Barroco – A arte da dúvida

Hello, povo!

No post anterior, já comentamos um pouquinho sobre o espírito de época preencheu as artes e o pensamento humano no século XVII. Hoje vamos começar a discutir um pouco mais como esse espírito de época se expressa, concretamente, na Literatura. Para isso, vamos observar os textos que deixei com vocês.

Ao entrar para o colégio dos jesuítas, Gregório de Matos já se interessava pelas mulheres. Desde menino gostava de olhar nos livros imagens femininas: santas, rainhas desenhadas com benevolência e que sempre pareciam mais belas do que deviam ser, altivas condessas, duquesas, princesas e até mesmo bruxas condenadas pelo Santo Ofício. Na rua o menino ficava extasiado com as mulheres de carne e osso, com seus rostos e suas formas, alvas como jasmins, vermelhas, azeitonadas ou escuras como a lascívia. As meninas eram lindas, as índias nuas pareciam-lhe deusas pagãs, as escravas lhe sugeriam estátuas de ferro pronto a incandescer. Sua irmã, um demoniozinho falante, tinha um mistério que Gregório de Matos observava com fervor quase religioso. Sentia-se atraído por todas as mulheres. Encantava-se com qualquer gesto, qualquer rufar de saias, detalhes mínimos. Mesmo as feias tinham para ele um encanto qualquer: uma orelha bem-feita, um par de tornozelos sólidos, unhas saudáveis, cabelos abundantes, uma boa estrutura óssea, batatas das pernas grossas, nádegas redondas e fartas, um ar sonhador, timidez, brilho de inteligência ou um nariz que lembrasse uma jovem dinastia lágida. Como ele gostava de dizer: “São feias, mas são mulheres”.

“Ah, tu és o demônio”, disse Anica de Melo.

“Não, não, somos bastante diferentes. Demônios sois vós, mulheres.”

Disse que lera nos livros serem as mulheres diabos disfarçados, circes encantadoras, tentações infernais, peçonhentas no coração e na boca, copuladoras vorazes; que possuir a parte traseira de uma mulher era o mesmo que fazer pacto com o diabo; as que tinham um rosto de anjo e maior donaire eram as mais perigosas. O corpo de uma mulher despertava-lhe sentimentos penosos e demorados, algo como uma queda, um desar, uma febre malignas, um delírio destruidor. Elas traziam dentro do corpo vermes que devoravam os homens; algumas possuíam uma boca entre as pernas, com dentes e tudo; elas desgraçavam, arruinavam, sufocavam, escravizavam com feitiços, eram más e interesseiras, por elas se faziam as guerras. Falavam apenas tolices cansativas, só se preocupavam com brincos, vestidos e os atavios da sedução. Traíam e levavam a alma do homem ao inferno. Mas nada havia de tão doce quanto essa tirania.

(Ana Miranda. Boca do Inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. pp. 75 – 76. Companhia de Bolso)


Esse primeiro texto, trecho do excelente romance de Ana Miranda sobre a conspiração que resultou no assassinato do alcaide Teles e na tentativa de assassinato do governador Antônio de Souza Meneses, o Braço de Prata, demonstra claramente que o fervor religioso da época procurava, a todo custo, incutir no ser humano a noção de pecado naquilo que vai dar prazer mundano, especialmente o sexo. A educação, tarefa reservada à Igreja Católica aqui na Colônia (o governo português só se preocupou com isso quando a família real se transferiu para cá no início do século XIX), foi uma das armas para se propagar essa idéia. E como ela era reservada quase que unicamente aos homens e visava à formação do religioso (Gregório de Matos não chegou a se tornar padre de fato, mas era clérigo, tesoureiro da Igreja), nada mais eficiente do que associar à mulher, objeto de desejo, a noção de perigo, de perdição. E o perigo máximo, para o homem daquela época, é o do inferno. A mulher, é, então, na época, um ser demoníaco, porque ela desperta no homem o desejo sexual e se ele sucumbir a esse desejo, cometerá pecado e acabará passando sua eternidade no inferno. Daí a metáfora “Demônios sois vós, mulheres”: assim como o demônio tenta o homem e o leva a perder sua alma, a mulher, por sua própria constituição feminina, é uma tentação que deve ser rejeitada.

Essa imagem foi recriada de forma mais sutil por Gregório de Matos em um de seus poemas amorosos e foi provavelmente ela que inspirou a imaginação de Ana Miranda para criar o diálogo entre ele e uma suposta amante (fictícia? real? quem pode saber?!), a prostituta Anica de Melo. Observe os versos que ele dedicou a Ângela de Souza Paredes.

