Considerações sobre Anchieta, o Auto de São Lourenço e sobre o meu joelho podre

Oi, fofinhos,

Estou com saudades e vou ficar mais ainda com esse feriado no meio do caminho. Mas como tem coisas que só acontecem comigo, fui obrigada a não ver vocês ontem. Não sei que versão contaram, mas sigam a minha versão…

Estava eu, linda e serelepe, feliz da vida com uma pilha monstruosa de coisinhas bonitinhas de aluninhos fofinhos para corrigir. Dirijo-me à mesa da sala dos professores. Sento-me. Organizo meu material. Ponho as duas mãos no tampo da mesa e puxo a cadeira, de rodinhas, para frente, para ter o melhor apoio para a minha atividade.

Em física vocês aprenderam que toda ação tem uma reação de módulo igual e sentido diferente. A minha ação de ir para frente foi proporcional à ação da ponta da trave de ferro que segura o tampo da mesa segurar o meu joelho que avançava para frente. E como, outra lei da física, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, o impacto no meu tendão do joelho espremeu algumas estruturas articulares. E como a lei de Murphy é a lei suprema do universo, hierarquicamente superior até às leis da física, evidentemente isto aconteceu com meu joelho naturalmente podre.

Resultado da lei de ação e reação do meu movimento (além de um grito de ai daqueles que mal consegue sair da garganta — a dor foi tão grande que não deu para falar quase nada, nem palavrão): uma injeção de anti-inflamatório, um joelho enfaixado e ordens médicas para alguns dias de repouso. Leia-se este item como: levante-se o mínimo possível e ponha esta perna para cima. Lá se foi a diversão do feriado. 😦

Ainda bem que ficar no computador é uma coisa que eu ainda posso fazer. E que a minha conexão se restabeleceu novamente. Já estava ficando com síndrome de abstinência.

Vamos ao que interessa, então, né? Afinal, vocês me amam, mas não vieram aqui para ler sobre o meu joelho podre.

Anchieta, o grande pihay (supremo pajé branco), o arabebe (padre voador), ou o Apóstolo do Brasil, nasceu em 1534, em San Cristóbal de La Laguna,  Tenerife, Ilhas Canárias, território espanhol. Portanto, ele não é um autor português, embora sua obra esteja a serviço da igreja em território luso. Seu histórico familiar e sua biografia têm elementos muito comuns a coisas que já discutimos em relação ao contexto da época: filho de um revolucionário que se opunha ao imperador espanhol Carlos V e de uma descendente de judeus convertidos, foi enviado para estudar em Portugal fugindo do rigor da Inquisição espanhola aos 14 anos. Em Coimbra foi estudante de filosofia no Colégio das Artes anexo à universidade coimbrã e ingressou na Companhia de Jesus (ordem dos padres jesuítas) três anos após deixar o território espanhol. Com a solicitação de mais soldados de Cristo, como eram conhecidos os padres jesuítas, em território brasileiro, foi enviado para o Brasil em 1553.

Em terras brasileiras, enfrentou as mesmas condições vivenciadas por missionários e viajantes em geral: uma natureza exuberante, porém selvagem, um ambiente que começava a ser “civilizado” e ordenado, onde todos os recursos tecnológicos eram escassos. Percursos de 100 quilômetros a pé eram rotina da atividade dos padres, que tinham como missão catequizar, educar e proteger os indígenas. Esta luta, por sinal, durou até o século XVIII em terras brasileiras: os colonizadores portugueses entendiam que era direito seu prender os silvícolas e através da escravidão “civilizá-los” à força; os jesuítas entendiam que não seria assim que eles teriam uma conversão genuína. A experiência com os cristãos-novos era uma boa prova de como a mudança de religião forçada não trazia frutos consistentes.

