Michelangelo, Rafael e Leonardo: mais que ninjas

Cowabanga!!! Santa tartaruga renascentista!

Tá bom. Você não teve infância no fim dos anos 80 e início dos 90. Isto foi uma piada. Clique aqui e descubra o que significa ter uma infância MUITO divertida!

Passado o momento instrutivo sobre a era de ouro dos desenhos animados… Vamos ao que interessa!

Os três grandes nomes das artes plásticas no Classicismo são o pintor Rafael Sanzio; o escultor, arquiteto e pintor (a contragosto dele) Michelangelo Buonarroti; e o arquiteto, matemático, inventor, físico e (nas horas vagas) pintor Leonardo da Vinci. É nas obras destes três grandes mestres que a arte da renascensa atinge seu máximo esplendor.

Comecemos por Rafael. Suas pinturas são as que mais desenvolveram os ideais clássicos de beleza: harmonia, regularidade de forma e de cores, que resultam numa sensação de ordem, equilíbrio e segurança. Estas sensações são conseguidas pela hamornia das cores, que mesmo contrastantes sempre parecem suaves, pelo predomínio da distribução das figuras humanas em disposição piramidal, no centro da tela e tendendo o ápice ao ponto de fuga e pelo uso moderado do chiaro-oscuro (claro-escuro): o contraste é suavizado pelo esfumaçamento da sombra que dá volume às formas. Com estes recursos, mesmo imagens que poderiam ter em si elementos grotescos, como o corpo de Cristo após o massacre de sua paixão, expressam serenidade e beleza, em quadros claros e amplos. Basta conferir a imagem da tela em óleo de Rafael no post anterior que estas características ficam bem evidentes.

Além dos quadros que imortalizaram sua obra, Rafael também se destaca pelos afrescos. Esta técnica consiste na pintura das paredes (geralmente de igrejas e palácios). Em seus afrescos Rafael aproeitava a estrutura arquitetônica do lugar em que realizava a pintura e lançavam mão da perspectiva para aprofundar a noção de espaço, tranformando o afresco em uma vista que se alonga para dentro da edificação. A ilusão dos afrescos é perfeita, e este tipo de estruturação vai ser muito usada, modernamente, na construção dos cenários Hollywoodianos: a arquitetura física vai cedendo espaço àquela que é pintada, dando a ilusão de ruas, vales, cidades inteiras.

A Virgem com o Menino e o pequeno João Batista Rafael Sanzio. A Virgem com o Menino e o pequeno João Batista – óleo sobre madeira

Escola de AtenasRafael Sanzio. Escola de Atenas – afresco

De Rafael, vamos a Leonardo. Da Vinci teve a versatilidade máxima de um homem de seu tempo, projetando-se pela ciência e pela arte com vigor e maestria. Fez projetos de urbanismo e saneamento em Milão, previu uma urbanização ordenada, com ruas alinhadas, praças e jardins públicos. Traçou esboços para milhares de inventos que na época eram impossíveis e hoje são parte de nosso cotidiano: helicópteros, submarinos, elevadores. Estudou o corpo humano e sua anatomia (confira o estudo de anatomia do post anterior).

Tanto trabalho em tantas áreas diferentes fez com que a dedicação para a arte (e para a ciência também) tivesse certa irregularidade. Muitas obras de da Vinci ficaram em estágio inacabado. Isto, porém, não minimiza a importância do conjunto de sua produção, que consiste em um afresco (a Santa Ceia, aquele mesmo de O código da Vinci) e quinze quadros, entre retratos e telas de motivo religioso (como a Virgem dos Rochedos — a Madona das Rochas — e Sant’Ana, a Virgem e o Menino). Mas, claro, nenhum é mais famoso que a Monalisa, ou La Gioconda, o retrato mais comentado pelos seus mistérios nos últimos quinhentos anos. Muita teoria conspiratória (quase um Código da Vinci exclusivo para a tela) já se teceu sobre a Monalisa. Desde sua identidade ser a de uma amante ou a mãe de Leonardo até ser o próprio pintor travestido de mulher. Há quem veja o famoso sorriso e se encante, há quem veja e não ache nada demais e há quem não veja sorriso nenhum. E é justamente a polêmica que dá mais relevância à tela.

As pesquisas mais recentes sobre a identidade da mulher retratada na Monalisa apontam para uma solução do mistério, que justifica o batismo da tela de La Gioconda: documentos de Leonardo apontam que ele teria feito o retrato de Lisa Gherardini (já viu este nome em algum lugar?), esposa de Francesco del Giocondoque. Embora o sobrenome seja sugestivo, a palavra gioconda também designava mulher alegre. O indício mais consistente é o fato de que, segundo estes documentos, Lisa Gherardini havia dado à luz pouco tempo antes de ser retratada. Segundo o costume da época, as mulheres grávidas ou que recentemente haviam parido seus herdeiros usavam um tipo de véu que, segundo o que apontou uma investigação com lasers e vários tipos de scanner, estão na obra original.

