A atualidade do Barroco – Reinaldo Azevedo, Vieira, Caetano e Gregório

Qual é a pergunta clássica que vocês fazem quando se deparam com um texto barroco, aquele que requer uma grande dose de reflexão e mais ainda de ação sobre o texto para uma compreensão competente dele? Vamos lá, a pergunta mais básica de todas… Sim, ela mesma!

Mas professora, por que é que eu tenho que estudar isso? No que isso vai mudar a minha vida?

Como hoje eu estou com mais paciência que em dias normais, vamos lá às (é são várias) respostas para isso.

  1. Estudando Barroco você vai desenvolver habilidades e competências de leitura e de raciocínio lógico extremamente avançadas. Um bom leitor de textos barroco encara qualquer construção poética e qualquer raciocínio lógico complicado.
  2. Estudando Barroco você vai poder usufruir de um acervo artístico que se mantém, infelizmente, restrito apenas a uma elite que tem formação para desfrutar dele plenamente. Não somente você vai poder encarar uma obra, seja ela literária, musical ou plástica e achar bonito, mas principalmente você vai poder apreciar o que artista fez para criar este efeito de belo. Ou seja, além de fruir da beleza, você vai poder compreendê-la.
  3. Estudando Barroco você vai descobrir paralelos inimagináveis entre o homem de hoje e o seu passado. A arte nos ajuda a compreender muito mais da alma humana do que pode supor a vã psicologia. E compreender a constituição do ser humano é uma habilidade básica para a vida, não é?
  4. Por fim, como resultado disto tudo, você vai ver mais. Vai ver além. Para o alto, avante e adentro. E com os olhos treinados, você vai crescer. Repita o mantra básico deste blog: “Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura“.

Feita a preleção, vem a pergunta dos contestadores: “E o que é que tem a ver o homem de hoje com o homem do barroco?“. Menino, é tanta coisa que esse post é só sobre isto. Vamos relembrar o belíssimo texto de Reinaldo Azevedo Que Deus é este?, da nossa ficha 7, e o suplício amoroso de Caetano Veloso em O quereres.

Se formos relembrar o contexto histórico do Barroco, o que mais se destaca nele, em termos de percepção da vida humana? A “descoberta” dos fracassos do racionalismo renascentista. O século XVI prometeu muito ao homem: ele passaria a dominar a natureza, conquistaria terras e riquezas não sonhadas, teria a liberdade de usufruir de seu corpo e dos prazeres, se vivesse com moderação e equilíbrio. Era isso que o resgate dos valores clássicos representava no imaginário europeu. Mas o passar do tempo revelou que esse otimismo todo, essa valorização do ser humano, essa perspectiva antropocêntrica de mundo eram enganosos. A natureza, embora menos ameaçadora que em outros tempos, ainda tinha forças indômitas. Tinha e tem. Santa Catarina e Maranhão que o digam. A conquista de terras e de riquezas aconteceu sim. Para alguns, os que têm força no sistema social. Como hoje. O corpo é uma fonte de prazer. Mas esse prazer é efêmero: a beleza é corrompida com o passar dos anos, a saúde se esvai. E cá estamos hoje, também, lutando contra o que é feio, o que é velhice, o que é morte. E se às vezes nos maravilhamos com a capacidade humana de domar todas essas coisas, de encontrar novas formas de dominar a natureza, lançando sondas espaciais, investigando o DNA de vírus, fazendo pesquisas com células tronco, logo em seguida vêm as pequenas ou grandes tragédias humanas para nos lembrar como somos pequenos e impotentes.

Aí está o espírito barroco em nós, hoje, no texto de Reinaldo Azevedo, questionando o papel de Deus e lembrando-nos a necessidade do cristianismo em nossa constituição social. Necessidade não porque podemos provar que Deus existe, mas porque o cristianismo nos lembra que o ser humano universal existe. Este conceito de ser humano universal é a peça fundamentadora da nossa sociedade do ponto de vista político e do ponto de vista ético. Por que nos incomoda tanto a história dos dalits da novela das 8? Por que a base da compreensão ocidental do mundo está na ética cristã: todos somos humanos, todos temos o mesmo valor e, por isso, devemos fazer ao próximo exatamente aquilo que gostaríamos que fosse feito por nós. Ser solidário, ser justo, ser ético, ser humanitário, principalmente diante das iniquidades, das perversidades: esta é a afirmação central do princípio da filosofia humanista, da Razão (e paradoxalmente, ironicamente até, é a religião e a fé quem primeiro inauguram esta percepção de mundo).