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda

Quanto ao uso da antítese e do paradoxo, preste bastante atenção. Essas duas figuras de linguagem trabalham com o mesmo princípio: a oposição de idéias. A diferença é que em uma as idéias compõem uma realidade exterior e que não gera incoerência, contradição. Os opostos estão em seres diferentes, ou pelo menos existem em momentos diferentes. Dia e noite, por exemplo, são opostos, mas que não coexistem ao mesmo tempo; são antíteses.

Já no paradoxo, os opostos convivem no mesmo ser, ao mesmo tempo. Em um eclipse total do sol, o dia e a noite se misturam. No momento do amanhecer (aurora, alvorecer) e do anoitecer (crepúsculo) também essas duas realidades coexistem. Há, nessas fases de transição a convivência dos opostos no mesmo ser (tempo) no mesmo instante: é um paradoxo.

O paradoxo cria realidades que são absolutamentes ilógicas do ponto de vista racional. Como você pode explicar num raciocínio lógico-matemático o amor que Camões paradoxalmente ilustra em “Amor é fogo que arde sem se ver /É ferida que dói e não se sente /É um contentamento descontente /É dor que desatina sem doer”?

Do mesmo jeito, como podemos explicar uma “tirania doce”, como Gregório de Matos conceituou o poder que as mulheres exercem sobre os homens no fim do trecho de Ana Miranda? A palavra tirania e seu conceito têm forte carga de negatividade. Tirania é algo que rejeitamos, de que queremos nos afastar. Contraditoriamente, esta tirania feminina é doce: ela é atraente, prazerosa.

O paradoxo nesse texto é bem fácil de encontrar. A antítese, por sua vez, nem tanto. É que ela se encontra espalhada de forma mais sutil, na caracterização das personagens para quem Gregório de Matos dirigia sua atenção. Note que ele admirava santas, rainhas, condessas, duquesas, princesas e bruxas. Esse último tipo de mulher se opõe, claramente, ao primeiro, durante o período da Contra-Reforma: santas = mulheres religiosas, que seguem os mandamentos divinos; bruxas = feiticeiras más, que são dominadas pelo demônio.

Vamos ao segundo texto, o poema de Gregório de Matos

Ao Santíssimo Sacramento Estando para Comungar

Tremendo chego, meu Deus,
Ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.
À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude,
e veneno da maldade?
Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.
Como não hei de ter medo
de um pão, que tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?
Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me:
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?
Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?
Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa idéia inescrutável.
Eu confuso neste caso
entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.
Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!
E pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus próprios manjares:
Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.
Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.
Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável.

Uma dica para a compreensão de qualquer texto Barroco é observar se ele apresenta a indicação do tema no espaço que costuma ser reservado ao título. Digo indicação do tema porque Gregório de Matos e muitos autores da época não davam títulos aos seus poemas. O que temos, no lugar do título, é a indicação do tema, feita pelos copistas, para auxiliar a vida do leitor.

No caso deste texto, produzido segundo uma estética medieval (observe que a métrica, por exemplo, é a redondilha maior – 7 sílabas poéticas), a indicação é de que o poeta faz suas reflexões sobre o santíssimo sacramento, no momento em que vai comungar. Para os católicos (o Barroco é a arte da Contra-Reforma por excelecência), a comunhão é um sacramento, ou seja, um rito sagrado (observe, então, que no título há um pleonasmo, uma redundância, para dar intensidade, hipérbole à idéia de sagrado), pois é o momento em que são reafirmados os laços entre fiel e Deus.

A comunhão católica se marca pelo recebimento da hóstia consagrada, uma reprodução do que seria o “comer o corpo” de Cristo, numa reprodução da Santa Ceia. Além disso, há também a ingestão de vinho, símbolo do sangue derramado para a Aliança renovada entre Deus e os homens. Estes elementos, pão e vinho (na forma de sangue) em uma ceia são apresentados no corpo do poema, em versos como “À vossa mesa divina / como poderei chegar-me, / se é triaga da virtude, / e veneno da maldade?“, “Como comerei de um pão, / que me dais, porque me salve?” “Quanto a que o sangue vos beba, / isso não, e perdoai-me: / como quem tanto vos ama, / há de beber-vos o sangue? / Beber o sangue do amigo / é sinal de inimizade; / pois como quereis, que o beba, / para confirmarmos pazes?

Veja que nestes versos, existe a referência clara à aproximação de uma mesa (o altar) em que será servido pão que garante a salvação, sangue que confirma as pazes com alguém. Pão e vinho, corpo e sangue de Cristo são ofertados para salvar o homem, através da confirmação de sua relação com Deus.

