Camões, Os lusíadas e o Classicismo

Olá pessoas,

Desculpem a ausência na última semana, mas a correção de trabalhos (de vocês e dos meus outros 500 alunos) me mantiveram ocupada demais para postar aqui. Mas vamos lá…

Terminamos o estudo da literatura de informação com aqueles exercícios com o texto de Oswald de Andrade e com os textos de Botelho de Oliveira e Cassiano Ricardo… Menos a turma A, que não pôde, aindam, trabalhar com este material (mas que o fará em breve). Por essa discrepância eu vou pedir a vocês um pouquinho de paciência para eu postar as repostas aqui, mas não se preocupem, elas aguardarão vocês.

Em seguida, começamos o estudo desse mesmo período da literatura, mas em Portugal. Vimos, então, duas fichas teóricas sobre Camões e as turmas A, B e E já começaram a exercitar sobre o texto de Camões. Quem não começou ainda, é só aguardar a próxima aula. Quando terminarmos este material, eu deixo as resposta aqui, como sempre.

O que falar de Camões então? Muito vocês já descobriram nos trabalhos sobre o século XVI e muito nas nossas fichas teóricas. Estudamos em sala que, sendo representativo do Classicismo português, Camões se pauta em dois grandes autores da tradição clássica greco-romana para fazer seu poema: Homero e Virgílio. Estes dois autores e seus poemas épicos (epopéias) fundaram a tradição clássica que, no século XV foi resgatada inicialmente por Dante Alighieri, autor italiano, em A Divina Comédia, e, depois pelo próprio Camões, na literatura portuguesa.

Mas o que significa “resgatar a tradição da epopéia clássica”?

Na Grécia Antiga, os filósofos Platão e Aristóteles produziram as primeiras teses que embasam a teoria da literatura. Observando a produção de literatura de seu tempo, eles perceberam que poderia agrupar os textos em três categorias distintas, às quais chamaram gêneros literários. São eles: lírico, dramático e épico.

A distinção principal entre o primeiro dos dois últimos é o conteúdo. No gênero lírico, importa a apresentação de uma perspectiva, um sentimento, uma reflexão de um “eu” sobre o mundo. Daí vem a expressão “eu lírico”. Já no gênero dramático e no gênero épico, importa a narração de eventos que mobilizam personagens. Estes dois gêneros, de conteúdo bastate semelhante, diferenciam-se na forma: o gênero dramático é feito para ser representado (e isso, na Grécia Antiga, significava ser a peça de teatro), enquanto o gênero épico contém um narrador que faz o relato da história.

Isso não significa, porém, que os textos de romances e contos que costumamos ler são parte do gênero épico. São, sem dúvida, textos de um gênero narrativo sim, mas não são, necessariamente, épicos. Um texto, para ser épico, precisa de um elemento essencial que outras produções narrativas não precisam ter: um herói modelo de civilização, cuja perfeição deve exortar o homem a ser melhor do que é.

Não entendeu? Então vamos fazer uma comparação só para ilustrar… Se pensarmos em séries de TV como OC e Smallville, veremos que em OC, os personagens, mesmo aqueles a quem admiramos, são pessoas comuns. Elas podem ser engraçadas, tristes, alegres, têm defeitos e qualidades e delas gostamos, mas elas não são nada além de humanas, com tudo o que um ser humano tem, principalmente os defeitos. Esse tipo de personagem é amado porque seu público se identifica com ele, percebe nele elementos que as pessoas no cotidiano também têm.

Já em Smallville, temos um herói bastante clássico. Clark Kent é bom filho, bom amigo e ainda encontra tempo para salvar o mundo. É um personagem altruísta, que prefere sofrer com a ausência de quem gosta a deixar a pessoa em perigo. Apesar de sofrer, ele sempre vai fazer aquilo que é certo, nem que para isso o seu tão importante segredo seja revelado. Ele tem poderes suficientes para dominar o mundo, mas é bom demais para deixar a ambição o dominar.

Esse exemplo de herói exemplar é que corresponde ao herói clássico (herói da literatura clássica grega e romana). Esse herói, para Platão, é que fazia com que as tragédias gregas e a epopéia fossem o gênero literário de maior valor, pois elas estimulariam os homens a serem melhores do que são, exaltando qualidades que todas as pessoas deveriam desejar desenvolver. Com o tempo, além desse componente de “estímulo ao indivíduo melhor”, também se associou o componente de “tornar a nação melhor”. Foi o que aconteceu na obra de Virgílio e na de Camões.

