Literatura e escola: conflitos de interesses?

Hoje conversando com duas de minhas florzinhas, ouvi um pedido que me lembrou muito um que eu fiz a uma professora minha, há muito, muito tempo atrás. As meninas pediam “Bianca, por que você não manda a gente ler Crepúsculo?”. Eu pedia para a minha professora, quando eu era uma aluna do nono ano do fundamental (essas nomenclaturas modernas chatas) “Márcia, por que você não manda a gente ler Marcus Rey? Ou Luiz Puntel?”.

Por que será que a escola NUNCA manda a gente ler aquilo de que a gente já gosta? Aquilo que é divertido é inferior literariamente ou é só sadismo, vontade de torturar pobres alunos indefesos com livros e provas como instrumentos de aflição psicológica?

Well, eu tenho as minhas teorias. Talvez vocês gostem de umas, talvez de nenhuma, mas vamos a elas.

Teoria 1 – Livro divertido é inferior literariamente?

Infelizmente, na maioria das vezes é mesmo. O que não significa que só por isso esses livros devam ser esquecidos. Eu mesma não desgrudo de muitos “livros literariamente menores” só porque o valor deles enquanto arte não é o mesmo de um grande clássico. Literatura pode ser divertida sim, e deve ser, na minha humilde opinião. Se ela puder ser divertida & desafiadora, melhor ainda. Um bom exemplo, para mim, são os textos do Luís Fernando Veríssimo, sempre divertidíssimos, alguns bons livros juvenis (Marcus Rey e Luiz Puntel são clássicos para mim) e um que vocês conhecem bem, um livrinho de capa amarela de Torero e Pimenta, sabem?😉

O destaque na palavra bons em relação aos livros juvenis vem da minha implicância natural com o doutrinamento para o comportamento politicamente correto que a literatura infanto-juvenil vem tendo há alguns anos. Não que eu ache que você deva incentivar, através da literatura, comportamentos anti-éticos, claro, evidente que não. Mas é que ultimamente tem muito livro sendo feito APENAS com o pretexto de cultivar os valores, sem o cuidado com a sedução do leitor e sem cuidado com a estética. Ou seja, o valor da obra se perde em nome de um discurso que acaba ficando vazio. E nessa teoria vou ficar por aqui, porque essa é uma discussão daquelas MUITO longas.

Teoria 2: Porque a escola nunca manda os alunos lerem aquilo que eles já gostam?

Minha teoria é a mesma que certas mães usam em casa, quando montam o cardápio cotidiano. Se o cardápio tiver somente aquilo que criança gosta, vai ser recheado de coisas deliciosas: biscoito, sorvete, chocolate, pizza, refrigerante, salgadinhos. Deliciosas, mas que não satisfazem todas as necessidades que o corpo tem para um crescimento forte e saudável. Então, ela libera essas coisas na hora da sobremesa, nos fins de semana, mas baseia a alimentação em outros tipos de comida, tentando com isso suprir toda a variedade de nutrientes que se precisa para ter saúde.

A escolha dos livros pela escola é a mesma coisa. O cardápio da leitura tem que ser variado para que se possa mostrar aos alunos as máximas possibilidades que os livros podem oferecer. Afinal, se a escola não se meter nessa escolha, assim como se a mãe não tomar para si a responsabilidade do cardápio, muito dificilmente se vai sair da sobremesa para aquele prato de sustância, aquela carne com feijão e verduras, a sopa de legumes, o suco de frutas. É claro que isso significa que alguns livros serão como fígado acebolado, ou vitamina de abacate (um trauma de pré-adolescência na minha vida). Mas bem dosados estes elementos, alguns anos depois, quando olhamos para trás, percebemos a importância daquelas iguarias para nós. Mesmo jurando nunca mais voltarmos a elas.😛

Conclusão

Por isso, meninas, que eu não mando vocês lerem Crepúsculo. Porque eu teria que estabelecer como meta para vocês algo que vocês sozinhas já buscam? É preciso dizer para macaco comer banana ou mulher na TPM comer chocolate? Não, né? Então, eu prefiro apresentar a vocês umas iguarias que vocês não conhecem, sabendo que podem gostar, adorar ou achar ruim. Mas é uma iguaria nova. Uma coisa nova que se vê. E lembrando Fernando Pessoa (sempre!) “Eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura“.

Beijinhos!

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