Sermão da Sexagésima – Uma síntese

Como eu prometi, vou deixar aqui um comentário sobre o Sermão da Sexagésima, tema da nossa ficha 11, vista na última semana de aulas (à qual muitos faltaram). De quebra, no fim do post, o gabarito e o comentário das questões.

Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus.

Considerado a maior das obras de Vieira, o Sermão da Sexagésima é uma verdadeira aula de como escrever para atingir os fiéis e conseguir sua conversão. É um texto basilar na literatura em língua portuguesa, um clássico que todo leitor precisa desfrutar pelo menos uma vez na vida. Faça isso logo! É só clicar aqui!

Como todo sermão efetuado para um rito católico, o Sermão da Sexagésima parte do comentário da passagem bíblica escolhida para o dia: a parábola do semeador, resumida na máxima Semen est verbum Dei (A semente é a palavra de Deus. Lucas 8, 11 ). A partir dela, Vieira começa a apresentar o assunto escolhido para a reflexão naquele dia: o papel do pregador na sociedade setecentista. Esta apresentação é feita em um longo exórdio — ou intróito, ou, ainda, introdução, na qual, primeiro, Vieira destaca o início da parábola (Saiu o pregador a semear a palavra de Deus), ligando-o à realidade do momento, na qual muitos evangelistas não saem de suas pátrias para evangelizar os gentios e entre os que saem a evangelizar, muitos retornam à Europa por desistirem do trabalho diante das dificuldades. Estas dificuldades são o gancho para uma segunda reflexão, ainda introdutória, a respeito do trabalho do pregador: porque é que, mesmo havendo tantos evangelizadores espalhados pelo mundo, tão pouco efeito tem o trabalho por eles exercido?

Com estas duas primeiras reflexões, Vieira apresenta a temática central do texto: o papel do pregador na evangelização do mundo. Encerra-se então o exórdio e tem-se início a confirmação (desenvolvimento argumentativo). Nela, primeiro o autor estabelece uma série de hipóteses, as quais vai descartando, com argumentos baseados em citações bíblicas. Este trecho é justamente o que está reproduxido no material de vocês. Com ele, Vieira assinala irrefutavalmente que sua tese (que é culpa do pregador a ineficácia de seu trabalho) é verdadeira. A partir de então, ele conduz sua plateia para que ela compreenda quais são os erros dos pregadores e como eles devem se portar para redimi-los. Esse elemento é de extrema importância no sermão, pois o grande objetivo deste texto é justamente conseguir a modificação do comportamento do ouvinte.

De acordo com Vieira, o pregador exercer seu trabalho através de cinco atributos seus: “a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz“. Isto significa que o pregador exerce seu trabalho através do exemplo pessoal que ele é para seu público; através do conhecimento que tem do mundo e das leis divinas; dos sermões em si, em toda sua confecção, desde a escolha do assunto até a sua estruturação; do estilo que usa para confeccioná-los; e da maneira como se expressa oralmente no momento em que professa o sermão. Cada um destes elementos é examinado cuidadosamente pelo autor, que mantém o uso constante das citações, das perguntas retóricas e da reiteração em todo texto.

Seguindo a mesma linha de raciocínio usada antes, Vieira então verifica cada um destes elementos, assinalando sua importância e descartando aquele que não é, efetivamente, o culpado pelo fracasso da evangelização. Assim, embora o pregador deva fazer da sua vida um exemplo para os fiéis, não é esse o fatal impedimento para a evangelização dos ouvintes, o que Vieira comprova com base num exemplo bíblico: Jonas, cuja vida desregrada não poderia servir de exemplo a nenhuma audiência, com um único sermão consegue evangelizar todo um reino gentio. Embora o estilo usado nos púlpitos da época seja condenável, por ser rebuscado e ininteligível (no que Vieira faz uma severa crítica aos autores cultistas), também não é ele a causa principal do fracasso, visto que há grande fundamento dos sermões destes pregadores nos grandes conhecedores em teologia — o que, a meu ver, é das minimizações feitas por Vieira, a menos eficiente de todas. Vieira ainda descarta a possibilidade da falta de domíno da matéria, isto é, da falta de domínio de como deve ser produzido um sermão, apesar de demarcar como deve ser um sermão e que são muitos os sermões que não seguem os procedimentos por ele apontados (neste trecho, a metalinguagem alcança um elemento máximo na obra, pois o autor dedica-se a uma descrição minuciosa de como deve ser confeccionado o texto pelo sermonista). Também não é a falta de conhecimento empírico (vivenciado pessoalmente pelo pregador) a causa fatal para o problema levantado — embora a importância deste conhecimento seja ressaltada, Vieira afirma que São João Batista pregava aquilo que havia sido vivido pelo profeta Isaías, sem ter, ele mesmo, vivenciado aquelas experiências e que o mesmo ocorreu com outros grandes santos e pregadores. Por fim, a forma de expressão oral também não é considerada a causa maior da pouca frutificação do trabalho de evangelização da época. Vieira assinala que biblicamente havia dois estilos de expressão: um exaltado, pautado no brado, no grito, e outro contido, moderado, sendo ambos igualmente eficientes.

