E essa história de gênero?

Eu prometi um próximo post sobre gêneros literários e ele tá aqui. Tá certo que dois posts depois do prometido, mas postagem só vale quando é bem feita e eu tinha que ficar elaborando o texto lá nas minhas entranhas né? Afinal, vocês merecem o melhor de mim, como diz a música do Lulu Santos. Se for pra ficar sempre mais do mesmo, melhor nem começar. É estou musical hoje.

E para não esgotar as minhas referências, como diz a repórter mais irritante do mundo (aquela do Domingo Espetacular que procura o que eles chamariam de causos engraçados): bora lá?

Essa história de gênero parece, de cara uma coisa bem simples. É e não é. Na época de Platão, Aristóteles e CIA Ltda era. Hoje em dia nem tanto. Pros gregos as coisas eram bem definidas, porque os tipos de texto que se produziam na época tinham essa característica. Eles se definiam de forma muito clara nos vários critérios de observação que se podia estabelecer. Siga a minha versão. 😛

Se um filósofo grego observasse como os textos circulavam em sua época, seus problemas acabavam:

  • o que se escrevia para ser cantado, acompanhado por música, era lírico;
  • o que se escrevia para ser contado por alguém que às vezes falava o que os personagens da histórica falavam, era épico (vem do grego epos, palavra);
  • e o que era escrito para ser representado pelos atores no teatro era dramático.

Simples assim.

Se o tal filósofo observasse a estrutura dos textos, ele também não tinha problemas:

  • o que se escrevia como simples narrativa, em que um eu falava de si mesmo, era lírico;
  • o que se escrevia imitando as outras pessoas, encenando os diálogos e as ações delas, era dramático;
  • o que se escrevia combinando as duas coisas, era um gênero misto (como definiu Platão), o gênero épico (definição claramente oferecida por nós por Aristóteles).

Simples assim de novo.

Aí lá vai o nosso intrépido filósofo e se pergunta como é que ele pode classificar os textos de acordo com o seu conteúdo. E os problemas dele acabam rapidinho. De novo.

  • o que conta coisa apenas do universo pessoal é o que é falado por aquele eu da observação anterior, que é o texto que circula acompanhado de música. Ou seja, é lírico.
  • aquele texto que é representado e que só tem diálogos conta as mais diversas coisas. No mundo grego daquele tempo, podiam ser coisas alegres, com personagens cheios de defeitos e engraçados, ou coisas muito tristes, com personagens superiores ao ser humano comum (tinham que ser, para suportar aquela pressão). Ou seja, é dramático.
  • aquele que era contado (e não cantado) de maneira mista, usualmente relatava histórias de grandes batalhas dos heróis do passado, todos mais divinos que humanos. Era o épico.

Não tão simples, mas fácil de resolver com as observações anteriores.

Mas os tempos passam, as coisas mudam. Aí você imagina na Idade Média (ou nos anos 80) um trovador, um cantador, espalhando pelo mundo, com sua viola (ou guitarra) versos assim:

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram…

Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer…
Um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
“Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”

Festa estranha, com gente esquisita
“Eu não ‘to’ legal, não agüento mais birita”
E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
“É quase duas, eu vou me ferrar…”

Eduardo e Mônica, canção de Renato Russo da época em que ele foi o Trovador Solitário, mostra bem pra gente que com o tempo as coisas foram se misturando. Na Idade Média era bem isso: cantar e contar eram coisas muito, muito próximas. Além disso, nesse período, o texto épico com heróis super-humanos é substituído pelas canções de gesta e pelas novelas de cavalaria, que contam não mais feitos de homens superiores em nome de sua nação, mas de homens ainda muito valorosos (mas não mais semideuses) que lutam em nome da religião e do amor.

Na Idade Média, também, ficam registrados os textos satíricos, através do que se chamou, na época, de cantigas de escárnio e cantigas de mal-dizer. Estes textos satíricos formaram um gênero poético específico, que existiu com as mesmas características até a revolução burguesa. A partir de então, do início do século XIX, a sátira deixou de ser um gênero e virou uma atitude, presente em muitos textos. Nela se escolhe uma pessoa ou instituição que é ridicularizada e criticada, fazendo-se o que em Roma foi chamado de ridendum castigat moresrindo se castigam os costumes.

