Quinhentismo – Olhares estrangeiros

Olá, foliões! E não-foliões também, claro!

Eu, aqui, no Carnaval? Claro! Não, não porque eu sou viciada demais em trabalhar. Mas é porque eu adoro carnaval… pra descansar. Juro que apesar de achar uma orquestra de frevo, um caboclo de lança e a batida do maracatu de baque-virado coisas absurdamente emocionantes, até hoje não consegui muito bem processar porque é que ao ver essas coisas nesses quatro dias do ano as pessoas são tomadas por uma crise de euforia súbita. E sim, eu já provei para dizer que não gostei. Mas gosto é gosto, coisa que se discute, mas, principalmente, respeita.

Então deixa eu aproveitar esse tempinho para dar uma atualizada aqui no nosso espaço. O bom é que dá para postar hoje e adiantar uns dois posts na próxima semana. Quem puder vir aqui vai ficar mais que por dentro quando as aulas recomeçarem!

Nesta semana começamos a conversar sobre o Quinhentismo, esse período de produção escrita relativo ao século XVI. Eu, particularmente, tenho uma grande resistência em me referir a ele como um período de produção literária. É que a palavra literária, aqui, tem que ser usada num sentido amplo, como conjunto de obras de uma época (no caso do Quinhentismo brasileiro nem de um país é, já que escreveram muitos estrangeiros de nacionalidades diferentes escreveram sobre nós). Aí, se usarmos a palavra literatura para nos referirmos a ele alguém pode achar que se fala da arte literária. E não é bem isso que aconteceu aqui nos anos quinhentos.

Como vocês perceberam quando leram os excertos dos textos de Pero de Magalhães Gândavo, Pero Vaz de Caminha, Pe. Manuel da Nóbrega e Américo Vespúcio, o principal objetivo da maioria dos textos produzidos nessa época era relatar as viagens ao novo mundo e informar como era a terra e como eram as pessoas encontradas aqui. Não há a preocupação em se conformar, nessas obras, um discurso artístico. Isto não significa, entretanto, que não haja uma preocupação com a linguagem. Só que essa linguagem não tem a intenção de ser artística, mas sim de ser adequada ao relato oficial para um rei ou superior (a maior parte dos textos tinham como destinatário as autoridades da época e muitos deles eram sigilosos, para que não se revelassem as riquezas que poderiam ser cobiçadas pelas nações rivais).

Assumidas então como obras informativas, então, é preciso julgar delas mais o seu conteúdo do que sua expressividade – embora alguns textos tenham um estilo muito peculiar e mereçam receber atenção pelo mérito pessoal de seus autores. E nesse campo do conteúdo, vale salientar dois elementos: o ponto de vista e a verossimilhança.

Produzidos numa perspectiva cultural eurocêntrica, a literatura de informação – os tratados, as cartas, os documentos escritos no Brasil durante o século XVI – pode ser simpática ao Brasil ou assinalar uma profunda crítica ao que se encontrava aqui. A quem se encontrava aqui, para ser mais precisa. A beleza e o exotismo de nossos bens naturais era um consenso entre os cronistas da época. Todos mencionavam a extensão das matas, a diversidade de espécimes animais e vegetais que aqui existiam, os sabores das frutas típicas, o clima – elementos que faziam do lugar um paraíso terreal, quase o Jardim do Éden (daí se falar em um ponto de vista edênico sobre o Brasil). Entretanto, no quesito gente, os textos acabaram sendo mais polêmicos.

Enquanto Portugal não tinha grandes interesses econômicos no Brasil, o que se deu até meados de 1535, os índios e sua cultura foram freqüentemente apresentados como uma população exótica, diferente, mas, ao mesmo tempo, de boa índole, inocente e bela. O costume de andarem nus, repetidamente mencionado nos textos da época, não foi julgado negativamente nos primeiros contatos. O próprio Caminha, na Carta do Achamento, afirma que há nessa atitude dos gentios uma profunda inocência, pois eles mostravam o corpo como quem mostra o rosto.

Aliás, encontrar povos que tinham na nudez uma prática cultural comum, sem qualquer inferência erótica, não foi uma novidade para os portugueses, que já havia muito tempo se relacionavam com as mais diversas etnias africanas – e já exploravam desde esse muito o tráfico de escravos. Embora ainda fosse motivo de estranheza, não era exatamente novidade para os lusos a existência de povos que andavam nus. O que assinalava para eles, naquele momento, é que esses povos – os africanos e os silvícolas – eram atrasados e, portanto, inferiores. Como não havia conflitos de interesses entre índios e portugueses, esse caráter “inferior” ficou implícito e não recebeu maiores considerações.