Estes mesmo versos, ainda, ilustram a dimensão da relação entre o homem barroco e Deus. Observe que o ato de aliança através da comunhão foi questionado pelo poeta, que teme ser punido e não salvo ao buscar a aliança com Deus. O homem é um pecador que anseia pela salvação, enquanto Deus é aquele que tem o poder para salvá-lo. Temente à capacidade de Deus em salvar o homem do pecado ou condená-lo ao inferno, o homem tenta compreendê-lo racionalmente, no que falha (“Senhor, eu não vos entendo; / vossos preceitos são graves, / vossos juízos são fundos, / vossa idéia inescrutável. / Eu confuso neste caso / entre tais perplexidades / de salvar-me, ou de perder-me, /só sei, que importa salvar-me.“). E falha justamente por esta sensação permanente no período Barroco da impotência do homem diante de algo muito maior que ele, algo que faz cair por terra a vaidade antropocêntrica e lembra ao homem que há coisas que estão além de sua capacidade.

Quantos aos recursos estéticos deste texto de raiz medieval, além da redondilha, observe também o uso dos versos brancos alternados aos versos que rimam. Estas rimas, por sinal, são rimas imperfeitas. Você pode encontrar mais informações sobre as classificações dos tipos de rima na internet na Wikipédia e em outros sites. A postagem da Wikipédia, por sinal, está muito completa.

Para terminarmos, fiquemos com uma revisitação da forma Barroca de encarar o amor nas palavras de Lulu Santos e Nelson Mota.

Certas coisas

Não existiria som se não
Houvesse o silêncio
Não haveria luz se não
Fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim

Cada voz que canta o amor
Não diz
Tudo o que quer dizer
Tudo o que cala
Fala mais
Alto ao coração.
Silenciosamente
Eu te falo com paixão

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncio e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som

Tem certas coisas que eu não sei dizer

Falar silenciosamente? A vida é dia e noite, não e sim? Somos medo e desejo, silêncio e som? Olha os paradoxos do texto! Todos usados para expressar uma idéia lógica diante da sua ilogicidade: o eu-lírico ama tão profundamente que não consegue expressar este amor. Não consegue porque, no século XXI, quando ouvimos a música hoje, sabemos que se declarar é se expor, é se arriscar a levar um fora, a se machucar num relacionamento amoroso. No período Barroco a coisa era mais complexa. Além destes medos, ainda há o medo do pecado em si (e esse desejo do verso seria entendido como um desejo sexual).

Observe que este texto busca exprimir um raciocínio lógico, que parte de premissas para chegar a uma conclusão. Isso é uma forma de silogismo, esquema de raciocínio muito usado pelos filósofos gregos (eles de novo). No silogismo são apresentadas duas premissas (sentenças consideradas verdadeiras) que possuem algo em comum para delas se fazer uma conclusão por associação. Observe:

Premissa 1 -> Todo ser humano é mortal.Premissa 2 -> Demervaldo é um ser humano.

Conclusão -> Demervaldo é mortal.


No texto

Premissa 1 -> Não existiria som se não houvesse o silêncio
Cada voz que canta o amor não diz tudo que quer dizerPremissa 2 -> Não haveria luz se não fosse a escuridão
Tudo que cala fala mais alto ao coração

Conclusão -> A vida é dia e noite, não e sim
Silenciosamente eu te falo com paixão

É claro que isso é feito em linguagem metaforizada e por isso as conclusões não parecem tão óbvias quanto num texto objetivo. Além disso, no caso do silogismo comum, há um raciocínio dedutivo (parte-se de algo generalizado para se aplicar a um exemplo específico) e no caso do texto houve o raciocínio indutivo (os exemplos conduzem um pensamento generalizado). Mas a essência é a mesma. Se é verdade que só temos o conceito de luz e de som porque temos o conceito oposto, todas as coisas que conhecemos (a vida) são formadas pela relação de oposição (dia e noite, não e sim). E se tudo é formado por contradição, não é de se espantar que quem ame silencie sobre esse amor, guarde coisas só para si. Afinal o que é mais importante (o que fala mais alto ao coração) é o que guardamos com mais carinho, não é? Então, se tudo é contraditório, quem ama profundamente, reprime profundamente a expressão desse amor. E isso justifica o comportamento do eu lírico: ele ama calado, neoplatonicamente.

Não lembra o que é amor neoplatônico? Vai ter que ficar para outro post, porque esse já passou dos limites! Mas eu juro que retomo isso quando formos estudar a lírica amorosa de Gregório de Matos.

Por hoje já deu! Beijos!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s