Barroco – uma pérola imperfeita?

Acreditem ou não eu estava morrendo de saudades desse cantinho aqui. Que loucuram foram as semanas desde a última postagem! Não queiram nem imaginar! 🙂

Se mais delongas, vamos a esse temido movimento barroco, que tem deixado alguns de vocês com crises existenciais quase barroquistas. Aliás, a adolescência em si tem muito de barroca. Depois eu desfio esta minha teoria. 😛

Aquilo que se denomina Barroco é o movimento artístico que dominou os anos seiscentos, sendo, por isso, também chamado de Seiscentismo. Este período coincidiu com uma série de transformações de extrema importância para história ocidental, pois elas metamorfosearam a Europa e abriram caminho para a conclamação de uma sociedade não mais dominada pela Igreja e pela aristocracia, mas sim pela burguesia.

Para ligar os pontos, vamos relembrar o seguinte: no século anterior, as Grandes Navegações e o Mercantilismo começaram a promover a ascensão da burguesia ao poder econômico. Paralelamente a isso, houve a Reforma Protestante, que, ao contestar a autoridade do papa e fundar novas igrejas, abriu caminho para uma separação entre Estado e Igreja. O resultado disto no século XVII (1601 – 1700, anos seiscentos, lembra?) foi a teoria do Absolutismo e o surgimento dos Estados nacionais.

Sendo ameaçada de tantas formas, com novas religiões, novas autoridades políticas e financeiras, a Igreja Católica viu-se obrigada a promover ações para defender seu poderio. Estas ações foram chamadas de Contrarreforma (essa reforma ortográfica ainda vai me matar!), a qual se iniciou ainda no século XVI. Principalmente na Itália, Espanha e Portugal, a Igreja recupera suas forças e passa a usar a arte como um mecanismo para propagar suas ideias, ampliar sua influência. Por que estes três países? Bom, a Itália por ser a sede política da Igreja. No caso da Espanha, houve no período barroco uma sucessão de reis católicos que vão fortalecer suas alianças com a Igreja, começando por Felipe II, que assumiu não só a coroa espanhola, mas que acumulou também o governo de Portugal em 1580, quando da morte do rei português D. Sebastião. E em Portugal tanto em virtude da sua submissão à União Ibérica (que durou até 1640) como também, após a reconquista de sua autonomina, às alianças firmadas pela família de Bragança, começando pela figura de D. João IV, o primeiro a assumir o trono após o fim da aliança com a Espanha.

Um lembrete importantíssimo se faz necessário aqui. Não pensem que essa mudança de um movimento cultural e artístico para o outro se deu da noite para o dia. Não é no dia seguinte ao desaparecimento de D. Sebastião  que, de repente, todos decidiram passar a escrever, pintar ou esculpir seguindo novas perspectivas artísticas. Estas transições ocupam períodos às vezes de décadas inteiras. No caso do Barroco, já havia prenúncios de suas ideias e características desde a segunda metade do século XVI. Isto significa que certas obras do Classicismo e que grandes mestres renascentistas, como o próprio Michelangelo, foram precursores do movimento Barroco. No caso de Michelangelo esse prenúncio se faz sentir principalmente em duas de suas últimas obras: o afresco do Juízo Final (pintado na capela Sistina entre 1536 e 1541) e, principalmente, o plano de construção da basílica de São Pedro, cuja cúpula, após algumas alterações feitas por Giacomo della Porta (que assumiu a construção após a morte de Michelangelo), tornou-se uma construção barroca. E há coisa mais barroca do que a compreensão de amor manifestada por Camões no mais que famoso Soneto V, uma obra barroca também na linguagem recheada de paradoxos? E justo eles, Michelangelo, que pinta uma criação de Adão tão antropocêntrica, e Camões, cuja morte também assinala o ano de 1580, o marco inicial do Barroco português…

