Anchieta – Literatura como instrumento para a salvação

Olá, pedacinhos,

Vamos aproveitar o dia de chuva para revisar para a prova vindoura com a literatura de Anchieta? Quem sabe o debate sobre se o que Anchieta escreve é ou não é literatura não aquece um pouquinho essa segunda-feira?

O Padre Anchieta nasceu em Tenerife, nas Canárias, ilha no Atlântico onde predominava o idioma espanhol. Depois seguiu para Portugal, onde se formou na ordem dos jesuítas, e de lá veio para o Brasil, com a missão de converter e “civilizar” o território brasileiro, e zelar pelas almas dos católicos que para cá vinham em missão de exploração e domínio. Em sua missão auxiliou a fundação de São Paulo, estudou a língua dos índios e, principalmente, escreveu muito para moralizar o comportamento dos católicos já convertidos e, principalmente, para moralizar, segundo a ótica contra-reformista cristã, o comportamento dos índios.

É por isso que, embora para isso Anchieta use os gêneros literários lírico e dramático (de textos narrativos feitos para serem representados por atores), o que Anchieta faz não é literatura proprimente dita. Sua principal intenção é agir sobre o receptor da sua obra, provocar nele um efeito de arrependimento e de mudança de conduta. Portanto, a função de seus textos é apelativa, conativa, embora a preocupação estética exista.

E que preocupação estética é essa? O que significa preocupação estética?

Estética é a ciência (no sentido de conhecimento teórico) do belo. Preocupar-se com a estética é preocupar-se com a beleza – de um texto literário, no caso. Ao escrever a literatura de catequese, seja a obra um auto (gênero dramático) ou poemas, hinos e canções religiosas (gênero lírico), Anchienta, por exemplo, usa versos de metrificação medieval, ou seja, as redondilhas.

Eu explico o que é metrificação – não precisa se assustar!

Métrica é a extensão, o comprimento de um verso. Ela é medida pela quantidade de sílabas que um verso tem. Essas sílabas são contadas de uma forma especial, chamada escansão. E não, você não precisa saber como fazer isso na prova. Basta saber que ela existe e que Anchieta usa o modelo de comprimento (métrica) típico da Idade Média, que é a redondilha (versos de 5, 6 ou 7 sílabas).

O teatro de Anchieta é, então, feito em versos? Sim, pois era uma forma de auxiliar a memorização do texto (a maior parte das pessoas, na época, não sabia ler – os atores decoravam o texto ouvindo o autor). E a preocupação de Anchieta de tornar tudo claro e fácil para o seu público é tão grande que ele escrevia suas peças em até três línguas diferentes, as mais faladas no Brasil daquela época: espanhol, tupi e português.

Observe, então, que os recursos de que Anchieta lança mão não apenas são recursos estéticos, mas também formas de agir sobre o seu interlocutor (o que demonstra mais uma vez a intenção persuasiva dos seus textos). A língua usada, a metrificação dos versos, as rubricas do texto, o maniqueísmo dos personagens, tudo corrobora para que os índios (público-alvo principal) se convençam de que devem abandonar seus hábitos – considerados pecaminosos – e passar a agir como os brancos.

Rubrica? Maniqueísmo?

Um texto dramático (feito para ser representado) se estrutura através de dois elementos: os diálogos dos personagens e as rubricas. Essas rubricas são as indicações do autor da peça a respeito de uma série de coisas que precisam ser feitas para que os diálogos pareçam ser verdadeiros: que ações devem ser feitas pelos atores, como eles devem se vestir, que emoções devem ser dadas a cada fala, que luz ou música deve ser tocada ou cantada para se conseguir emocionar a platéia… A rubrica não é dirigida apenas aos atores, mas a todos envolvidos na encenação e ela vem destaca no texto, geralmente em itálico ou em itálico e entre parênteses.

