A Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil

Hello, pessoas!

Trabalhando já no contexto histórico do século XVI? Se tiverem dúvidas, procurem Gerardo, de História! Ele já disse que orienta vocês sim!

No nosso trabalho com Quinhentismo, já lemos excertos de trechos distintos de obras da literatura de informação, aquela que tem como objetivo reportar à coroa portuguesa e ao povo europeu em geral como é o novo mundo, sua terra, sua natureza e seu povo. Vimos, também, que, além deste tipo de literatura, há um outro, que estudaremos mais à frente: a literatura de catequese. De antemão, já expliquei a vocês que o intuito desta literatura de catequese é promover a conversão dos índios ao catolicismo. Portanto, ainda não estamos no campo da literatura propriamente dita, pois, ainda que os autores da literatura de catequese utilizem poemas, peças de teatro e canções, o objetivo utilitário destas produções (converter os gentios) é que está em primeiro lugar.

Dos textos da literatura de informação do quinhentismo brasileiro, o mais importante, sem dúvida, é a Carta de Caminha. Como documento histórico, ela faz o papel de “certidão de nascimento” do nosso país, e de nossa identidade enquanto nação também. Identidade que vai sendo moldada, aos poucos, a partir do olhar estrangeiro do homem europeu sobre nossa terra, e que, ao longo do processo de colonização, vai se alterando, em decorrência da miscigenação étnica, do sincretismo cultural e da firmação de uma população que aos poucos se independentiza da Metrópole. Todo esse processo culmina, politicamente, na proclamação da independência brasileira. Mas não é uma processo que termina na Independência, em 1822. Afinal, ainda com ela, continuamos economicamente dependentes (como ainda o somos) de países desenvolvidos e continuamos absorvendo uma cultura estrangeira que vai sendo misturada com a nossa. Ser brasileiro, talvez, no fim das contas, se defina justamente no “ser antropófago” dos nossos índios: alimentarmo-nos do que nos faz mais fortes, e desprezar o resto. Oswald de Andrade, no Modernismo, e Caetano Veloso, na Tropicália, que o digam! Pena que estes movimentos são assuntos que vocês só estudarão no terceiro ano!

A Carta, como podemos perceber na colagem que fiz dela (como eu avisei, seria impossível lermos as 13 páginas em aula – o que não impede vocês de buscar o texto integral: ele já foi publicado em livro e existem muitos sites aqui na web que o disponibilizam) manifesta os dois interesses do colonizador em nossa terra – a conquista material e a espiritual – e é um texto de motivo edênico. O interesse pela lucratividade que se poderia obter com a exploração da nova terra se manifesta na associação do gesto do indígena que aponta para elementos do navio e depois para a terra como um sinal de que lá se encontraria a matéria prima daqueles objetos: o ouro e a prata. Já o interesse pela conquista espiritual dos índios – através de sua catequese – está bem demarcado na declaração de Caminha, ao fim do texto “o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente“. Nessa afirmação, Caminha demarca que, dada a ausência de sinais da possibilidade de ouro e prata no Brasil, a atividade que dará mais lucro certo a Portugal é a conquista espiritual. Lembrem que nesta época, dados os eventos da Contra-Reforma, Portugal buscava o prestígio junto à Igreja e ao Papa.

O motivo edênico, por sua vez, aflora na apresentação do esplendor da natureza brasileira e da inocência dos gentios. O que mais se assemelharia ao Éden do que gente bonita, “de bons rostos e bons narizes” que tem total inocência – aos olhos da moral cristã – acerca da nudez do corpo e que habita uma região, provavelmente uma ilha, em que abundam arvoredos, terra chã (plana, chão) e praia formosa? Infelizmente a moral católica do século XVI e seu radicalismo acerca de certo, errado, pecado e salvação e a conquista material, com a exploração do pau-brasil, da cana-de-açúcar e do ouro vão “contaminar” este paraíso inicial com tudo aquilo que a Europa tinha de negativo: repressão, ganância e luta pelo poder.

Feitas estas considerações, vamos às respostas da ficha.

A questão 1 lembra o estranhamento do português diante dos índios e pergunta o que chama a atenção em relação às índias. Os trechos em que Caminha tratava dessa visão sobre as índias foram suprimidos, e é preciso inferir a respeito dessa impressão, a partir do que foi apresentado como impressão sobre os índios. Ora, Caminha ressalta em sua descrição o exotismo dos índios em seu visual e a inocência com que exibiam “suas vergonhas”. Considerando-se isso, podemos afirmar que a nudez inocente das índias é algo tão exótico para o conquistador português que certamente provocou o estranhamento.

