Caeiro – o mestre dos heterônimos

E já que foco dos últimos posts foi Pessoa e seus fakes, e como uma ajudinha para o trabalho de vocês, deixo aqui um trechinho de uma das várias notas de Álvaro de Campos sobre seu mestre Alberto Caeiro. Mestre no sentido de referência artística: no universo Second life da poesia pessoana os heterônimos e o próprio Pessoa (ele mesmo, o ortônimo, o perfil verdadeiro) elegeram Caeiro como sendo a sua referência artística e sua referência como visão de mundo. E essa é a atitude até mesmo do caótico Álvaro de Campos. Campos, por sinal, deixou muitos textos curtos sobre a obra de Caeiro, pequenas observações e comentários que foram reunidos pelos pesquisadores de Fernando Pessoa em Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro. É um desses comentários que eu deixo para vocês abaixo.

Há frases repetitivas, profundas porque vêm do profundo, que definem um homem, ou, antes, com que um homem se define, sem definição. Não esquece aquela em que Ricardo Reis uma vez se me definiu. falava-se de mentir, e ele disse: “Abomino a mentira, porque é uma inexactidão.” Todo o Ricardo Reis — passado, presente e futuro — está nisto.

O meu mestre Caeiro, como não dizia senão o que era, pode ser definido por qualquer frase sua, escrita ou falada, sobretudo depois do período que começa do meio em diante de O Guardador de Rebanhos. Mas, entre tantas frases que escreveu e se imprimem, entre tantas que me disse e relato ou não relato, a que o contém com maior simplicidade é aquela que uma vez me disse em Lisboa. Falava-se de não sei quê que tinha que ver com as relações de cada qual consigo mesmo. E eu perguntei de repente ao meu mestre Caeiro, “Está contente consigo?”. E ele respondeu: “Não: estou contente.” Era como a voz da terra, que é tudo e ninguém.

Quem quiser consultar outros dos comentários de Álvaro de Campos e até mesmo os de Ricardo Reis, é muito fácil de encontrar: na web temos MUITO material disponível por aí sobre Fernando Pessoa e as pessoas do Fernando.

Para fechar e dar um pouco de voz ao Reis também, um poeminha: uma das muitas odes (Não sabe o que é uma ode? Clique aqui e aqui.) de Ricardo Reis, essa dedicada ao seu Mestre Caeiro.

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos.
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.


Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,


Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o Sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Bom início de semana!!

3 thoughts on “Caeiro – o mestre dos heterônimos

  1. Prezada professora Bianca,
    Parabéns pela iniciativa. Se for de seu agrado e não prejudicar o trabalho de seus alunos, posso publicar lá no meu site uma adaptação de análise de poema de Caeiro que fiz há muito tempo — análise que bem se enquadra, penso eu, na relação poesia/filosofia que os meninos terão de fazer.
    Cordialmente,
    Vinicius

    • Por favor, Vinicius, publique sim! Assim que estiver no ar eu deixo um post divulgado o link aqui!

      Nada melhor do que um bom texto de um bom conhecedor das duas áreas de conhecimento para ajudar quem está começando a olhar – quiçá, aprendendo a ver – as relações entre elas!

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