Maniqueísmo é a polarização completa entre bem e mal. Como Anchieta escreve autos, peças de cunho medieval que tentam moralizar o comportamento dos fiéis, reproduzindo uma mentalidade medieval, contra-reformista (e não Renascentista ou Classicista, como era a arte do período), para ele o mundo é estruturado de forma bem simples: de um lado está o Bem, do outro o Mal, e eles disputam a alma humana. Do lado do Bem está Deus, os anjos, os santos católicos. Do lado do mal os demônios e todos aqueles que agirem de forma contrária à lei de Deus e aos costumes cristãos.

Nas peças de Anchieta, isso se realizava, na estória dos autos, da seguinte forma: de um lado estavam os padres católicos, anjos, santos e seres alegóricos (metáforas), como o Amor de Deus e o Temor de Deus, lutando para salvar os índios. Do outro estavam criaturas demoníacas, os pajés e os índios que cediam aos “vícios”, como beber cauim, comer carne humana, ceder ao desejo sexual fora do casamento monogâmico (com uma única pessoa). Esses seres demoníacos tentam impedir que os índios sigam a lei de Deus, conduzindo-os, portanto, ao inferno.

Observe que no Auto da Festa de São Lourenço, no trecho lido em sala, ressalta-se muito o hábito de beber cauim como algo que dá prazer aos demônios. É uma forma de Anchieta tentar convencer os índios de que essa atitude deve ser abandonada e ilustra um conflito que na época não se restringe à literatura: o conflito entre a moral cristã portuguesa e a cultura indígena. Uma, repressora, tende a conter os prazeres mundanos em nome da salvação da alma; a outra vivencia o prazer imediato, sem atribuir a essas atitudes uma conotação positiva ou negativa.

Em tempo: Anchieta não escreveu apenas peças de teatro. Além dos outros gêneros explorados para fazer a literatura de catequese, ele também escreveu literatura de informação, como, por exemplo, a primeira gramática descritiva do tupi, que ensinava os europeus a língua mais falada na costa brasileira.

Por hoje é isso. Boa prova!

9 thoughts on “Anchieta – Literatura como instrumento para a salvação

  1. bianca, tem problema estudar pelos textos que voocê colocou no blog nos anos anteriores e que têm relação com o assunto dessa prova?

  2. Anônimo,

    De jeito nenhum!!

    Use e abuse disso aqui!!!

    Em breve, revisão de funções da linguagem e de gêneros literários.

    E ainda: da sátira de Gregório e a de Gonzaga!

  3. Anônimo

    Criatura! Meta a cara nos livros hoje!
    Lá vai: Quinhentismo, Funções da Linguagem, Gêneros Literários, Sátira do Barroco e Sátira do Arcadismo.

    Boa sorte!

  4. Bianca, fora dois slides que tu colocasse de revisao (um das funções de linguagem, o outro relacionando o quinhentismo com o barroco), tem mais algum outro que possa ajudar pra prova? Ou so estudar pelaas fichas já tá bom?
    obrigada (1º ano C, Marista São Luís)

  5. Bianca, fora dois slides que tu colocasse de revisao (um das funções de linguagem, o outro relacionando o quinhentismo com o barroco), tem mais algum outro que possa ajudar pra prova? Ou so estudar pelaas fichas já tá bom?
    obrigada (1º ano C, Marista São Luís)

  6. Laís,

    Que eu me lembre, no total só vimos três slides de conteúdo: os que você citou e o que compara as pituras classicistas e barrocas.
    Estude pelo(s) livro(s) também!

  7. Professora, voce sabe se existem algumas questões ou um bom site de perguntas para que eu possa treinar para a prova depois de estudar?

  8. Anônimo,

    Você já tentou a seção de vestibular do UOL? O portal oferece a opção de se montar simulados. Se não atender às suas expectativas, procure baixar as provas de vestibular e os gabaritos das provas dos últimos anos. Ajuda bastante!

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