“Como assim?”, você deve estar se perguntando. Vamos voltar um pouquinho ao que eu falei sobre as obras clássicas e adentrar na obra classicista portuguesa.

Nos poemas Ilíada e Odisséia, Homero se concentra em dois grandes heróis: Aquiles e Ulisses, que servirão de exemplo para o homem grego. Aquiles é o grande herói da guerra de Tróia (embora Ulisses seja o personagem que consegue determinar a vitória dos gregos). Ele é um semideus – e chegou a ser cultuado como Deus por algumas populações do mar morto – e, por isso, tem uma beleza olímpica (ou seja, divina, perfeita), um corpo perfeito, mais ágil, mais forte, mais resistente do que o de qualquer homem comum. E, como foi banhado pela mãe no rio Estige, é também imortal (exceto pelo famoso calcanhar, única parte que não foi banhada pela imortalidade). Em Aquiles, Homero exalta a grandiosidade do herói guerreiro, colérico e impiedoso, mas também demonstra que apenas a força não leva a vencer uma guerra. E nisso entra Ulisses.

Ulisses, ou Odisseu, era um homem comum, mas nem tanto: por ser rei e por ser ardiloso, inteligente, sagaz como nenhum outro homem grego. A guerra em Tróia não teria sido vencida pelos gregos não fossem os conselhos de Ulisses e o estratagema do cavalo de Tróia, por ele criado. Ulisses passou dez anos tentando regressar à Ítaca, seu reino, após tempo equivalente em guerra. Foi sua inteligência, paciência e persistência que o permitiram não só vencer Tróia e as dificuldades criadas por Netuno para seu regresso como também reassumir seu trono.

Com Aquiles e Ulisses, Homero demonstra as duas principais qualidades desejadas pelos homens gregos: bravura e inteligência. Não há, porém, um compromisso nacional com esses elementos, pois as obras não têm a intenção de fazer propaganda nacionalista. É o que distingue, principalmente Ilíada e Odisséia de Eneida.

O poema de Virgílio, como está informado na ficha de vocês, foi encomendado pelo imperador romano Augusto, para que uma obra romana, contando a origem de Roma, superasse a memória das obras gregas e alçasse Roma a um patamar superior na memória da Antigüidade. Daí Virgílio faz o resgate de Enéias, guerreiro troiano sobrevivente da invasão dos gregos, que lidera os troianos por anos de navegação e batalhas até conseguirem se estabelecer na península Itálica e fundar a cidade que originou Roma. Enéias, o herói, além de grande guerreiro é um homem religioso, que se submete aos deuses. A ele, então, são associadas as duas grandes qualidades do homem romano, e que todos os romanos deveriam ter: bravura para a guerra e submissão religiosa aos desígnios dos deuses – qualidade que se associa à piedade e à justiça.

Como os heróis clássicos são homens incomuns, que estão em um nível se evolução superior, também o herói classicista precisa estar. Daí Camões resgata Vasco da Gama: grande navegador, grande guerreiro, homem justo e cristão. Vasco da Gama vai personificar todo o ideal de perfeição de um homem português em Os lusíadas: bravura (contra o mar e as guerras) e submissão religiosa. Bastante parecido com Enéias, não é verdade?

Sim e não é à toa essa semelhança, dada a imitação de modelos que caracterizam o Classicismo e que acompanham não apenas o conteúdo, mas também a estrutura dos textos. Essa estrutura-modelo se divide em duas partes:

Estrutura lógica:
São as partes lógicas do relato, semelhantes à introdução, desenvolvimento e conclusão que vocês estudam em produção de texto. À introdução correspondem as três primeiras partes lógicas da epopéia: proposição, invocação e dedicatória. Ao desenvolvimento corresponde à narração e à conclusão o epílogo.

Entenda melhor: uma introdução, em um texto dissertativo, apresenta o tema que será discutido e a abordagem dessa discussão. Na epopéia a proposição indica o tema a que o poeta se propõe a desenvolver; a invocação é a solicitação do apoio das musas (e das ninfas, em Camões) para que o poema seja bem feito; a dedicatória é o oferecimento do texto a alguém importante.

Já o desenvolvimento apresenta os argumentos que justificam o ponto de vista defendido no texto. O equivalente a isso, no texto narrativo, é a própria narração em si.

Por fim, a conclusão, em um texto dissertativo, é a demonstração final da tese, do que pensa o autor sobre os argumentos expostos. Camões também faz essa avaliação final no epílogo, mas

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