é uma só, Costa inventa várias, com os nomes usados pela época: Nise, Lise, Anarda, Daliana… No fim, todas são as mesmas, o mais do mesmo, uma ideia vaga, uma mulher simbólico, cuja única característica é a capacidade de fazer Glauceste sofrer. E ponto.

Ponto para ponto final. Este post já está no limite. Eu sei, eu prometi o gabarito da ficha 14, mas fica para amanhã — promessa, ok?

Beijinhos!

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