Quer exemplo de texto satírico? Olha um bem moderno aqui:

Existem mulheres que são uma beleza
Mas quando abrem a boca
Hmm que tristeza!
Não não é o seu hálito que apodrece o ar
O problema é o que elas falam que não dá pra aguentar
Nada na cabeça
Personalidade fraca
Tem a feminilidade e a sensualidade de uma vaca
Produzidas com roupinhas da estação
Que viram no anúncio da televisão
Milhões de pessoas transitam pelas ruas mas conhecemos facilmente esse tipo de perua
Bundinha empinada pra mostrar que é bonita
E a cabeça parafinada pra ficar igual paquita

Lôra burra!

Elas estão em toda parte do meu Rio de Janeiro
E às vezes me interrogo se elas tão no mundo inteiro
À procura de carros
À procura de dinheiro
O lugar dessas cadelas era mesmo no puteiro
Só se preocupam em chamar a atenção
Não pelas idéias mas pelo burrão
Não pensam em nada
Só querem badalar
Estar na moda tirar onda beber e fumar
Cadelinhas de boate ou ratinhas de praia
Apenas os otários aturam a sua laia
E enquanto o playboy te dá dinheiro e atenção
Eu só saio com você se for pra ser o Ricardão

Lôra burra!

Não eu não sou machista
Exigente talvez
Mas eu quero mulheres inteligentes
Não vocês
Vocês são o mais puro retrato da falsidade
Desculpa amor
Mas eu prefiro mulher de verdade
Você é medíocre e ainda sim orgulhosa
É mole?
Não tá com nada e tá prosa
E o seu jeito forçado de falar é deprimente
Já entendi seu problema
Vocês tão muito carentes
Mas eu só vou te usar
Você não é nada pra mim
(Hmm meu amor
Foi bom pra você?)
…Ah deixa eu dormir
Pra que dar atenção pra quem não sabe conversar?
Pra falar sobre o tempo ou sobre como estava o mar? Não
Eu prefiro dormir
Sai daqui
Eu já fui bem claro mas vou repetir
E pra voce me entender vou ser até mais direto:
Lôrabúrra, cê não passa de mulher-objeto

Lôra burra!!

Escravas da moda vocês são todas iguais
Cabelos, sorrisos e gestos artificiais
idéias banais e como dizem os Racionais:
(Mulheres vulgares
Uma noite e nada mais)
Lôra burra você é vulgar sim
Seus valores são deturpados você é leviana
Pensa que está com tudo mas se engana em sua frágil cabecinha de porcelana
A sua filosofia é ser bonita e gostosa
Fora disso é uma sebosa tapada e preconceituosa
Seus lindos peitos não merecem respeito
Marionetes alienadas vocês não têm jeito
Eu não sou agressivo
Contundente talvez
O Pensador dá valor às mulheres
Mas não vocês
Vocês são o mais puro retrato da falsidade
Desculpa amor
Mas eu prefiro mulher de verdade

Lôra burra!

É o problema não tá no cabelo
Tá na cabeça
Não se esqueça
Nem todas são sócias da farmácia (Lorácia)
Tem muita lôra burra de cabelo preto e castanho por aí
É… Lôra burra morena, ruiva, preta…
Lôra burra careca
E tem a lôra burra natural também (lôraça belzeburra)
Cada Lôra burra é de um jeito mas todas são iguais
Cê tá me entendendo?
(Eu gosto é de mulher)

Lôra burra!

A canção de Gabriel o Pensador chocou muita gente quando foi lançada no primeiro disco do cantor, em 1993. Mas a verdade é que esse tipo de coisa já fazia parte da literatura em língua portuguesa desde antes do século XIV (embora os primeiros registros escritos remontam aos anos 300 não significa que só aí se produziu este tipo de texto). E nem deveria chocar tanto: o intuito de Gabriel o Pensador é de ridicularizar um comportamento de um tipo específico de pessoa e, assim, quem sabe, promover uma mudança. Houve textos satíricos na Idade Média e em outra épocas que se dirigiam apenas para humilhar o satirizado. Em outras oportunidades eu mostro alguns.

