A lírica de Camões

Hello, gafanhotos!

Animados com a Festa do Folclore? É para ficar mesmo, é uma festa muito linda. Só lembrem que durante a aula tá rolando assunto novo, que vai cair na prova. E que, por sinal, as provas começam dia 17… É, depois do Recife Indoor!
Tá ruim? É coisa demais para fazer? Relaxa, que depois piora! Esperem o terceiro ano!

Passado o meu discurso irônico básico, que é para Yuri não sentir falta, vamos ao que interessa: a revisão da lírica classicista de Camões.

Como já vimos um pouco de Gregório em sala, posso adiantar algo que deve ajudar vocês a entender melhor Camões. Ele e Gregório de Matos, nosso poeta barroco, têm alguns traços em comum: ambos na lírica amorosa confrontam o amor-neoplatônico e o amor sensual, os dois produziram textos de ordem filosófica e ambos fazem uso da antítese e do paradoxo. E nisso aí as coincidências param, não só devido ao estilo individual desses artistas, mas também ao estilo da época em que viveram, que se projeta nas suas obras.

Como Classicista, Camões, mesmo diante dos dilemas existenciais e amorosos, apresenta um ponto de vista sereno. Isto porque o Classicismo é marcado por uma confiança na ciência, no equilíbrio, na razão. Mesmo o Classicismo português tendo influências medievais, estas afetaram mais a estética (na produção de poemas em medida velha). Os dilemas da existência humana e da vivência amorosa são apresentados de forma despersonalizada, direta, em linguagem muito mais simples do que a linguagem do Barroco.

Como assim “forma despersonalizada”?

Seguinte: no Classicismo, existe uma tendência de se buscar aquilo que é universal, as regras que valem para todos. Por isso vimos que Camões procura o Amor (com A maiúsculo) e a Mulher, que são as idéias perfeitas (e tome Platão nisso) que existem por trás da vivência particular do amor e por trás da existência de cada mulher. Quando Camões afirma que “Amor é um fogo que arde sem se ver” ele não fala de uma experiência amorosa que um eu-lírico particular tem com um amante específico. Ele fala que em todas as vivências do amor, este sentimento é contraditório. O amor é assim para todas as pessoas, em todos os lugares e em todos os tempos.

No caso da mulher, há um fenômeno semelhante. Lembrem-se que nos poemas em medida nova, Camões refere-se à mulher como Dama, Senhora. Ela não tem nome, não tem identidade, não é uma mulher em particular. Qualquer homem apaixonado pode fazer um ctrl+c ctrl+v e oferecer o poema de medida nova de Camões a qualquer mulher. O mesmo não acontece com a poesia camoniana de medida velha.

Não lembra o que é a poesia de medida nova e a de medida velha? Bora relembrar então:

* A poesia de Camões que tem estética medieval é a poesia em medida velha. Ela segue os padrões das cantigas de amor e de amigo do período medieval, estruturando-se em mote (tema, apresentado numas estrofe curta, geralmente um dístico – estrofe de dois versos – ou terceto – estrofe de três versos) e glosas, ou voltas (as demais estrofes que desenvolvem o tema). Os versos seguem a métrica medieval, a redondilha, e como inovação no conteúdo existe a apresentação de uma mulher concreta (com características físicas e nome – Lianor por exemplo) e uma expressão do amor por essa mulher concreta, ou, ainda, a expressão do amor que esta mulher sente – e isso NUNCA acontece na poesia em medida nova.

* Essa poesia em medida nova, portanto, é aquela que segue a estética classicista. Ela pode se estruturar em sonetos (poemas de 14 versos, geralmente distribuídos em dois quartetos e dois tercetos – forma conhecida como soneto italiano), oitavas (estrofes de oito versos) e sextinas (estrofes de seis versos). Seus versos seguem a métrica clássica, o verso decassílabo. O conteúdo desse tipo de texto, expresso em écoglas (poema de temática pastoril, estruturado em forma de diálogo), odes (poema elogioso e alegre) ou elegias (poema lamentoso e triste), é a expressão do amor-neoplatônico, que tende ao universalismo, e a reflexão filosófica sobre o desconcerto do mundo.

Feita a revisão, retomemos o ponto nevrálgico da distinção do estilo de Camões e de Gregório, que acaba sendo a distinção também do estilo do Classicismo e do Barroco.

Como eu já escrevi mais acima, a serenidade e a universalidade com que Camões trata os dilemas humanos são os pontos que claramente diferenciam este autor de Gregório de Matos (e o Classicismo do Barroco). Outro ponto também em que a oposição entre eles se faz sentir é na forma de construir o texto, é na linguagem. Mesmo usando em muitos dos seus textos a antítese e o paradoxo, a forma como Camões o faz é bem distinta da forma como o Barroco utiliza estes recursos. Isto porque o Classicismo deseja equilibrar o mundo, conciliar os contrários, enquanto o Barroco se angustia pela impossibilidade de fazê-lo. Observe como isso se dá com os dois exemplos abaixo:

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Acredito não ser difícil perceber que o primeiro texto exagera o uso das antíteses e dos paradoxos, enquanto o segundo não. No primeiro soneto, os contrários estão presentes praticamente em todos os versos, e o eu-lírico não consegue conciliá-los. Daí ele fazer uso, no segundo quarteto, de várias perguntas retóricas (aquelas que se faz para que o próprio autor tente responder no texto) que mostram seu desconforto frente aos opostos mencionados anteriormente. Por sinal, estas oposições serviram para ilustrar a idéia presente nos dois sonetos: a da fucagidade das coisas do mundo, da impermanência dos estados. Não só o primeiro soneto mostra desconforto diante desta realidade através do exagero estilístico e das perguntas retóricas, como ele também manifesta pessimismo, ainda que leve.

O segundo soneto, por sua vez, tem uma atitude bastante diferente. Note que além de as antíteses estarem em menor número e localizadas em apenas um pedaço do texto, o autor não demonstra angústia ou desconforto diante da realidade. Seu poema apenas faz uma constatação do que acontece na vida. A contenção emocional deste poema é típica da contenção emocional classicista, e típica da contenção emocional camoniana também.

Isto não quer dizer que Camões não expresse emoções em seus poemas. Apenas que ele faz isso de uma forma equilibrada, o que percebemos principalmente se confrontarmos seus textos com os de autores de escolas literárias que se pautaram na emocionalidade, como o Barroco e o Romantismo.

Por hoje é isso. Respostas das fichas de Camões durante o fim-de.
Beijinhos para vocês!

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