Sendo assim, o berço do Barroco é o próprio Renascimento, cujos valores ele tanto negou. As duas artes conviveram por certo tempo e as características de uma vão se prenunciando na outra. É uma contradição muito adequada para um movimento estético que tanto exaltou o contraste entre elementos opostos. Adequado e natural: uma geração sempre nega suas fontes, procurando sua própria identidade, assim como adolescentes buscam se diferenciar radicalmente de seus pais em seus gostos por música, roupas e por sua linguagem. Ao mesmo tempo, o adolescente é prolongamento da geração de seus pais, que vieram antes dele e dão-lhe as molas iniciais para construir sua própria personalidade. E esta é só uma semelhança entre a experiência de mundo do Barroco e a da adolescência. 😛

Negando os valores artísticos do Classicismo, como se caracteriza a arte barroca então? Ela substitui o equilíbrio entre sentimento e razão (e entre arte e ciência), pendendo para uma percepção de mundo marcadamente intuitiva e emocional. Assim como a adolescência, que é marcadamente impulsiva e emotiva. 🙂

Por isso, nas artes plásticas, aquilo que no Classicismo era simétrico, proporcional, claro, no Barroco se transforma em assimétrico, exagerado e enviesado (indireto). E o uso do nome Barroco para batizar esta arte advém, segundo algumas fontes, justamente dessa assimetria. Os artistas clássicos, condenando a irregularidade que viam nas obras dos artistas “modernos”, naquele tempo, destacaram a assimetria perjorativamente, atribuindo às obras artísticas o nome usado para fazer menção às pérolas irregulares: barrocas.

Mas não é apenas a composição das obras barrocas que diferencia do que veio antes delas na história das artes. O tratamento dado ao tema também se opõe ao tratamento clássico. As emoções, que eram mostradas com serenidade (contenção emocional advinda do equilíbrio), vão ser exageradas e registrar profundo sofrimento e angústia. As imagens, que antes eram principalmente estáticas, sem a menção de movimento, passam a registrar um momento de uma cena que é congelado, como numa fotografia, com músculos e feições denotando a continuidade de uma ação. Nas pinturas, a iluminação natural é substituída, muitas vezes, por uma iluminação propositadamente criada pelo artista para destacar elementos da tela, destacando nela os elementos cênicos mais dramáticos e chamativos. Na próxima postagem eu vou esmiuçar um pouco mais isso com a análise do meu pintor barroco favorito, Caravaggio, e o agora mais que famoso escultor Gian Lorenzo Bernini, o grande mote das teorias conspiratórias de Anjos e Demônios.

E as diferenças na literatura, Bianca, quais são?” Já estava mais do que na hora de você perguntar. São praticamente as mesmas, mas agora se transferindo as oposições para a linguagem verbal. A linguagem barroca, de uma maneira geral, é prolixa, exagerada no uso das figuras de linguagem, que se acumulam tanto que às vezes o texto aparentemente não tem qualquer nexo. Contraditoriamente, entretanto, atingir este uso da linguagem advém de um trabalho intelectual em que é preciso grande discernimento e esforço intelectual. O poeta barroco é o homem que quer diferenciar-se das massas e pertencer à elite aristocrática, às cortes absolutistas. Para isso, escreve de maneira empolada, pedante até. A temática religiosa e a reflexão sobre a vida humana em sua condição efêmera são alguns dos temas preferidos do período.

Estas são linhas gerais do que é o movimento barroco, e estão longe de dar conta da complexidade deste período artístico. Eu precisaria de anos e anos de publicações diárias e acho que nem assim seria possível dar conta de tantos elementos únicos que o Barroco vai ter em cada país, em cada artista e em cada obra. Por isso, não esqueçam nunca de que estas são formas didáticas, facilitadoras da apreensão do movimento. Racionalizar o que não é nem pretende ser racional: estudar Barroco é um desafio e tanto!

Nas próximas postagens… Gabaritos das nossas fichas sobre Barroco.

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