Arcadismo – Eita vida besta, meu Deus!

Oi,pessoas!

Aproveitando que hoje vimos vídeos sobre Drummond e Clarice (clique nos autores para acessar), vamos, finalmente, para uma postagem sobre Arcadismo partindo de versos do nosso poeta mineiro!

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

É, para a maioria de nós, seres urbanóides, o ritmo de vida das cidadezinhas quaisquer espalhadas até hoje em nossos rincões é uma vida besta. Pelo menos até o stress do engarrafamento da Agamenon nos fazer pedir ir embora para uma Pasárgada qualquer, em que tenhamos menos carros, menos calor, e que a correria pré-semana de provas nos faça pedir mais tempo para curtir prazeres simples da vida: uma tarde numa rede, sentindo o vento no cabelo, uma caminhada com os pés descalsos na areia da praia, mergulhados na linha d’água, um pôr-do-sol solitário ou bem acompanhado… Talvez uma vida não tão besta assim, não é?

Foi justamente o que pensaram os escritores do século XVIII, quando a Europa vivia em países como a Inglaterra um processo consistente e acelerado de urbanização, decorrente da Primeira Revolução Industrial, e a derrocada da aristocracia — superficial, opulenta e pedante — em nações como a França. A vida difícil nas cidades levava a imaginação humana a desejar um paraíso onde se pudesse viver com simplicidade, mas com conforto e com o desfrutar de prazeres.  E como a cidade é que não era esse lugar, o jeito era idealizar uma vida tranquila e serena no campo, sem  as pressões sociais da aristocracia e sem o ritmo de trabalho artificial e exaustivo das primeiras fábricas.

Juntando esse desejo com o resgate promovido pelo Iluminismo (ou Ilustração) da visão de mundo racional, cientificista e antropocêntrica vivenciada na Antiguidade Clássica e no Renascimento (século XVI, quando se viveu na arte o Classicismo, lembram?), o que vemos no século XVIII é uma verdadeira volta àquilo que de mais representativo na arte esses dois períodos nos trouxeram: a poesia pastoril de Horácio e Virgílio, a pintura suave e de temática natural ou mitológica da renascença,  os avanços científicos do século XVI e um otimismo e crença no poder humano comuns aos dois períodos — e completamente abandonados durante o Barroco.  Entretanto, se no Renascimento temos gênios plurais, como Leonardo da Vinci, que são artistas e cientistas ao mesmo tempo (e por isso os termos Renascimento e Classicismo às vezes se confundem tanto, sendo este último apropriado para designar apenas a produção artística e o primeiro para o movimento cultural como um todo — artes e ciência) no século XVIII ciência e arte estão completamente separadas. Observe que os grandes nomes  da ciência (como Newton) e da filosofia (Descartes, Voltaire, Hume, Rousseau) não registram nenhuma produção no campo artístico.  E vice-versa: os grandes pintores, escultores, arquitetos e poetas não se aventuraram também nas ciências.  (Seria a Revolução Industrial começando a demandar a especialização humana nas áreas de conhecimento? Não sei, só sei que foi assim.)

Essa separação no exercício das atribuições do artista e do cientista dá a impressão, em primeiro plano, de que arte do século XVIII acaba se tornando alienada dos acontecimentos práticos e cotidianos do mundo exterior. Afinal, enquanto os burgueses, os operários e camponeses lutam por melhores condições sociais e proclamam uma série de revoluções burguesas, dentre as quais os movimentos de independência no continente americano e a Revolução Francesa são os que mais se destacam, de que falavam os poetas, o que pintavam e esculpiam os artistas plásticos? Quadros singelos de hamornia, tranquilidade e felicidade, eram essas as obras construídas na época. Mas não se engane: esses mesmos artistas vão exercer, fora de seu trabalho nas letras, nas telas e nas formas, importantes papéis sociais. Só para citar o exemplo do Brasil, teremos em todos os nossos poetas da escola mineira — ou Arcádia mineira — um inconfidente, inconformado com a exploração da colônia e planejando sua independência.

Vá, pergunte: por que não levar essas discussões para a arte, então?

É que uma característica marcante do século XVIII é gostar demais daquilo que gregos e romanos estipularam como bom gosto na arte. Esse modelo de bom gosto era tão importante, tão importante na época, que imitar com perfeição suas formas, seus temas, suas atitudes era a norma social, a convenção que definia quem era um bom artista e quem não era. Era bom artista o bom imitador; era mau artista aquele que destacasse suas qualidades individuais, que não conseguisse apagar completamente seu “eu” por trás dos modelos que deveriam ser seguidos: no caso da literatura, o da poesia lírica pastoril cultivada por Horácio e Virgílio.  E como esses artistas — assim como os escultores greco latinos e renascentistas e os pintores da renascença — não viveram aquele contexto histórico de tantas transformações sociais, na maior parte das obras importantes da época, elas não vão sequer ser mencionadas.

