Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura…

Post que tem como título versos de Alberto Caeiro, um dos alter-egos poéticos do fantástico poeta português Fernando Pessoa… Se preparem, que hoje eu estou inspirada. E não poderia ser diferente. “Para que serve arte, para que serve literatura?” são duas das três perguntinhas que me fazem ter mais ataques de empolgação por segundo quadrado. É segundo quadrado mesmo… Nessas horas, o tempo fica com duas, três, quatro, cinco, mil dimensões diferentes.

A gente pode pensar em mil razões práticas/utilitárias para a existência da arte e para se estudar arte. Podemos dizer que a arte é importante porque é um meio de expressarmos emoções e sentimentos, porque ela é um bem que registra um período cultural no tempo, porque ela é capaz de entreter e dar prazer… Isso só para começar. Para os mais céticos a gente pode dizer que o mercado de trabalho exige cada vez mais um profissional múltiplo, capaz de compreender o mundo a sua volta e por isso é preciso investir numa formação ampla (e repetir aquilo de que vai cair no vestibular).

Ok, são boas respostas. Mas, pra mim, elas limitam tanto a importância da arte e da literatura na nossa vida e na nossa formação! Por quê? Justamente porque são coisas práticas e utilitárias e, embora ser prático seja importante em determinados setores da nossa existência, ser APENAS isso é tão limitador…

Para mim, perguntar “para que serve arte e literatura?” é fazer um questionamento muito próximo, muito parecido com outro, fundamental. “Para quê serve a vida que a gente leva?“.

É claro que podemos responder isso de forma objetiva/científica/prática e até religiosa. Mas é tão limitador, não é mesmo? A vida nos foi dada… e o que vamos fazer com ela? Ser práticos e objetivos? Ser APENAS isso?

Justamente porque a arte tem tanto a ver com a emoção e os significados que o ser humano atribui ao seu redor, o que a gente faz com ela e o que fazemos com as nossas vidas são coisas tão próximas. Podemos, por exemplo, pensar que a nossa vida serve (ou deve servir) para que aproveitemos ao máximo os prazeres que o nosso tempo sobre a terra pode nos dar. Ou ainda que deve servir para que participemos de um processo social que constrói riquezas e que nossa vida serve como um ponte entre o que se acumulou de riquezas (na família ou na sociedade em geral) no passado e o que se acumulará no futuro. Podemos, ainda, pensar que a nossa vida é uma coisa tão frágil e insignificante (já que a Terra não parou de girar sobre o próprio eixo quando começamos a existir, nem parará quando deixarmos de existir aqui) que ela não tem significado, não tem “para quê” – e com isso qualquer ação nossa fica sem sentido.

A vida pode ser tudo isso, e a arte vai ter serventia para cada jeito de se perceber o que a vida deve ser. Mas na minha humilde, humilíssima opinião, todas essas respostas acima estão tão limitadas… Eu, particularmente, acho que a vida pode ter cada uma dessas coisas em si: viver envolve usufruir com prazer o que nosso tempo aqui nos oferece, envolve pensarmos em construir um mundo melhor (e nisso riqueza não é apenas uma conquista material por si só) e sim, o mundo não vai parar por nós: por isso temos que ser humildes em reconhecer nossas limitações.

O detalhe é que só se focar nisso nos dá uma idéia tão limitada do que é a vida. É como olhar para um cubo é só enxergar um de seus lados. E por isso, numa postura tão arrogante, que é decretar o que é a vida, quanto humilde, que é reconhecer que essa é uma resposta pessoa e intransferível, eu atrevidamente postulo aqui: a gente está aqui para viver em todas as dimensões que essa vida que a gente pode levar nos oferece. Estamos aqui para, de olhos fechados, sentir o mundo, em suas contradições, seus milagres, suas mazelas, o sol e a chuva açoitando a nossa pele e o vento uivando nos cabelos. Estamos aqui para perceber. Perceber e aprender. Para não passar em branco, apenas vendo a grama ou os dígitos da conta bancária, crescerem.

E é por isso que eu defendo que arte e literatura são coisas muito mais imprescindíveis, às vezes, do que o conhecimento científico.

Pronto, agora deu! A ciência pode salvar vidas. Uma pessoa doente vai dar importância para livros, pinturas ou para médicos que podem curá-la?

Eu não disse que a ciência não é importante. Sim, ela pode salvar vidas, pode tornar nossas vidas mais confortáveis também. Esse papel dela é inegável e eu não disse que podemos prescindir de sua existência em nossas vidas. Nem disse que a arte pode substituir a ciência. O que eu afirmei é que existe um papel que a ciência não cumpre, o papel da arte na nossa existência, e que pode sim, às vezes, ser mais necessário para nós do que a cura do corpo ou os benefícios da comunicação por satélite e do transporte mais rápido e mais barato.