O homem barroco se angustiava profundamente ao perceber a sua impotência diante do mundo. Como hoje nos angustiamos diante de centenas de mortos e desabrigados, diante dos miseráveis das guerras, das tsunamis, das secas, das chuvas, da fome. Aí está o que temos em comum, homens e mulheres do século XXI e do século XVII: mesmo com toda ciência e toda tecnologia, estamos coletivamente desamparados e vivemos experiências humanas que nem a ciência e nem a tecnologia conseguem explicar, evitar ou reproduzir.

Mas não é apenas o dialógo temático que o texto de Reinaldo Azevedo tem com o movimento barroco. Há também diálogo entre sua estrutura e linguagem com a estrutura e linguagem barroca também. Particularmente com a dos textos do Pe. Antônio Vieira, que estudamos nesta última semana.

Observem bem: Vieira, em seus sermões, escrevia textos que tinham como objetivo defender uma opinião da Igreja sobre o comportamento do bom cristão acerca de seu tema. Sendo assim, estes textos são do tipo dissertativo: defendem teses por meio de argumentos. Esta função social dos textos de Vieira faz com que, se assumimos que o caráter literário de um texto é o seu objetivo central a constituição de uma obra de arte, os textos de Vieira não possam ser considerados textos literários, embora eles sejam caracterizados por muita literariedade.

O mesmo ocorre com o texto de Reinaldo Azevedo: trata-se de um artigo de opinião, um texto de caráter dissertativo-argumentativo, mas cuja linguagem está recheada de literariedade. Observe a poeticidade de trechos como

  • Somos uns macacos pelados, plenos de fúrias e delicadezas (e estas nos doem mais do que aquelas), a vagar com a cruz nos ombros e a memória em carne viva” → A metáfora do macaco lembra a condição biológica e primitiva do homem. Associada à antítese fúrias (sentimento que representa a capacidade de destruição do homem — caso de metonímia) e delicadezas (atributo que representa a capacidade de produzir o belo, de ter sentimentos considerados bons e de desempenhar gestos solidários — também uma metonímia), temos a descrição do ser humano como um ente paradoxal, destinado a sofrer (metonímia clássica, essa, do sofrimento com o ato de Cristo de carregar a cruz nos ombros) — principalmente em virtude das lembranças, dos desejos: a memória que dói, como uma ferida em carne vida (metáfora de novo, notaram?).
  • Olhemos a tristeza dos becos escuros e sujos do mundo, onde um homem acaba de fechar os olhos pela última vez, levando estampada na retina a imagem de seu sonho — pequenino e, ainda assim, frustrado…” → O autor cria um ambiente e um personagem ficcionais bastante verossímeis. Além da poeisis pela criação no campo do imaginário a passagem “levando estampada na retina a imagem de seu sonho” também é carregada de poeticidade, pois o sonho, o desejo humano, é imaterial, não podendo, portanto, ser captado concretamente pela retina, parte do olho onde se formam as imagens. Tente imaginar a cena visualmente, com a câmera entrando no olho do homem, em sua pupila, e lá dentro, vê-se no fundo da retina, como numa tela de cinema, o olho deste homem. Só posso dizer: belo!
  • Se Ele realmente nos criou, por que nos fez essa coisa tão lastimável como espécie e como espécimes?” → Uma brincadeira básica com o sentido de palavras muito parecidas. Esse trocadilho entre palavras semelhantes e de sentidos diferentes era muito usado por Vieira, mas de uma forma muito mais intensa. Comentários sobre isto no post sobre Vieira.
  • Se ao menos tirasse de nosso coração os anseios, os desejos, para que aprendêssemos a ser pedra, a ser árvore, a ser bicho entre bichos…” → O coração é uma metonímia para nós mesmos. E ser pedra, ser árvore, ser bicho é uma gradação que parte do elemento natural mais imóvel, menos humano, para aquele que está mais próximo de nós.
  • Há casos em que é mais fácil exibir cabeças do que provas.” → Metonímia de novo. Exibir cabeças é uma menção ao resultado da condenação à morte de certos acusados, ou seja, ao resultado de determinado julgamento. Aqui o autor mostra que é mais fácil, em algumas questões, condenar ou inocentar determinado objeto de discussão (no caso, simplemente afirmar que é melhor um mundo com Deus, ou que é melhor um mundo sem Deus) do que comprovar isto racionalmente, com provas.

Além destes usos, Azevedo ainda fez um bem comum à prosa doutrinária produzida por Vieira (mais um ponto em comum entre eles: os textos estruturados em prosa têm uma função de propagar uma ideia a respeito da doutrina cristã e seu valor): o uso das antítese repetidas em estrutura paralelística, que acabaram gerando um paradoxo.