Observe que temos aqui o destaque à primeira e mais essencial das características da arte do século XVIII: o convencionalismo. Essa palavra é a chave para todas as outras que se seguem: imitação dos modelos clássicos de poesia — o que significa, no plano estético, um culto ao soneto e ao verso decassílabo, e, no plano temático, o pastoralismo —, racionalismo, emoções apresentadas de forma contida e reservada, cultivo às referências da mitologia greco-latina… Era assim que Horácio, na Grécia, Virgílio, em Roma, escreviam a poesia lírica; era assim, então, que o bom poeta procederia no século XVIII. Daí que a arte desse período é batizada de Arcadismo e de Neoclassicismo. O primeiro nome evoca uma lendária  montanha grega, onde viveriam tranquilamente pastores com seus rebanhos, num ambiente todo ele contemplativo e mágico, com ninfas, sátiros, pastoras de uma beleza delicada e perfeita, o ambiente perfeito para se aproveitar a mocidade, a vida e seus prazeres (carpe diem!!) e comemorar isso com poesia e música: ou seja, poesia lírica. Essa montanha, a Arcádia, batiza as academias literárias em que se encontram os escritores da época. Arcadismo é, então, o gosto artístico cultivado nas academias literárias — na época, as arcádias.

Tá, eu sei que para você a ideia de um bando de marmanjo (já que na época o machismo não dava muita liberdade para as mulheres terem uma vida social efetiva… a ETERNA insegurança masculina e sua necessidade de ter certeza de que não vai ser traído!) se encontrando para falar de poesia parece, no mínimo, ser a coisa mais desinteressante da face da Terra. Mas tente pensar da seguinte forma: no século XVIII não tinha MP3, televisão, cinema… As festas eram praticamente todas religiosas. Teatros ainda são raros (no Brasil então… melhor nem comentar). Diversão significava ler, tocar ou ouvir um instrumento, cantar, pintar. E conversar sobre essas atividades. Então tente pensar na vida nessas academias como aquele encontro de amigos em que se leva um violão e as pessoas comentam dos últimos filmes e livros. A essência e as atividades são quase as mesmas.

Acho que explicar o nome Neoclassicismo nem precisa não é? Mas para os desligados de plantão, vamos evidenciar: neo = novo, classicismo = gosto clássico. O nome, então, ao mesmo tempo menciona o resgate ao Classicismo (século XVI) e ao Clássico (antiguidade grega e romana). E já que estamos falando dos termos usados para a referência ao movimento, não custa lembrar que temos também Setecentismo, palavra que faz referência direta ao período em que esse gosto, essa noção de estética, esteve mais em alta: o século XVIII. Estranhando a mistura de oito com sete? Então não misture mais: contamos o século pelo último ano dele. O XVIII, portanto, termina em 1800, o que significa, portanto, que começou em 1701. Os anos que nele perduram, portanto, são os anos setecentos.

Fácil como espremer caldo de cana! E essa expressão tão nordestina (como pitomba e pitoco, palavrinhas tão bonitinhas que encontramos só, só, somente, só aqui e em canto nenhum mais — pleonasmo intencional, que fique claro :D) também se aplica ao jeito de escrever dos autores dessa época. Lembram que nas características eu mencionei que as emoções são contidas? Que a relação com o mundo é racional? Que na época vigora um grande otimismo? Sabe o que isso significa?

Respire fundo e comemore: significa que agora, com o Arcadismo, ao estudar Literatura, SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Os poetas árcades lançaram um produto novo e revolucionário: o descomplicador de textos inutilia truncat®! Diga adeus àquelas metáforas viajadas e aqueles poemas embaralhados do Barroco! Com o descomplicador de textos inutilia truncat® os poetas poderão ser entendidos sem levar alunos indefesos ao desespero. A fórmula mágica do inutilia truncat® elimina todas as figuras de linguagem excessivas e que tiram a clareza do texto. Adeus hipérbato! Xô vocabulário rebuscado!  Ganhe tempo entendendo os poemas de primeira e carpe diem! É o inutilia truncat® facilitando a sua vida!

inutilia truncat® — Porque a confusão é inútil!

Por quê? Porque para eles era assim, oras! Por quê? Para serem diferentes do Barroco em tudo, pronto, falei!

E é verdade. Lembram na postagem sobre artes plásticas no Barroco o destaque que eu fiz sobre como, no século XVII, dando continuidade a conquistas técnicas do século XVI os artistas acabaram se expressando de maneira completamente diferente, assegurando a marca da sua identidade? A relação entre a arte do século XVIII e a do século XVII não vai ser diferente. E com um agravante: temos um movimento de ideologia antropocêntrica e burguesa se opondo a uma arte que ostentava ideais religiosos e aristocráticos. Não é só um gosto diferente, mas toda uma compreensão e vivência social e política de mundo. A burguesia vai conquistar o mundo a partir do século XVIII e uma necessidade básica dela é assinalar que isso significa um novo tempo, um novo momento, em todos os sentidos possíveis — inclusive o estético.