Salvar vidas é importante. Mas tão importante, ou mais que isso, é dar sentido a elas. Sentido profundo, pleno. É dar ao homem uma capacidade de se enxergar, e de enxergar o que o cerca, maior e melhor. É limpar os nossos sentidos do comodismo cotidiano e enxergar o mundo sem a inércia que é o costume. Qual foi a última vez que você se permitiu observar as pessoas que te rodeiam e conhecê-las, o que pensam, o que sentem, suas histórias de vida? Quais foram os últimos encontros significativos, desses de alma para alma, dessas conversas que mudam os rumos de uma vida inteira para sempre?

Não é fácil fazer isso no dia a dia. A gente vai para o trabalho, para a escola, entra nos ônibus, paga as contas, presta provas, vai respirando um dia após o outro e esses momentos vão se minguando. E então, de repente, do nada, uma fotografia, uma música, um filme, uma peça, um poema, um livro entram na nossa vida e nós conhecemos o seu universo e as pessoas que os compõem mais profundamente do que o irmão que bagunça o hd do nosso computador. E conseguimos isso, principalmente, quando lemos. Ali entramos profundamente no que pensam e no que sentem Aurélia, Bella, Sargento Garcia, Sherlock, Peri, a mulher do médico, Fabiano, a cachorra Baleia. Eles nos emocionam. Eles nos tocam. Entram na nossa vida, e com raiva, com asco, com carinho, sua trajetória fica impregnada em nós.

Não sou eu que estou inventando essa relação. Aristóteles, o filósofo grego, falou disso há uns mil e muitos anos atrás. Ele chamou a isso de catarse: a projeção e a expiação de nossos sentimentos através de uma obra de arte. A catarse é aquele alívio que Link (e nós, junto com ele) sente no fim da sequência em que Neo vai voando (literalmente) salvar Trinity em Matrix Reloaded. É a catarse que faz com que a gente se contorça, nos filmes de terror, quando sabe que a mocinha tinha que fugir pela porta da frente e não subir pelas escadas. É ela que faz com que a gente chame Aurélia Camargo de burra cada vez que ela pisa em Fernando Seixas – e o chame de três vezes burro porque só ele não percebe que ela faz tudo aquilo porque o ama profundamente e quer ter certeza de que é correspondida. A catarse é esse chorar junto com o personagem, essa profunda identificação com o que há de humano nele e que nos faz sair da obra cansados, mas renovados, mais leves, prontos para enfrentar, de novo, o dia a dia, as contas, as provas e o dizer “bom dia”, “boa tarde” a pessoas que não conhecemos.

Para que serve a arte? Para sermos maiores. É o que o Pessoa, na voz de Alberto Caeiro, nos disse. Nós somos do tamanho do que conseguimos enxergar. E a arte, a literatura, nos retira dessa cegueira do cotidiano, nos lembra como é estar vivos, e sentir, e sonhar, e amar.

Para quê serve viver? Para sentir o mundo, profundamente, e enxergá-lo com vastidão. Senão, a nossa vida, torna-se o que chamamos, metaforicamente, de uma página em branco.
Para que serve arte e literatura? Para nos fazer sentir o mundo, profundamente, e enxergá-lo com vastidão. Para que não fiquemos mecanizados, autômatos e inumanos, esperando da vida apenas aquilo que é causa e consequência, razão, linearidade. Para nos lembrar do que é ser humano.

Nós somos do tamanho do que vemos, e não do tamanho da nossa altura. O mundo de cada um de nós é do tamanho daquilo que conseguimos enxergar. Do que conseguimos ler. Por isso que Monteiro Lobato afirmou, muito claramente: “Os livros não mudam o mundo. Os livros mudam as pessoas. As pessoas é que mudam o mundo“.

Eu avisei que ia me empolgar, não avisei? Avisei sim. E quanto às multidimensões do tempo: você acabou de viver uma delas. Você me leu. O tempo meu, de agora, quando escrevi, é tempo passado seu. Mas é tempo presente, ao mesmo tempo. Nosso tempo se elevou, agora, em dois. O meu e o seu. O texto é a primeira máquina do tempo inventada pelo homem. E a única que oferece viagens sem riscos.

O post já está grande e a minha adrenalina baixou. Espero ter conseguido escrever com a clareza que eu gostaria que esse texto tivesse/tenha. Se não consegui, conheço alguém mais competente do que eu para dizer, em outras palavras, o que eu tentei aqui. É o escritor brasileiro Otto Lara Resende, em sua crônica Vista cansada. Fiquem com ele!

Um beijo no coração, com muito carinho.

E não esqueçam: vejam.

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

One thought on “Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura…

  1. Eu acho que como Miguel Falabela diz em uma de suas cronicas, “deveriam existir emergencias poeticas” e acho que a ideia que o post passou pelo menos pra mim foi essa. Eu sou a favor de um mundo mais “literarizado” acho que os livros podem sim ajudar a mudar as pessoas e quem sabe ate o mundo.
    ;*

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