Descartados os elementos levantados nas hipóteses (a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz), Vieira assinala agora a tese verdadeira: “as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus“. A sutil diferença entre os elementos palavras de Deus × a palavra de Deus é desenvolvida e a tese agora toda composta (A evangelização tem pouco fruto porque os pregadores não semeiam a palavra de Deus) é finalmente explicada: os evangelizadores têm usado a palavra de Deus de acordo com as conveniências humanas, e não no sentido “sentido em que Deus as disse“. Sendo assim e retomando-se a máxima de Lucas (A semente é a palavra de Deus) é impossível que se frutifique a fé cristã porque não é ela que está sendo lançada ao mundo.

Assumida plenamente a tese, Vieira inicia a peroração (conclusão) do texto. Ele  critica ferozmente os pregadores que assim procedem, acusando-os de transformarem a igreja num teatro e o sermão numa comédia e de buscarem a fama e o prestígio do mundo. Em sua condenação, chega a comparar os evangelizadores a médicos: se os médicos não se preocupam se o paciente gosta ou não do remédio, conquanto esse remédio cure-lhe os males do corpo e o salve da doença, também assim deve agir o pregador, que é um médico de almas. Ele não deve se preocupar com as convenções políticas e sociais, mas sim com o seguir fielmente a doutrina tal qual ela é. Vieira arremata este raciocínio mencionando uma situação ocorrida em Portugal, quando da discussão a respeito de quem, entre dois grandes pregadores da época, seria o melhor. Sem reproduzir os nomes (provavelmente sabidos pela plateia) Vieira afirma que a questão, cujos votos estavam empatados, fora definida pela seguinte declaração de um dos debatedores de maior autoridade: “Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.

Como declaração final, que deve ter arrepiado completamente os ouvintes da Capela Real de Lisboa (de raiva ou de admiração pela grande habilidade do sermonista, Vieira recomenda:

Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.

Quem fez a leitura do texto no link que eu disponibilizei e acompanhou os comentários, certamente conseguiu ter a exata noção da grandiosidade do discurso de Vieira. O Imperador, como o chamou Fernando Pessoa, foi um dos mais hábeis escritores em língua portuguesa, não só na elaboração de uma argumentação incontestável, como também na habilidade estética. Não esqueçam que, embora não possam ser considerados textos literários propriamente, dados os objetivos e contextos de sua produção, são carregados de literariedade. Metáforas, comparações, antíteses, trocadilhos (palavras de Deus × a palavra de Deus, passo × paço, por exemplo)… Sim, todo mundo merece experimentar Vieira, deglutir, consumir, comensar, devorar! Antropofagiem Vieira através de tudo que ele escreveu! É o Imperador da sua língua, um divisor de águas e um clássico — o que ele tinha a dizer em 1656 ainda continua se dizendo até hoje. Leia Vieira porque você merece!

Exercícios — Gabaritos e comentários

1 – D → Sendo Vieira um padre católico ele JAMAIS poderia manifestar num sermão dúvidas sobre a fé cristã (A), sobre a importância da mensagem de Deus e de converter as pessoas ao catolicismo (B), muito menos sobre a onipotência — capacidade de Deus de ser todo-poderoso — divina (C). Com uma leitura rápida do trecho indicado verificamos que ele afirma que “o fruto e efeitos da palavra de Deus [no caso a falta de], não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes“, percebemos também que a alternatica (E) está incorreta.

2 – B → Esta questão tem dois elementos capciosos, que induzem o candidato a vestibular ao erro.  Observe que a afirmação I é uma leitura perfeitamente adequada ao uso da antítese e do paradoxo num texto barroco. Entretanto, no excerto que foi apresentado, Vieira usou-o com um propósito bastante claro: o de criticar os autores que lançam mão dessa figura de linguagem em excesso na construção de seus sermões (o que torna a afirmação II correta). Observe, também, que na proposição I afirma-se que o uso para conciliar teocentrismo e antropocentrismo tem um “propósito deliberado“, isto é, propósito planejado cuidadosamente para conseguir o efeito pretendido. A afirmação III incorre em erro por que gongorismo e cultismo são dois nomes para a mesma vertente do Barroco, que valoriza a forma, a expressividade do texto, a linguagem grandiosa, o que já entra em incoerência com a proposição II.