Ficou difícil entender desta vez, eu sei. Vamos por partes. Tá aqui o parágrafo:

“Ao pregar o perdão, dizem, [o cristianismo] é filosofia da tibieza; ao reafirmar a autoridade divina, acusam, é autoritário. Pouco afeito à subversão da autoridade humana, apontam seu servilismo; ao acenar com o reino de Deus, sua ambição desmedida.”

Façamos como Jack (o Estripador, claro) e vamos por partes… Em que está o uso da antítese? Nos pares tibieza (fraqueza) × autoritário (violento, que se impõe pela força), servilismo (subserviente, que se põe na posição de subalterno)× ambição desmedida. Como estas características são atribuídas ao cristianismo e estão vinculadas às estruturas mais profundas de sua constituição (pregação do perdão, reafirmação da autoridade de Deus e da subordinação do homem a ele e afirmação de que seguir sua doutrina é uma forma de aproximação a Deus), o cristianismo é, então, fraco e autoritário, servil e ambicioso: é paradoxal.

Tá e o paralelismo?” Está na estrutura usada para apresentar estas características. Veja que o autor repetiu a estrutura preposição (a) + artigo (o) + verbo no infinitivo para apresentar todas as ações do cristianismo que são criticadas. Além disto, as frases em que se fez a oposição das ideias foram construídas com a estrutura oração adverbial reduzida (as duas primeiras e a última temporais — quando ele faz aquilo — a segunda causal — como ele é assim) + oração principal (acontece isso). E, para completar, ele simetricamente organizou os pares de frases que formam as antíses num mesmo período, separando-as por ponto-e-vírgula. De novo, uma coisa em comum com Vieira, que gostava de reiterar (repetir) exemplos usando as mesmas estruturas paralelas para apresentá-los.

Simetria na oposição, por sinal, foi exatamente o que vocês encontraram lá em O quereres, não é? Desta vez, como o texto é em verso, não podemos associá-lo à obra de Vieira, que só produziu prosa. Temos paralelos é com Tio Greg, o Boca do Inferno, que fez muita poesia de cunho amoroso também. Olha só um exemplo:

Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.

Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.

Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.

Este é um poema que mostra com excelência a perspectiva barroca sobre  o amor: o eu lírico vive o desejo e o bloqueio do desejo, expressos em antíteses, numa contradição que provoca sofrimento. Neste poema, especificamente, o sofrimento vem do fato de o amor permanecer velado, platônico, e, embora seja dolorosa  a experiência, o eu lírico prefere que seja assim. Enquanto este amor não for declarado, ainda há a esperança em um dia poder vivê-lo. Uma vez que ele seja declarado, é possível que se perca toda a esperança, se o objeto de seu amor o rejeitar.

As contradições do amor, porém, não ficaram apenas no plano do eu-comigo-mesmo. Em outros textos a contradição e o sofrimento vem da disparidade entre os amantes e a impossibilidade de felicidade ao lado de quem ama (justamente o tema de Caetano Veloso em O quereres). Veja esta temática neste outro soneto de Gregório:

Ó tu do meu amor fiel traslado
Mariposa entre as chamas consumida,
Pois se à força do ardor perdes a vida,
A violência do fogo me há prostrado.

Tu de amante o teu fim hás encontrado,
Essa flama girando apetecida;
Eu girando uma penha endurecida,
No fogo que exalou, morro abrasado.

Ambos de firmes anelando chamas,
Tu a vida deixas, eu a morte imploro
Nas constâncias iguais, iguais nas chamas.

Mas ai! que a diferença entre nós choro,
Pois acabando tu ao fogo, que amas,
Eu morro, sem chegar à luz, que adoro.

Este soneto, de linguagem mais complexa que o anterior em virtude do uso do hipérbato (inversão), pauta-se na comparação entre o eu-lírico e a mariposa. Em comum ambos têm a atração por um objeto, o qual circundam (anelam): a mariposa é inevitavelmente atraída pelo fogo, o eu lírico pela amada, que, em oposição ao fogo, é pedra, ou seja, é dura, fria, não corresponde aos seus anseios. O sofrimento do eu lírico pelo comportamento distante do ser amado e por causa deste sofrimento, o eu lírico exageradamente (hipérbole) afirma ter vontade de morrer. A diferença, a oposição final que assinala o quão infeliz é o eu lírico em seu amor não correspondido está no fim trágico da mariposa e a metáfora que este fim representa para o eu lírico. A mariposa, atraída pela luz do fogo, acaba morrendo queimada, consumida pelas chamas. No caso do eu lírico isto representaria atingir plenamente o ser amado, ser consumido pela paixão que é correspondida. Entretanto como o ser amado é pedra, ou seja, é fria, embora também seja luz (a luz que adoro, o que forma um caráter paradoxal deste ser amado), o eu lírico lamenta por não conseguir ter o mesmo fim que a mariposa.

