A Carta do Achamento

Olá, meus queridos!

Hoje vimos a tão famosa Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil, considerada a certidão de nascimento do nosso país. Este texto é o marco inicial da produção literária (em sentido amplo, de produção escrita) no Brasil. A importância histórica da Carta é tão extrema que ela permaneceu sob absoluto sigilo até 1773 (sendo publicada apenas em 1817), escondida nos arquivos confidenciais da corte para evitar que espiões de países europeus pudessem ter acesso às informações nela contidas. Este sigilo, aliás, faz com que a Carta seja considerada uma verdadeira sobrevivente ao tempo. Muitos outros textos foram escritos por outros autores na mesma ocasião, mas apenas três sobreviveram ao tempo: o texto de Caminha, a Carta de Mestre João (um médico-astrônomo-astrólogo espanhol que fazia parte da frota) e o Relato do Piloto Desconhecido. Deles, sem dúvida, o texto de Caminha é o mais completo, complexo e verossímil: a Carta de Mestre João é uma missiva extremamente curta que não se refere à descoberta do Brasil em si, mas sim aos métodos de orientação usados pelos navegadores, ficando a referência ao Brasil relegada à apresentação do local e tempo em que foi feita (“Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500“); o Relato do Piloto Desconhecido foi publicado pela primeira vez em 1507, em italiano, e só vertido para português em 1812. Como o título atribuído a ele denota, sua autoria é incerta, o que minimiza a confiabilidade do texto.

Se são poucos os países que têm um marco tão claro do início de sua história, o que por si dá à Carta um status tão especial, o texto de Caminha tem uma inegável qualidade, que alguns críticos consideram artística. Esta corrente alega que alguns elementos do texto, como a admiração quanto à beleza do local denotam uma atitude subjetiva de Caminha em relação ao país. Se observarmos com mais cuidado este elemento, perceberemos que esta subjetividade não justifica a qualificação de um texto como literário. Para haver a arte da palavra, o fenômeno que é a literatura é preciso haver o uso propositado dos elementos textuais para se constituir um efeito estético, uma linguagem simbólica, e esta busca deve ser o objetivo central da produção do texto, coisa que na Carta não ocorre. O que Caminha tem de especial é uma qualidade como informante, como repórter do que acontece, não como artista. O valor literário da Carta, em si, como texto isolado, é nulo. Entretanto, para o conjunto da Literatura Brasileira é um texto fundamental, porque lança um dos temas fundamentais da nossa literatura: o que é ser brasileiro, o que constitui o Brasil.

Portanto, o que define a Carta como produção escrita de maior importância é ser o texto fundamental da literatura de informação, que inaugura a produção escrita no Brasil. Sendo um texto informativo, predomina nela a função referencial (ou informativa) da linguagem e ela privilegia o relato realista dos fatos que foram observados. Ou pelo menos pretensamente o faz: além de Caminha, segundo algumas informações, aparentemente não ter pisado em terra, relatando então não o que viu, mas o que ouviu, pelo menos em um momento do texto ele trai a objetividade e o realismo que ele mesmo estipula que a Carta deve ter, e isto se dá, justamente, na narração do primeiro encontro entre colonizadores e gentios. Observe que Caminha afirma que a culpa de não poder haver “entendimento de proveitos” nete contato é do barulho do mar que quebra na costa. Logicamente esta não é uma razão plausível e mais à frente no texto ele mesmo admite que a língua dos indígenas era desconhecida. Entretanto, denunciar claramente que nenhum dos três intérpretes levados pela frota de Cabral conseguiu comunicar-se com aqueles nativos seria embaraçoso e poderia fazer com que o rei, desapontado, não desse mais oportunidades aos tripulantes (eis aqui as repostas da questão 1). E, por isso mesmo, notem que não há na Carta, qualquer referência ao consumo exagerado de bebidas pela tripulação ou pelos degredados, ao envolvimento sexual com as indígenas ou qualquer comportamento que desabone a tripulação. D. Manuel, rei de Portugal, tinha ordens severas para o comportamento nas missões expedicionárias portuguesas:até o jogo de cartas e a leitura de textos de ficção eram proibidas. Informações deste tipo — assim como as que atestam a incompetência dos tripulantes — não são, evidentemente, convenientes, e, por isso, acabam omitidas ou geram uma ligeira “alteração dos fatos”. Caminha enfatiza outras informações, que naquele momento podem interessar mais ao rei, desviando sua atenção até que ele nem se lembre de perguntar se alguém se comportou mal ou se ninguém realmente conseguiu aprender aquela língua, fazendo com que estas coisas virem meros detalhes. Que recurso o escrivão usa para conseguir isto? Enfatiza a descrição dos índios e das interações ocorridas entre nativos e recém-chegados.