E o sorriso? Ah, o sorriso, depende de como você vê. Literalmente. Alguns estudos demostram que a técnica do sfumato (o chiaro-oscuro suavizado de Rafael) faz com que o sorriso se delineie principalmente pela incidência da sombra na boca, o que depende, portanto, da incidência da luz sobre o quadro. Quanto mais frontalmente se encara o quadro, menos evidente o sorriso. Quanto mais lateral a posição diante dele, mais acentuado, principalmente se olhamos a boca de maneira indireta, olhando a figura nos olhos. Que, por sinal, acompanham o apreciador, em qualquer angulação, efeito conseguido pelo sfumato e pela pequena diferença entre a posição entre os olhos e entre o tamanho de suas pupilas.

Não acredita? Confira você mesmo.

Monalisa

Por fim (mas não por último, porque essa é a minha tartaruga favorita), vamos a Michelangelo. Para mim, o mais talentoso de todos os artistas do Renascimento, Michelangelo foi um gênio, e como todo gênio, um talento muito precoce. Aos 13 anos ele era aprendiz de pintor em Florença, onde também estudava escultura. Seu primeiro relevo data dos 15 anos de idade, a Madonna da Escada (confira aqui). E no auge da juventude está o maior (literalmente) de todos os seus legados: o gigantesco David. Gigantesco não é força de expressão. Originário de um bloco de mármore de seis metros de altura, David representou três anos de luta entre o homem e a pedra em busca da perfeição. O resultado é uma obra de proporções titânicas: 5,17m de altura, em que as proporções naturais são exageradas para que, do chão, o espectador tenha tanta visibilidade de sua expressão confiante, que emana de seu olhar (sim, a estátua tem pupilas), quanto um que possa se manter à mesma altura da estátua. Não apenas a cabeça é exagerada propositalmente, mas também as mãos, particularmente a mão direita da estátua, que segura a pedra, arma que será usada em combate. Distanciando-se do lugar-comum no retrato do personagem bíblico David, que o enfocava após a morte de Golias, Michelangelo representa-o no momento imediatamente anterior à batalha, ressaltando, com isto, o antropocentrismo, a crença no poder humano diante dos grandes obstáculos.

Chega de falar do David. Apreciem-no.

David

David  - detalhe

Uma ressalva antes de continuar: o exagero das proporções da cabeça e da mão que foram mencionados não é aleatório (a harmonia da obra já nos aponta isso). Adivinha que proporção matemática Michelangelo usou para conseguir manter a harmonia entre as partes do corpo. Se você pensou em 1,618 — o número de ouro… Acertou!

A obra que torna mais conhecido o nome de Michelangelo, ironicamente, é a obra que ele mais rejeitou: os afrescos pintados no teto da Capela Sistina. A obra, que custou quatro anos da dedicação do artista (que sempre frisava, era escultor, não pintor), é um marco da pintura na história da arte ocidental, pela grandiosidade de suas figuras e de seu tema: toda a história da bíblia, desde a criação de Adão. Este quadro, por sinal, particularmente, expressa todo ideal humanista do Classicismo: repare na mão relaxada de Adão, quando recebe o toque da criação divina, num comportamento indulgente e, ao mesmo tempo, insolente, pois ele encara Deus olhando-os nos olhos. Mais que isso. Repare na estrutura púrpura em que Deus está. Muitos percebem que, na horizontal, a imagem assemelha-se muito a um cérebro (cortado pela metade, o que representaria que Deus é que é uma criação da mente humano), enquanto na vertical lembra um coração humano (e Deus estaria também no coração do homem, como está em sua mente).

A criação de Adão

Criação de Adão - detalhe

Como saber se é isto mesmo? Só perguntando para o pintor. Mas, mesmo que fosse possível, ele teria que se contentar com um fato: depois que a obra vem a público, ela é do público e do significado que ele atribui a ela, e não mais do artista.

Em dois posts, um século de artes plásticas. Se preparem para pular para o século XVII na próxima!

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12 thoughts on “Michelangelo, Rafael e Leonardo: mais que ninjas

  1. Bianca, queria pedir uma ajuda tua… estou com dificuldade para interpretar poemas e textos do barroco , se for possivel tu tens como fazer um tópico de dicas e exemplos de como interpretar? obrigado 🙂

  2. Por favor, precisamos de mais informações sobre a obra. Detalhes de pintura, óleo usado sobre tela e mais !

    • Juliana,

      O objetivo deste blog, no tocante às artes plásticas, é oferecer aos leitores um panorama geral. Para se aprofundar eu sugiro você buscar em outras fontes, ok?

      Sinto muito não poder atender seu pedido! 😦

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