Lendo os textos das duas canções, fica bem claro que a teoria clássica dos gêneros não resolve as coisas assim tão facilmente fora da Grécia, não é? É e não é. É porque, evidentemente, em outros contextos, gêneros foram criados, misturados, abandonados… E não é porque ela é a base para a compreensão dos gêneros e, com algumas releituras, é mantida como consenso de classificação de toda produção literária ocidental. A oriental? Não me arrisco a afirmar sobre ela. 🙂

Aí chega a hora exata de você perguntar “Mas, Bianca, e como ficam aqueles textos de poesia visual que você colocou na ficha 6?“. Boa pergunta, jovem padawan!

É o seguinte… Alguns poesias de caráter visual ainda têm um eu lírico claro porque deixam escapar algum verbo, algum pronome que indica a primeira pessoa. Nesse caso fica fácil, se a enunciação em primeira pessoa tiver como intuito o falar deste universo pessoal. Mas alguns outros textos (e nem precisam ser de poesia visual) não têm isso claramente. É o caso dos poemas visuais da fichinha de vocês e de textos como os de João Cabral de Melo Neto, tão anti-lírico ele. Alguns exemplos:

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão, entra um risco:
o de entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quanto ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


Psicologia da composição


Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

Não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

Notaram que não existe nenhum um eu falando sobre suas emoções, suas impressões sobre o mundo nestes textos? É tudo tão objetivo  e o texto lírico, por definição, é tão subjetivo, tão desse eu? Mas, ao mesmo tempo, não há neles nenhuma narração, nem personagens? O que é isso então?

É o seguinte… Se pensarmos na teoria clássica, lírico não é. Mas existem teorias modernas sobre o que é lirismo em que esse texto se encaixa. Há uma perspectiva, nada recente, na verdade, que entende que o lírico é definido como um olhar sobre a realidade. É como uma fotografia de um instante e, por isso, nesta fotografia, não é necessário haver um espelho em que o fotógrafo esteja refletido, porque a própria escolha do tema e da montagem da composição já denunciam sua presença. É o que ocorreu nos dois textos de Cabral que você leu. Implicitamente existe um alguém que nos fala sobre o que é escrever (é como o ato de catar feijão — tudo aquilo que sobre, que é superficial, que boia, é desprezado, fica apenas o essencial), o que é poesia (não é um objeto trivial, encontrado no caminho, nem uma coisa obtida por sorte, mas é uma conquista tecida artesanalmente, conquista atingida pela habilidade do artista, que deve ter perícia para manipular sua matéria, para que não perca seu trabalho). Implicitamente há um eu, ali, e já basta. O mesmo ocorre com os textos da poesia visual, neste ponto de vista sobre os gêneros.

Bianca, e se o texto lírico é a fotografia do instante, o épico e o dramático são o quê?

Seguinte: pensando nessa relação com o tempo, o lírico é a fotografia do instante efêmero. O texto épico é o relato de acontecimentos passados, um resgate de um passado que se atualiza cronologicamente. Para o épico e o narrativo (pelo menos o texto narrativo tradicional), alguém conta o que aconteceu. O texto dramático, por sua vez, se refere a acontecimentos presentes que se projetam para um futuro: as ações se projetam em consequências que ocorrem no futuro imediato ao da leitura.

Perdeu o fio da meada nessa história de passado e futuro? Embarque no Delorean que eu explico de novo.

No texto narrativo e no texto épico tradicionais, se você interromper a leitura, pode voltar, mais tarde, ao mesmo ponto do texto. Tudo o que tiver acontecido continuará acontecido. No caso do texto dramático (exceto se você estiver assistindo a um DVD, qualquer vídeo gravado ou tiver aquela pausa de programação ao vivo de TV por assinatura) se você for beber água enquanto a peça, filme, seriado estiver rolando, você perde o acontecimento. Ele não está concluso no passado, no momento da representação, mas está se desenrolando no presente e se projetando para um futuro imediato (a cena vai progredindo junto com o tempo da leitura — no caso do ato de assistir ao texto).

Por hoje eu fico aqui. Daqui pra quinta, eu deixo os gabaritos das fichas 5 e 6.

Beijinhos!!


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