Sendo um texto que relata estes primeiros contatos entre portugueses e os indígenas e a terra brasileira, o ponto de vista da Carta é predominantemente edênico (relativo ao Éden, o jardim das delícias, paraíso habitado por Adão e Eva na primeira criação, onde não havia nenhum dos males que afligem a humanidade – fome, miséria, doença, guerra). Caminha destaca a beleza do lugar, elogiando repetidamente a formosura da terra (“De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa“), sua grandiosidade (“Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa” e “Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender d’olhos não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa“), seu clima e solo favoráveis (“a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho” e “As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem“). Os elogios não ficam apenas na análise da natureza, estendendo-se o ponto de vista edênico também em relação ao povo (“Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas, e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto“, “esta gente é boa e de boa simplicidade” e “Nosso Senhor, [que] lhes deu bons corpos e bons rostos como a bons homens“). Observem que com esta análise respondemos à questão 4 da primeira parte da ficha.

Ha existência do ponto de vista edênico não significa, entretanto, que todos os hábitos indígenas são aceitos como coisa comum e sem importância. A nudez, por exemplo, embora percebida como inocente, na perspectiva do português é uma atitude vergonhosa (observe o uso da palavra vergonha na referência às partes íntimas dos gentios). Embora o hábito da nudez de outros povos não fosse uma completa novidade para os portugueses, que já o haviam encontrado em muitas tribos africanas as quais já vendiam como escravos no século anterior, o contato entre índios e portugueses é marcado por um choque cultural. Este choque é claramente perceptível no trecho que relata o encontro do Capitão-mor (Cabral) e os indígenas (foco da questão 2). Vestido com pompa e circunstância, Cabral e os portugueses esperam que os indígenas reconheçam nas roupas e na sua atitude sinais de autoridade, o que não acontece: os índios o ignoram solenemente, pois aqueles elementos não têm qualquer significado em sua cultura. Este estranhamento, entretanto, não leva a uma condenação — diferentemente do que vai ocorrer nos textos críticos, como o de Gândavo, que lemos na ficha 1 — , mas sim ao entendimento de que os gentios não têm consciência do erro daquele hábito (daí serem inocentes) e precisam ser caridosamente ensinados — o que leva à sugestão de Caminha de que devem ser catequizados. (uma das respostas para a questão 3 da primeira parte)

Esta importância da religião, na Carta, é um elemento fundamental para compreender o espírito da colonização brasileira. Portugal, na época, é um dos países que vai se posicionar a favor da Igreja Católica contra a Reforma Protestante. A mentalidade católica domina boa parte das escolhas políticas do reino português, o qual, por ser pequeno, necessitava do apoio do Vaticano. O modelo de colonização nas terras brasileiras é um dos melhores exemplos dessa associação. Apoiando a Igreja, Portugal encontrava apoio para expandir seu próprio império e, numa troca de favores, auxiliava também a expansão do poderio católico, levando os missionários jesuítas como agentes de grande importância na relação com os nativos de suas colônias. Esta associação encontra-se registrada em Os lusíadas, a obra-prima da literatura portuguesa no século XVI. No início do poema Camões apresenta qual será o conteúdo de sua obra e afirma que ele irá cantar

[E] também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,

Observe que Camões afirma que um dos seus assuntos é a lembrança dos reis que expandiram (dilataram) a fé e o império nas terras viciosas (não-católicas) da África e da Ásia.

As sugestões de Caminha sobre como a nova terra do rei D. Manuel poderia ser aproveitada, no entanto, não fica apenas no campo religioso. Sem haver a descoberta imediata de ouro, prata e metais preciosos, principais interesses econômicos dos portugueses, além da possibilidade de barganhar mais favores promovendo a catequese indígena, Caminha vislumbra outro aproveitamento para a terra: usá-la para o cultivo (observe a menção à sua fertilidade, que resultou no clichê “em se plantando tudo dá“). (questão 3 respondida, então)

Infelizmente, Caminha não pôde saber se o rei seguiu suas sugestões. A Carta foi o último texto produzido por este espanhol a serviço da corte lusa. O missivista morreu em batalha, na Índia, para onde havia sido designado como escrivão. Ele nunca voltou à Europa, nem teve qualquer noção da importância da relevância do seu texto para a história de Portugal e daquela grandiosa terra, que, vislumbrada apenas da praia não teve a oportunidade real de conhecer.

4 thoughts on “A Carta do Achamento

  1. Bianca, sem querer postei na parte sobre arte, mas eu repito o post aqui:
    Hoje mais cedo, eu a perguntei os capitulos do livro que iam cair na prova, mas ninguem tinha levado o livro de literatura. Será que você podia postar esses capitulos aqui porfavor?
    Obrigado.

  2. Então pode dizer que “As meninas da gare” é uma poródia em relação a “Carta do Achamento”?Porque,Oswaldo mesmo dizendo com outras palavras a mesma coisa de Caminha ele ridiculariza com seu título,dando outra visão das índias.

    • Jéssika,

      É uma paródia sim, mas não há uma ridicularização do texto original, Jéssika. As meninas da gare não são mas as indígenas brasileiras da época inicial da colonização, mas as prostitutas que fazem ponto na estação de trem. Com essa transformação do ambiente (da floresta para a cidade), do tempo (século XVI para o século XX) e da perspectiva sobre a nudez e a sexualidade (para Caminha há inocência, o transeunte que olha prostitutas tem nesta atitude perversão), há uma discordância do texto original.

      Nem sempre a paródia ridiculariza o texto original e nem sempre faz humor com ele. O que demarca esta relação intertextual é sempre a oposição das idéias, da perspectiva sobre o tema.

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