Atendendo a um pedido especial

Olá!

Uma leitora do blog me pediu para fazer uma síntese rápida que a auxiliasse a distinguir as diferenças entre a produção do Pe. Antonio Vieira e a de Gregório de Matos. É o que eu vou tentar fazer suscintamente aqui. Aos meus alunos, como ainda não começamos a estudar os conteúdos ligados ao Barroco, fica o material arquivado para vocês pesquisarem depois.

A primeira diferença entre estes autores está no gênero de produção. Vieira fez textos em prosa e, embora seu estilo tenha muita literariedade, não há neles uma principal intenção de fazer literatura. O que Vieira deseja, por exemplo, em seus sermões, que é o conjunto mais importante de sua obra, é persuadir o seu ouvinte para que ele compreenda suas más ações, arrependa-se e se torne um cristão melhor, reformado. Jás nas cartas e tratados, a intenção informativa e a persuasiva vão se combinando.

Isso não significa que os textos de Vieira não tenham preocupação estética. Logicamente ela está lá, tanto que são textos de referência na literatura brasileira e portuguesa até hoje. Mas no contexto de produção, fazer uma obra de arte não era a intenção principal do Imperador da Língua Portuguesa (como Fernando Pessoa, que divide o status de maior poeta de Portugal com Camões, descreveu-o).

Já Gregório é o poeta, o artista por excelência. Seus textos são poemas tradicionais, ou seja, são textos estruturados em verso. A intenção de produzir arte é sempre um pré-requisito na obra de Gregório, e todas as outras intenções (expressar emoções, criticar a sociedade) estão submissas a esse objetivo artístico. Tanto é que, de acordo com  a linha artística que Gregório usa no texto (clássica ou popular) ele vai se permitir ou não usar termos mais ou menos nobres.

Uma outra diferença principal é a ideologia subjacente aos textos. Vieira, como padre, vai sempre exortar o bom comportamento cristão. Gregório não tem esse compromisso. Os dois abordaram temas relacionados à política de sua época, mas as críticas que fizeram, embora fossem duras nos dois autores, são feitas de forma muito diferente. Vieira precisava seguir a prudência de quem está submisso aos ditames da política e do comportamento da Igreja. Gregório não. Por isso não só ele teve a liberdade de “dar nomes aos bois”, como dizemos, mas também de fazer críticas de cunho muito pessoal e de usar palavrões em seus textos.

Além dessa diferença de atitude, há também uma diferença de temas. Gregório escreveu sobre temas ligados à vida mundana, como o sexo, o amor carnal, o desejo, e do amor que tenta ser espiritualizado e resistir à tentação do corpo. Vieira, no máximo, em uma sequência de sermões sobre o amor, fala do amor espiritual e lembra aos ouvintes que o único amor que é realmente eterno é o divino.

Em resumo, é isso. Espero que seja de boa ajuda.

One thought on “Atendendo a um pedido especial

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s