Quanto, porém, os portugueses passaram a ter profundos interesses econômicos no Brasil e a investir em sua colonização (caso o contrário a França – que não reconhecia a legitimidade do Tratado de Tordesilhas – tomaria o território e suas riquezas), a relação com os indígenas mudou – e o que se escreveu sobre eles também. Povos que mantiveram alianças com os portugueses por quase meio século foram traídos e passaram a ser escravizados. Outros, que já tinham alianças com outros povos europeus (os franceses, principalmente) reforçaram seus combates aos colonizadores. Sem igualdade de condições contra as armas de fogo dos exércitos lusos, os índios foram decaindo, mortos em combate ou em virtude das doenças trazidas pelo homem branco (contra as quais não tinham anticorpos) e da fome (com a perda de homens para a escravidão e com outros tantos direcionados para a guerra, as lavouras iam perdendo seus cultivadores).

Mudando-se a relação com os indígenas, de cooperativa para de rivalidade, a imagem que ele tinha nos escritos também mudou. A organização social, os hábitos, a cultura foram duramente criticados e o índio gentil, inocente e prestativo se tornou violento, libertino e preguiçoso. A suposta ausência de religião e a antropofagia se tornaram os clichês mais constantes na construção de uma imagem de criatura perigosa, que deveria ser “civilizada” – pelo bem ou pela força.

Neste processo de tornar o índio civilizado foi particularmente importante a ação dos padres jesuítas – membros da Companhia de Jesus, ordem missionário responsável pela catequização dos povos encontradas na África e na América do Sul. Entre os muito recursos que eles utilizaram um, muito importante, foi a chamada literatura de catequese. Mas isso são cenas dos próximos capítulos.

Por hoje, fiquem com Deus, aproveitem os quatro dias para pular ou descansar. E juízo, ouviram? Beijinhos e sejam felizes!

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8 thoughts on “Quinhentismo – Olhares estrangeiros

  1. Eu acho que nas cartas eles procuravam mostrar os seus intereses, principalmente na parte economica. eles viram no indios uma forma de escravidão e serventia barata. Hoje quando lemos esses relatos entendemos melhor as questoes e os pontos de vista da epoca. quem sabe as futuras gerações façam o mesmo com as nossas cronicas?
    ;*

  2. The,

    Existia também um profundo desejo de dominar os índios ideologicamente, no campo religioso. Como Portugal era e é um país muito pequeno, no momento de sua formação, a aliança com o a Igreja Católica e o apoio do papa foram fundamentais. Para conseguir esta relação, Portugal investiu contra o domínio mulçumano na África. Daí que Camões, em Os Lusíadas (luso significa português), diz que vai relatar os feitos dos grandes reis de Portugal que “foram dilatando / A Fé, o Império, e as terras viciosas / De África e de Ásia andaram devastando”.
    Daí que neste primeiro século de produção escrita aqui, além de se falar muito do que se pode explorar no Brasil (ou seja, como Portugal pode enriquecer aqui), se vai falar muito de como se converter o índio e como estava sendo o processo de conversão.

    E quanto às futuras gerações e as crônicas de vocês… que tal tomar o leme dessa história? Que histórias você gostaria que as futuras gerações lessem sobre esses tempos? Você tem um blog todinho para isso, porque não começou ainda menina? 🙂

  3. Abelardo,

    Eu adorei a tua idéia e mandei o link que você me passou para Wellington. Uma das idéias é a gente montar um concurso de layouts mais pra frente no semestre. 🙂

  4. Nossa me senti desafiada, HAHA.
    Postei sobre isso hoje. Acho que escrever sobre o Brasil, aquilo que eu penso, sonho, acredito sobre o nosso país pode da certo sim. Valeu pela dica ;*

  5. Thê,

    Desafio bom, eu espero!! :))

    Você postou em blog pessoal? Posso olhar? 😛 Aliás, vou olhar mesmo antes de vc dizer que pode! Blog é público mesmo! 🙂

    Mas só acompanho se você convidar, prometo! 🙂

    Beijinhos!

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