3 – B → Particularmente, essa é uma questão mal construída, viajada demais, na minha opinião. O Sermão da Sexagésima não tem ponto de contato nenhum com o contexto social e histórico brasileiro da época. Entretanto, como o enunciado menciona “conflitos vividos na Colônia que se vinculam as discussões da maior parte de seus sermões” analisando as alternativas relembramos que Vieira muito protestou contra a escravidão indígena e defendeu sua conversão. Este tema foi constantemente revisitado no período em que esteve no Maranhão e de onde foi expulso com ameaças graves. As demais alternativas não se encaixam, nem na doutrina cristã (alternativa A → a livre interpretação da Bíblia é um princípio dos protestantes, não dos católicos) nem dos sermões de Vieira (alternativas D e E → no caso desta última, particularmente, bastava lembrar que ele incentivava os escravos negros dos engenhos a suportarem o sofrimento terreno, pois ele era sinal de que chegariam ao céu).  No caso da alternativa C, a cristianização dos índios não significava que eles passariam a ter direitos civis e liberdade — os escravos negros dos engenhos eram (forçadamente, até) convertidos e nem por isso libertos.

4 – A – Essa questão tem as famosas “cascas de banana” deixaas na prova para despontuar os candidatos menos atentos e os mais nervosos. Quando se fala em metalinguagem em Vieira a primeira relação é com o Sermão da Sexagésima e ele está lá, como texo fonte do trecho da alternativa C. Entretanto, lendo o trecho observamos que ele não menciona o trabalho do escritor, o ato da produçaõ escrita. Apenas duas alternativas mencionam o texto em si (A e D), sendo, porém, que o trecho da alternativa D apresenta o tema do sermão e não o processo de sua elaboração. Já a alternativa A ressalta que o fazer do pregador, no sermão, consiste em explicar o evangelho e a ele ser fiel, sendo, portanto, uma recomendação de como deve ser elaborado o sermão.

5 – D – Questão facinha facinha. Já lembrei esse ponto inúmeras vezes em sala: não é porque Vieira é conceptista que ele descuida da forma do texto. Não é porque ele critica o cultismo que ele deixa de usar artifícios de linguagem para embelezar sua obra. A única diferença é que ele faz isso em prol da expressividade do texto e da clareza da ideia. Como o Barroco adora os paradoxos, lembrem sempre: forma e conteúdo, cultismo e conceptismo, convivem na obra de seus artistas. O que indica a predominância de um ou de outro são os objetivos do uso dos recursos de expressão e os objetivos da obra. Quando um texto tenta convencer alguém, acaba predominando o conceptismo: para convercermos, precisamos ter clareza.

Por hoje já foi. Beijos e até amanhã!

9 thoughts on “Sermão da Sexagésima – Uma síntese

  1. Bianca,

    O livro que tu falasse que caia na trimestral não tem mais nas livrarias, tem outro livro que a gente possa estudar ?

    • Aline,

      As antologias são guias para estudarmos a obra de um autor. Nelas se apresenta uma seleção das obras consideradas mais relevantes ou aquelas que são as ideais para um contato inicial com ele. Nesse sentido, tecnicamente qualquer antologia serviria. Eu só faço a ressalva quanto à antologia atual da L&PM (por sinal a antiga, fora de catálogo, é a indicada na bibliografia da UPE), porque ela se focalizou apenas na veia “maldita” de tio Greg: a poesia satírica, a erótica e a pornográfica. O livro em si acaba sendo, no mínimo, hilário, mas ele omite os textos da lírica tradicional do Barroco (amorosa, religiosa e filosófica).

      Se você não encontrar uma antologia que satisfaça, as obras completas de Gregório de Mattos são disponibilizadas na internet em vários sites. Procure no Google por “Crônicas do viver bahiano seiscentista” que você acaba encontrando. O maior problema dessa opção é que você vai encontrar TUDO o que ele produziu e pode acabar se perdendo um pouco na quantidade de textos. Se isso ocorrer, pede ajuda, tá?

      Beijinhos!!!

  2. Bianca, gostaria de saber, como terei acesso aos slides que você passou em sala! Beijo, Natália (1°A)

    • Naty,

      Eu não entendi a quais slides você se referiu, mas eu acredito que sejam os sobre Gregório de Mattos. Se forem, a ficha 12 contempla tudo que vimos nos slides. Se você observar com atenção, após os textos da poesia lírica que eu deixei para vocês analisarem, há uma parte teórica sobre a poesia satírica antes dos textos dessa vertente que também foram dispostos para a análise. Tudo que vimos através dos slides está lá, ok?

      Beijinhos!!

  3. Bianca, o sermão da sexagesima não vai cair na trimestral não né? e vai cair o que, exatamente, do livro de gregório de matos? bj

    • Camila,

      O Sermão da Sexagésima é conteúdo da prova sim. Ele foi visto em sala de aula, há material sobre ele (em ficha e aqui no site) e faz parte da obra de Vieira, sendo considerado por muitos seu texto mais importante – tanto que é o que mais frequentemente referenciado nas provas de vestibular.

    • Creio que o livro de Gregório de Mattos é apenas um suporte para uma melhor interação com os textos barrocos … não significa, necessariamente, que irá cair os textos do livro (claro, podem cair, até porque fazem parte do acervo do autor). Corrija-me caso estiver errado, fessôra !

      • Luiz,

        Significa que haverá textos do livro sim. Afinal, fazem parte do acervo do autor, como você mesmo disso. Não signfica que caiam APENAS textos do livro, o que é muito diferente.😛

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