Em O quereres Caetano reforça esta incompatibilidade entre os amados de uma maneira mais clara que o texto de Gregório de Matos. A repetição paralelística da estrutura “Onde queres… sou …” ressalta que os desejos do ser amado (uma mulher, supõe-se, já que o eu lírico é masculino) nunca encontram realização no eu lírico. Daí que todos os versos estruturados assim constituiem antíteses, usadas para evidenciar a incompatibilidade da relação amorosa.

Essa é a parte fácil da letra. Se fosse só isso!

Eu sei que é isso que vocês estão pensando. É que de Barroco o texto de Caetano tem muito mais do que a temática da incompatibilidade amorosa. O barroquismo de Caetano é caso mais grave, bem mais grave. Ecoando as características do cultismo, não só Caetano explora as antíteses como promove o uso de metáforas inovadoras, imagens inesperadas. Onde queres o lobo, o cowboy sou o irmão, sou chinês. Mais ainda: o uso de vocabulário difícil, também típico do cultismo, está lá, na letra de Caetano. Só pesquisando no dicionário para saber que o obus que se opõe ao coqueiro é uma arma militar, uma antítese que contradiz o primeiro verso do texto. Aliás, muitos versos do texto contradizem os anteriores (“Onde queres prazer, sou o que dói / E onde queres tortura, mansidão“), o que mostra que essa relação é irremediavelmente conflituosa. O eu lírico tem a capacidade de satisfazer o desejo da amada, mas nunca sua disposição para ser de determinada maneira está em harmonia com a vontade dela de que ele se comporte daquela maneira.

Isso tudo é muito Barroco e muito atual também. Mas o que me chama mais a atenção em termos de ecos do Barroco na letra de Caetano está justamente fora da estrutura paralelística, nas estrofes que fugiram desta constância. A complexidade da linguagem delas, a riqueza de recursos estilísticos usados em sua formação é tão instigante que merecem uma análise detalhada. Siga a minha versão.

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

No primeiro verso queria querer-te é uma construção de sonoridade marcante e um jogo de palavras quase irônico. Se ele gostaria de querer é porque o desejo não existe — o desejo por esse tu que deseja o eu lírico do jeito que este tu é, de modo que o eu lírico pudesse satisfazer suas vontades. Já amar o amor, que segue os mesmos elementos de repetição de palavras próximas da expressão anterior, indica uma vontade de amar o sentimento amor, dedicar-se ao sentimento independente da identidade do ser amado. O amor platônico, aquele que fica no mundo das ideias e se satisfaz por si só, pelo estado de paixão, é um ato de amar assim: ama-se o estar apaixonado e a identidade real do amado, normalmente muito fantasiada, não interessa tanto.

A estrofe está tão ligada ao amor platônico que as referências seguintes são todas muito ligadas a esse tipo de relação. A prisão doce (doce não, dulcíssima, mais que doce) que é o relacionamento amoroso, um paradoxo bem ao estilo de Camões, para ser doce precisa ter seu quê de idealização: tudo é métrica e rima, tudo é perfeito, como nos poemas clássicos, que buscam a perfeição da forma. E claro, nada nunca é dor, nada é decepcionante, frustrante. Isto é o que eu lírico queria, o que ele gostaria de ter. Mas a vida é real e de viés, ela não admite idealizações, daí a situação dos amantes: o eu lírico primeiro a quer — mas ela não o quer do jeito que ele é; depois ele não a quer e nem ela quer ser do jeito que ela é, pretende se modificar — muito provavelmente repete mais uma vez que vai mudar o seu jeito e aceitá-lo como é (o que quase nunca acontece de verdade).