Como já discutismo antes, este trabalho com os índios não era uma ação apenas religiosa. A coordenação entre Igreja e Estado era particularmente forte em Portugal e Espanha e no contexto da colonização brasileira cada ato tomado do ponto de vista religioso tinha profundas consequências políticas. Anchieta participou das negociações de paz com os índios tupinambás na região de Yperoig (atual cidade de Ubatuba), negociou a paz com os índios tamoios na Confederação dos Tamoios (oferecendo-se, inclusive, como refém) — ocasião em que firmou aliança com Cunhambebe na cidade de São Vicente — lutou contra os franceses (a maioria deles protestantes) estabelecidos na baía de Guanabara, testemunhou a fundação da cidade do Rio de Janeiro (evento registrado em uma de suas cartas, datada de 9 de julho de 1565), fundou Iritiba — atual cidade de Anchieta — no Espírito Santo. Currículo impressionante, não? E ainda teve tempo para escrever literatura de informação, exercendo nela a função de historiador e de linguista (neste textos destacam-se as cartas e a Arte gramática da língua mais usada pela costa, a primeira obra sobre o tupi, publicada em 1595) e de catequese, na forma de poesia (aqui se destaca o Poema à Virgem — o título original é em latim: De Beata Virgine Dei Matre Maria, obra longa, em versos de métrica medieval) e teatro. Seu grande conhecimento das letras e das línguas permitiu que produzisse obras em prosa (literatura de informação) e em verso (literatura de catequese), em espanhol, português, latim e tupi. No caso dos autos, seu teatro de catequese, este caráter plurilinguístico ganha mais evidência: as línguas convivem nas obras. O Auto de São Lourenço, sua obra de maior destaque, originalmente tem falas em três das quatro línguas citadas.

Por falar no Auto, vamos nos focar nele. Aproveite para conferir se suas questões discursivas da ficha 4 estão todas corretas: é só ficar atento ao texto.

O Auto de São Lourenço, assim como as outras obras do teatro de catequese de Anchieta, é um resgate direto da tradição dramatúrgica medieval. Auto significa justamente isto, peça de teor religioso e sua origem remonta à Idade Média. Estas peças eram feitas, naquela época, na comemoração de datas religiosas e relatavam episódios de vida dos santos, milagres de Cristo, o nascimento e a paixão de Jesus. A nossa tradição na Semana Santa de fazer os espetáculos da Paixão remetem-se diretamente a esta tradição.

Os autos, além da religiosidade inerente a eles, têm, em geral, uma outra característica bem marcada: a rusticidade. Principalmente na Idade Média e no Brasil do século XVI, os recursos para se fazer teatro eram muito poucos. Atores que sabiam ler eram raridade. Cenário, só o que já pudesse ser usado pronto: o interior de uma capela, uma praça ou mercado público, um altar improvisado para uma celebração. No caso de Anchieta, percebemos esta rusticidade pela pequena quantidade de rubricas no texto.

O que é rubrica?

Rubrica é a indicação que o autor de um texto dramático faz de como a peça deve ser encenada. São informações para atores, diretores, figurinistas, sonoplastas, técnicos de efeitos especiais para que a peça seja executada como o autor a imaginou. Essas informações ficam restritas ao texto (não são faladas pelos atores), e neles vêm indicadas ou por parênteses ou pelo uso em itálico (ou ambos). O público só toma conhecimento destas indicações vendo ou ouvindo sua realização (se o figurino indicado é realmente usado, se o efeito de som é mantido naquele momento, se o ator realiza a ação que foi indicada para o personagem).

Mas porque Anchieta escolhe fazer teatro para catequizar os índios? E porque ele escolhe um tipo de peça de origem medieval e não escreve as peças como faziam os autores renascentistas, de quem foi contemporâneo? Respostas simples:

  • os jesuítas eram treinados para usar todos os recursos possíveis (o teatro inclusive) para a conversão dos gentios — e foi justamente o teatro, que se mostrou mais eficiente no contexto brasileiro;
  • o auto era uma forma de arte teocêntrica, modelo diametralmente oposto à arte classicista (o Classicismo era o movimento artístico dominante na Europa no século XVI, lembram?), que dava forma aos ideais antropocêntricos vigentes no século XVI.

Para manter-se fiel à tradição do teatro medieval, teatro anchietiano reproduz dois recursos comuns daquele período: a alegoria e  a redondilha. O que são essas coisas mesmo? Vamos a elas.

Uma alegoria é uma narração de cunho metafórico. Todas as parábolas bíblicas são alegorias: narrações que, em determinado momento, revelam-se simbólicas. Para construir esta metáfora que é a narração em si, entretanto, não significa, necessariamente, que o recurso principal a ser usado é a figura de linguagem metáfora. Pode-se usar outras figuras de linguagem, como a prosopopeia (também chamada de personificação). É o caso de Anchieta: no Auto de São Lourenço a alegoria principal está no aparecimento dos personagens Amor de Deus e Temor de Deus. Observem que estes personagens são elementos abstratos, sentimentos. Quando eles ganham corpo, voz, fala e aconselham o público a fazer isto e aquilo por amor e por temor a Deus, Anchieta cria uma alegoria através da personificação, da atribuição de elementos humanos a coisas que não são humanas.