Para começar, that’s all folks! Assinalem a palavra convencionalismo como sendo o primeiro elemento chave para entender o Arcadismo. Vejo vocês ainda essa semana no próximo post com a segunda palavra, artificialismo, e um capítulo especial dedicado a pseudônimos, heterônimos e poetas líricos que se expressaram em língua portuguesa.

Beijinhos e até a próxima postagem!

6 thoughts on “Arcadismo – Eita vida besta, meu Deus!

  1. Biiiianca! Vê, eu tava fazendo uns exercícios do livro sobre Arcadismo, e teve uma questão que eu fiquei sobrando.. e assim, preciso de ajuda! A questão é:

    Considere as seguintes afirmações:
    I. Gregorio de Matos e Tomas Antonio Gonzaga compuseram poesia lirica, mas o talento de ambos encontrou sua expressão máxima nas sátiras. (isso é falso né? tipo, pela parte de Tomas, ele era melhor em lirica.. e tal, eu acho)

    II.Em Marilia de Dirceu, o arcade mineiro buscou figurar um equilibrio entre a vida rustica e a cultura ilustrada. (?)

    III.Claudio Manuel da Costa confronta a paisagem bucólica idealizada com a de sua terra natal. (?)

    Maria Luiza, 1º E

    • Oi Malu!

      Você não sabe como eu fiquei feliz com essa sua dúvida. Não porque você ficou com dúvida, mas porque você buscou outros exercícios e, encontrando dificuldade, resolveu pedir minha ajuda!! Iniciativa nos estudos é uma coisa que sempre deixa professores orgulhosíssimos.

      Vamos à análise das afirmações.

      I -> Eu odeio questões que se baseiam em afirmações desse tipo, com valoração de quem é o melhor no quê. Isso depende tanto do ponto de vista, dos gostos e juízos de valores do leitor! E são dois gêneros distintos: comparar um com o outro assim parece o juízo de valor dos gregos sobre a tragédia e a comédia… Mas se analisarmos FRIAMENTE o que se entende por talento literário, teríamos que observar a capacidade do autor de manipular a linguagem, a complexidade que essa linguagem atinge em seu trabalho. E no caso de tio Greg, são os textos líricos que exploram essa complexidade mais intensamente, já que as sátiras costumam se voltar não à elite, mas ao povão – o que seria uma maneira de interpretar também a relação lírica x sátira em Gonzaga. Então essa primeira alternativa é FALSA: não é que na sátira eles não tenham o máximo do seu talento que o gênero permite, mas é que na lírica os dois autores tiveram a possibilidade de expressar mais claramente a capacidade máxima expressiva da linguagem, já que o gênero, voltado para uma elite, solicitava esse trabalho mais elaborado. Mas que eu continuo protestando contra esse tipo de declaração, ah continuo!

      II -> Outra coisa que odeio em questão de vestibular é essa coisa de atribuir intenção ao autor. Esse “buscou figurar” é só para enlouquecer o pobre do aluno. Ele vai ficar pensando: “Tá, eu sei que ele menciona a coisa de Marília ficar lendo os processos, que ele deixa de ser pastor para ser advogado, que ele se exalta como poeta, o que é uma forma de cultura ilustrada. Então ele “fez o equilíbrio”. Mas era isso que ele queria?“. Aí fica a recomendação de quem tem experiência nesse tipo de coisa: esqueça essa coisa da intenção na questão e se concentre se ele fez ou não fez. Como o pastor de Gonzaga (o pastor árcade em geral) é um pastor culto (lembra que ele não é de “tosco trato, de expressões grosseiro?”) e como temos os vários momentos de exaltação da preocupação burguesa (inclusive com a imagem do advogado, com a leitura dos pleitos), afirmação VERDADEIRA.

      III-> Essa daqui é tranquila. Costa faz isso sim (inclusive a informação está na ficha 14). Muitas vezes aquele cenário perfeito tipo Disney dá lugar à paisagem mais seca e montanhosa de Minas. VERDADEIRA.

      Continue estudando! E qualquer coisa é só pedir help!

  2. aaaaaah, agora tudo fez sentido, eu achava mesmo que essa última afirmação era verdadeira, mas a que me complicou foi a segunda, muuuuuuuuuuuito obrigada Bianca! e sim, se eu tiver mais dúvidas eu venho aqui, haha! Olha, você deu uma olhada no nosso script com as analises? porque assim o nosso video ja ta pronto, só falta alguns ajustes, e eu só queria saber se você tinha gostado e achado correto as análises, enfim, beijos!

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