Quinhentismo: a não-literatura funda uma tradição literária

Olá, povo

Eu queria ter deixado esta postagem mais cedo, mas não deu. De qualquer jeito, fica aqui para ajudar o último dia de estudo antes da nossa lindíssima avaliação! 🙂

As nossas últimas discussões em sala se dirigiram diretamente sobre o que é o Quinhentismo e porque é importante estudá-lo. Retomando um pouquinho o assunto, vamos poder conceituar o Quinhentismo como o primeiro período de produção escrita no Brasil, no qual se produziram dois gênero específicos de literatura: a literatura de informação e a literatura da catequese. Para nós, por enquanto, interessa apenas a literatura de informação, então vamos nos ater a ela. Teremos muito tempo para discutir a literatura de catequese.

A importância da literatura de informação não advém de uma qualidade literária. Estes textos, como já vimos antes, não têm literariedade, não privilegiam os efeitos estéticos da mensagem, não têm a função poética da linguagem como a predominante. Portanto, em sentido estrito, não são literatura (e daí termos que frisar que são literatura de informação). Seu principal valor é histórico, já que documentam os acontecimentos da época e a relação com a natureza e as gentes do Brasil.

Isto não significa, entretanto, que para a formação da Literatura Brasileira estes textos não tenham importância. Eles têm, mesmo não sendo uma literatura propriamente dita. E esta importância está na questão temática. Os textos deste período são os primeiros que vão refletir a respeito do Brasil e aquilo que o compõe. Eles são a primeira referência de o que somos, como somos. E refletir sobre isso leva também a pensar sobre o que queremos ser e como queremos ser.

Em pelo menos dois períodos da nossa história literária estas questões foram particularmente importantes: durante o Romantismo (movimento que vigorou entre 1836 e 1881) e durante a primeira fase do Modernismo (a conhecida geração de 22 dominou estas questões, mas o período seguinte também fez isso numa perspectiva regionalista. Podemos estabelecer que a onda “nacionalista” vai de 1922 a 1945). Essa revisão teve uma perspectiva ora idealizadora do que é o Brasil (o Romantismo fez isso na primeira etapa de sua existência e uma parte dos autores da geração de 22 acompanharam a tendência) ora crítica (mais própria de um segundo grupo modernista, dos românticos do fim do período, que lutaram pela abolição da escravatura e dos modernistas-regionalistas, que denunciaram a miséria nordestina da seca e da fome). Veja que são posturas não muito distantes daquela dos autores do Quinhentismo, que ora manifestavam seu ponto de vista edênico (idealizador, afinal o país é um paraíso), ora um olhar crítico.

Por isso mesmo, pelo menos em duas épocas bastante definidas vamos ter um grande fluxo de textos que dialogam com o passado, seja através da revisitação temática, seja através das relações intertextuais mais claras (a paráfrase, a paródia e a estilização, lembram?).  Portanto, conhecer os textos que fundaram estes olhares sobre o Brasil é uma excelente preparação para o que vem pela frente e, principalmente, é ter a consciência do processo contínuo que a produção social da arte. Quanto mais lermos, mais vemos e nós somos o que mesmo? Ah, vocês já sabem: “Eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura“. Fernando Pessoa forever!!!

Na prática, nós observamos uma dessas revisitações do tema Brasil na paródia que Oswald de Andrade fez da Carta do Achamento no poema As meninas da gare. Como vimos, Oswald é um dos modernistas de 22 que optam por uma perspectiva crítica do Brasil. Ele propõe que esta crítica se paute principalmente na revisitação irônica do passado que é o que ele fez no poema. Para isso, em As meninas da gare ele escolheu como texto matriz o primeiro trecho em que Caminha menciona a nudez das índias e destaca, detalhadamente, como são as partes pudendas das moças, comparando-as com as das mulheres portuguesas (em outra parte da carta o texto  afirma que são as mulheres “nossas” que teriam vergonha de não terem as suas como as delas).

Observe que Caminha, originalmente, usa a palavra vergonha tanto com o significado de pudor como para designar as partes íntimas do corpo, o que mostra como a sexualidade está, em sua perspectiva de mundo, associada a algo que precisa ser ocultado, resguardado. Não é a toa, já que na época a teoria cristã é de que o sexo é um pecado e que a pessoa só será pura espiritualmente se sublimar a tentação carnal. Para isso, nem mesmo ver o próprio corpo era uma ação vista com bons olhos, pois a visão do corpo nu poderia gerar desejos (como Cosme Fernandes, esse sem pudores, fala ao descrever o que sente quando vê as índias nuas). Questão 1 ok? Ok!

Mas não é das índias que Oswald fala em seu texto. A obra de Caminha é completamente modificada com a atribuição do título, As meninas da gare, ou seja, As meninas da estação de trem. O título transforma a descrição e a narração do texto original, deslocando-as da floresta do século XVI para o ambiente urbano do século XX. Neste contexto, a nudez deixa de ser um elemento cultural e passa a ser uma transgressão, uma perversão do que se considera o bom costume, o correto. E essa transgressão explica-se na identidade das personagens: as índias viraram as prostitutas da estação de trem. Ou seja, o tempo e a “civilização” trazida pelos portugueses resulta em uma sociedade transgressora, pervertida, em que as pessoas precisam se prostituir (pelo menos em princípio mulheres não se prostituem porque gostam e escolhem a atividade, mas porque não encontram outra forma de subsistência). Algumas leituras podem até lembrar que há uma noção de evolução tecnológica (na década de 20 um trem era um ônibus, um meio de transporte comum, mas uma teconologia impensável no século XVI). Mas de que adianta o progresso, se ele não chega a todos e as pessoas não podem viver com dignidade? Questão 2 ok? Ok!

Para concluir a postagem de hoje, vamos aos gabaritos das questões objetivas que concluem a ficha 3, a qual usamos para manter a nossa discussão. A questão 1 tem como gabarito a alternativa D e a questão 2 tem como gabarito a alternativa E.

Beijinhos!

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7 thoughts on “Quinhentismo: a não-literatura funda uma tradição literária

  1. Profili.. não sei se você vai conseguir tirar a minha dúvida a tempo da prova (rezo que sim), mas aqui vai ela.. Posso dizer que um pensamento idealizador é um ponto positivo certo? Porque de acordo com o que você disse aqui no blog, o CRÍTICO é um lado negativo. Logo, o IDEALIZADOR é o positivo certo? Só queria saber por desencargo de consciência.. hehe, Beijos

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