A questão 2 destaca uma passagem da carta em que Caminha relata os sentimentos provocados pela visão das índias nuas. Nesse trecho, o autor vale-se da dupla atribuição de sentidos à palavra “vergonha”. A “vergonha” dos índios e índias são seus órgãos sexuais. A vergonha do conquistador é o constrangimento diante da nudez alheia. Se lembrarmos do excertode Eduardo Bueno, “Vida a bordo”, do livro Brasil – Terra à vista!, até o banho era considerado nocivo à saúde, mito criado para reprimir a lascívia que a visão do corpo poderia gerar no bom cristão. Portanto, a formação moral e religiosa do conquistador associa sexo e nudez a pecado, e se confronta com a moral indígena, que encara estes elementos com completa naturalidade.

A questão 3 trata da comunicação entre portugueses e índios. Na frota de Cabral havia três intérpretes, um para línguas africanas (e que foi o primeiro negro a pisar no Brasil), um para o idioma hindu (afinal a intenção era realmente ir para a Índia – o Brasil foi um mero pit-stop) e um para outras línguas asiáticas, se não estou enganada.
Apesar de todo este aparato lingüístico, porém, não foi possível haver comunicação entre portugueses e os índios da costa brasileira, que usavam uma língua completamente desconhecida. (Uma não, várias! Havia milhares de tribos distintas e embora muitas compartilhassem de uma mesma língua geral, havia milhares de idiomas diferentes também.)
Como, porém, contar ao rei que com todo o aparato levado, a frota de Cabral foi incapaz de se comunicar com gente tão primitiva? A solução de Caminha foi culpar o mar, que quebrava na costa e fazia barulho. Assim fica adiado o problema e a tripulação não recebe o rótulo de incompetente pelo receptor do texto.
Isto foi no episódio de Nicolau Coelho, sendo as considerações anteriores, portanto, as respostas para os itens A e B da questão 3. Mas antes de prosseguirmos com a questão 3, deixem-me fazer mais uma observação. Posteriormente, quando os dois índios jovens são levados a bordo, caminha lança uma interpretação para os gestos de aponte, demonstrando ao rei que entende o que o silvícola quer dizer, mesmo sem entender o que ele fala. Ou seja, mais uma vez ele contorna o problema, mostrando (ou pelo menos tentando) que a culpa do não-entendimento anterior realmente fora do mar.

A questão 4 trata do primeiro contato dos índios com Cabral (até então havia se limitado a Nicolau Coelho e aos marujos). Relendo o trecho que trata disto, podemos perceber que Cabral procurou assinalar seu posto de comando com elementos culturais que na Europa seriam facilmente entedidos: estava sentado, bem vestido, e com um estrado de alcatifa onde repousava os pés. Na Europa estes elementos dão destaque à posição superior de quem conta com eles. Mas para os índios brasileiros, não significavam nada. Tanto que eles ignoram o capitão e não o cumprimentam. As disparidades das duas culturas, portuguesa e gentílica são fortemente assinaladas nessa passagem.

A questão 5, por fim, trata dos interesses que já foram discutidos no início deste post. Os portugueses, de início buscavam metais preciosos e como não podem confirmar sua existência, há a sugestão da conquista espiritual dos indígenas, através da catequese.

Bom, that’s all folks!
Bom domingo e até amanhã!

9 thoughts on “A Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil

  1. professora gostaria de saber se posso fazer o texto do trabalho de maneira fragmentada ou se é preciso fazer um texto corrido.
    obrigado.

    João Paulo Campos
    (joao_campospaulomc@hotmail.com)

  2. João Paulo

    Tanto faz! Uma ou outra forma, nesta pesquisa, terá o mesmo efeito. Escolha a que lhe parecer melhor, certo?

    Até mais!
    Bianca

  3. Oi Bianca, quanto à parte “A relação entre ciência e cultura nesta século, e a deste com a Idade Média e a Grécia Antiga” do trabalho, você poderia indicar alguns sites para me ajudar com isso?

    Paulo José
    paulo_jcs@msn.com

  4. Paulo,
    Você já tentou na Wikipedia(www.wikipedia.org.br)? O “capítulo” deles sobre a História da Arte (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_arte_ocidental) contempla muito dessa relação na arte. Talvez se você buscar por História da ciência você possa encontrar bons elementos para complementar a sua pesquisa!
    Outro site interessante é o Universo literário. Este link tem elementos interessantes para a pesquisa: http://universoliterario.vilabol.uol.com.br/classicismo.html.

    Bom trabalho! Até amanhã!

  5. Eu já tinha tentado a Wikipédia sim, mas não tinha achado esse artigo. De qualquer forma, eu usei só o Universo Literário.
    Valeu, Bianca!

  6. oi gostaria de saber uma opinião sobre como faço um roteiro
    dessa obra carta do achamento do Brasil

    bjooo
    muito obrigado

  7. Gislane,

    Para eu pensar em alguma coisa eu preciso saber qual é a função desse roteiro. Que tipo de roteiro é? Para que ele vai servir?

    Até breve

  8. Jessica,
    Tem sim. Use sua criatividade, selecione os personagens, pense num figurino e mande brasa! Depois conta como ficou, tá?

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