Não entendeu como uma metáfora pode ser construída através de uma outra figura de linguagem ainda? Então faz o seguinte: leia este texto fofuchinho, das antigas aqui na web. Ele é uma alegoria, uma grande metáfora e o principal recurso para construir o texto é personificar os sentimentos, mais ou menos como Anchieta faz no auto.

Alegoria ok. Então vamos à redondilha.

A redondilha é um tipo de métrica medieval. A métrica é a extensão, o comprimento de um verso, que é contado pelo número de sílabas poéticas que ele tem. Veja que são sílabas poéticas, não é qualquer sílaba. É que uma sílaba poética não corresponde, necessariamente, a uma sílaba comum. Existem alguns truques para identificá-las e contá-las: é o que fazemos na escansão de um texto.

Não precisam ficar com medo da escansão. Eu não vou pedir em prova que ninguém conte sílabas poéticas, este é um conhecimento especializado. O que vocês precisam gravar é a quantas sílabas corresponde cada métrica e que tipo de poesia (popular ou elitizada) costuma usá-la.

As principais métricas são a redondilha, o decassílabo e o alexandrino. A primeira é uma extensão medieval, de caráter popular, também chamada de medida velha. Ela corresponde a cinco sílabas (redondilha menor) e sete sílabas (redondilha maior). O decassílabo, como o nome diz, é um verso de dez sílabas. Chamado de medida nova, foi muito usado na poesia erudita do século XVI até o século XIX. No fim dos anos oitocentos, passou a ser substituído pelo verso alexandrino, também chamado de dodecassílabo (doze sílabas poéticas).

Sendo um auto, claro que o conteúdo do Auto de São Lourenço é predominantemente religioso. A obra parte de um argumento de ordem religiosa, o martírio do santo católico (que foi assado vivo!), para se aprofundar numa outra questão religiosa, mais relevante para a época: o comportamento do bom cristão. Para isso, paralelamente à trama da morte de São Lourenço e da ira divina que é lançada sobre seus algozes (os imperadores romanos Décio e Valeriano), desenvolve-se uma ação que interessa diretamente à comunidade local: o conflito Anjo, São Sebastião e São Lourenço × Guaixará, Aimbirê e Saravaia, os três demônios tamoios que pretendem perverter a aldeia de São Lourenço. Esta trama é a mais relevante da peça, pois simboliza o conflito entre o comportamento do bom cristão e do indígena incréu (palavra horrível!), o qual está condenado ao inferno e à punição divina, como estão Valeriano e Décio, pois se deixa influenciar pelos demônios. Por sinal, Guaixará era o nome de um herói tamoio que lutou contra os portugueses das cidades de São Sebastião do Rio de Janeiro e de São Lourenço.

Este conflito entre bem e mal, deus e demônio é a concretização mais clara do maniqueísmo que orienta as peças anchietianas e os autos medievais de uma maneira geral. O maniqueísmo é a filosofia que divide o universo em categorias estanques, isto é, muito bem definidas, que não se misturam. E estas categorias estão, invariavelmente, ligadas à noção de bem e mal. Todas as narrativas que usam personagens que têm um caráter completamente definido como “do bem” ou “do mal” são narrativas maniqueístas. Anchieta não só desenvolve estes personagens planos como eleva profundamente o grau de estereotipação deles, construindo personagens tipos, caricatos, embora destituídos de humor. Suas peças, ao contrário dos autos medievais do grande dramaturgo português Gil Vicente, são completamente destituídas de comicidade.

Vamos ficar por aqui hoje. Este post já está imenso. Mas o Auto de São Lourenço ainda não se esgotou não, tá? Tem mais coisas sobre ele num próximo post. E, como estou de molho, não vai demorar muito não. Até o domingo de Páscoa eu deixo alguma coisa aqui para vocês.

Beijinhos!

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2 thoughts on “Considerações sobre Anchieta, o Auto de São Lourenço e sobre o meu joelho podre

    • Anônimo,

      Provavelmente sim, mas não são textos que ficaram registrados no espólio de Anchieta. O que ficou dele para nós foram os poemas, os hinos e as peças de teatro.

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