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

Para terminarmos o post de hoje, a obra prima da estrofe final da barroquíssima canção de Caetano. Primeiro, temos a substantivação do verbo querer e do verbo estar, uso que por si só provoca o estranhamento da linguagem típico da alta voltagem conotativa da grande literatura. Depois a repetição do mim associada a um hipérbato que nos fazem ter que ler e reler até ordenar logicamente o enunciado (Do que em mim é de mim tão desigual = Do que em mim é tão desigual de mim). Em seguida o paradoxo (querer ao mesmo tempo bem e mal), cuja lógica é explicada logo depois: querer bem a ela, mas querer mal a esse desejo que não se pode nunca satisfazer. No verso Infinitivamente pessoal, um trocadilho cuja ambiguidade é linda: infinitivamente tanto remete ao modo verbal do infinitivo, que na forma pessoal teria justamente a forma substantivada o quereres, que dá titulo à canção, como também remete a infinitamente pessoal, assinalando o caráter individual e marcante da personalidade dos dois amantes. Para terminar, a explicação do porquê este eu lírico insistir numa relação tão complicada: querer-te é aprender o total do que há e do que não há em si mesmo. Esta imagem talvez seja a mais barroca de todas da canção e se remetem diretamente ao que discutimos sobre os opostos na canção Certas coisas, de Lulu Santos (olha a atualidade barroca aí, de novo!), que também dialoga com o Barroco. Se só conhecemos conceitos como silência e luz porque conhecemos os de som e de escuridão, só se pode ter o conceito de quem sou e como sou eu se podemos espelhar este eu num outro. Sabemos quem somos porque podemos nos reconhecer nos outros, pelo que temos de semelhante e, principalmente, pelo que temos de diferente.  Não é assim que se reconhecem os grupos sociais: as torcidas, as tribos adolescentes, os grupos religiosos?

Eita que este foi um post longo. Mas só para não perder a oportunidade, fica aqui mais uma referência de diálogo bastante contemporâneo com o Barroco, também o tema amoroso (afinal, Dia dos Namorados é para lembrar, para quem namora, cuidar direitinho do seu amor, e para quem não namora que amar às vezes pode ser muito complicado!:P). Curtam A seta e o alvo, de Paulinho Moska. E fiquem firmes que amanhã tem mais!

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11 thoughts on “A atualidade do Barroco – Reinaldo Azevedo, Vieira, Caetano e Gregório

  1. Bianca, eu sei que isso não tem muita coisa a ver com o tópico, e pode ser que o que eu vo falar não tenha sentido nenhum, mas.. Intermitências da Morte tem alguma coisa a ver com o barroco? Por passar a efemeridade da vida, como o ser humano sofre, e essa coisa de divino x humano?

    • Aline,

      Eu acho que tem muito a ver sim. Não por uma relação do homem com o divino, porque Saramago é ateu, mas pela consciência da limitação, da finitude humana. Só que tem uma diferença essencial nestes pontos de vista: a morte, para o homem barroco, é motivo de profunda angústia, de muito pesar, enquanto que o narrador de As intermitências mostra-nos como a morte é necessária, que ela representa um alívio para a vida, que interrompê-la é interromper o ciclo da vida. Sem ela entraríamos em caos.

  2. Deixei um comentario no croni. Como faço para falar com wellington ainda hj, pois n tenho certeza dos capitulos para a prova dele. Obrg!!k.

  3. Isaac,

    Se eu entrar em contato com ele tento te responder alguma coisa por aqui. Eu estou fazendo o último post para a revisão e estou online pelos próximos vinte minutos, pelo menos.

  4. Olá Bianca!
    Acabei de ler esse seu post eu realmente adorei! Sério, por demais!
    Estou adorando estudar o Barroco e os gênios que fizeram desse período algo de bom na história brasileira.

    Li alguns sermões do Pe. Vieira e me impressionei com a habilidade que ele possuía em escrever textos tão inteligentes e criativos! Bem, acho que a leitura da Bíblia foi algo que serviu tanto de inspiração como de aprendizado para ele, já que suas obras se assemelham demais com os das Escrituras.

    E quanto ao texto de Reinaldo Azevedo, que maravilha, hein?! Genial a forma como ele se expressou tão bem! Algumas coisas que eu sempre quis falar a respeito do cristianismo – mas não sabia como – ele disse em palavras surpreendentes.

    Professora, noto que você é muito inteligente, meus parabéns! Para mim suas aulas são ótimas!

    1º A

    • Bela,

      Tem uma coisa de muitíssimo relevante no seu comentário: a influência do que lemos no que escrevemos. Você já notou que quando convivemos muito com uma pessoa assimilamos um pouco o jeito que ela tem de falar? Sotaques, gírias, expressões… Isso acontece também na leitura e na escrita… Quando lemos muito um autor, acabamos sem querer (às vezes sem querer querendo), assumindo um pouco (ou muito) o jeito que ele tem de usar a língua. É por isso que se diz – e dizem isso muitos escritores renomados, como o Luís Fernando Veríssimo – que língua se aprende é lendo bons autores.

      Também amo o artigo de Reinaldo Azevedo.

      Que bom que você está gostando do assunto, mesmo ele sendo muito desafiador. E melhor ainda você gostar das aulas… Vou dormir feliz hoje! 🙂

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