Exercícios com os textos do século XVI

Olá, queridos!

Eu sei, eu demorei dessa vez. Peço perdão e deixo uma justificativa: na soma de três escolas, são 900 e alguns vocês e eu administrando esse pelotão. Por isso, pode demorar um pouquinho chegar a atualização daqui, mas lembrem-se do ditado: Tarda, mas não falha! E eis me aqui, em pleno carnaval, deixando o post com as considerações sobre os textos do século XVI que trabalhamos e a correção dos exercícios sobre eles.

Antes de mais nada, para quem não registrou os títulos que foram cortados, aqui vai:
Texto 1: História da Província de Santa Cruz
Texto 2: Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil
Texto 4: A verdadeira história dos selvagens nus e ferozes devoradores de homens

Como vimos em sala, os objetivos, os emissores e os receptores dos quatro textos, de maneira geral, são os mesmos. Todos visam informar alguém (o povo em geral, da Europa ou de Portugal em específico – apenas o texto 2 fica mais restrito, pois dirige-se à coroa) a respeito da nova terra, seus habitantes e a cultura deles. Os excertos (trechos) que lemos focaram-se no índio, mas as obras em que se inserem e os demais textos da mesma época também abrangeram a natureza, a fauna, a flora e o clima brasileiros.

Esta constatação nos permite responder à questão 1 da ficha: os elementos que se mostram em comum nos textos é o objetivo, a função social exercida por quem escreve (mesmo o Pe. Manuel da Nóbrega e Hans Staden, que não estiveram aqui com o propósito de atuarem como informantes, acabam cumprindo este papel ao produzirem os textos que lemos), o tema e o público alvo.

A informação veiculada pelos textos baseia-se, principalmente, na descrição física e cultural dos gentios. Quem se difere um pouquinho, neste aspecto, é o texto de Hans Staden, de caráter narrativo. Notem, entretanto, que junto à narração (o que aconteceu) existe uma descrição (como aconteceu). Staden assinala como os gentios são perigosos através de uma descrição de comportamento. Portanto, podemos responder à questão 2 assinalando que a para cumprir o propósito informativo da produção escrita – e assim saciar a curiosidade européia sobre o Novo Mundo – , os cronistas (historiadores do tempo presente) e os viajantes concentravam-se na descrição da terra e de sua gente, seja através da caracterização (como nos textos 1 e 2) seja através do relato de costumes (texto 3) ou de eventos específicos (texto 4).

O mote da descrição (o índio em seus aspectos físicos e culturais) aproxima os quatro textos, de origens e posições ideológicas distintas. Em todos eles, também, prevalece um ponto de vista estrangeiro intrigado com o exotismo do indígena. Esta constatação responde à questão 3. O ponto de vista ideológico singular da Carta de Caminha, destarte, destaca este texto dos demais. Caminha considera os índios bonitos (bons rostos e bons narizes) e não apresenta reprovação aos costumes indígenas, como o fez explicitamente Gândavo e Hans Staden (como comprova o título da obra), e implicitamente Pe. Manuel da Nóbrega. Este implícito está tanto na seleção do ritual antropofágico do indígena como assunto como na relação de Nóbrega com este aspecto cultural: para um padre católico contemporâneo à Contra-Reforma Católica uma atitude como esta representa, no mínimo, um estado completo de incivilidade, o qual, provavelmente, conecta-se a tentações demoníacas e perdição da alma. Tais comparações levam à Carta de Caminha como resposta para a questão 4.

A questão 5, pode ser solucionada de duas formas. Podemos considerar que no nível explícito, o objetivo dos textos realmente não se altera: informar a população européia sobre o Novo Mundo. É uma resposta precisa e aceitável como plenamente correta, inclusive em questão de prova (bastanto, apenas, a apresentação da justificativa para a conquista da totalidade de pontos a ela reservada).

Todavia, podemos também lançar um olhar mais profundo sobre a ideologia dos textos e seus implícitos. O que desejam os autores ao selecionar as informações que apresentaram em seus textos? Quem informa alguém, informa por uma razão específica, que raramente é altruísta. Gândavo, por exemplo, em seu texto reduziu os índios a animais, com expressões como machos e fêmeas. Além disso infere que a ausência de F, L e R significa a ausência de Fé, Lei e Rei naquela cultura. Como interpretaria isso Portugal? O que se deve fazer com um povo que não tem Fé, Lei e Rei, segundo a interpretação do homem europeu no século XVI? Que ação é impulsionada por essa informação? A dominação parece ser a resposta mais acertada, não é? Portanto, podemos considerar que Gândavo tem como objetivo, também, estimular o povo português a tomar para si a terra e impor sua Fé, sua Lei e o seu Rei àqueles que não têm.

Esta intenção colonizadora e dominadora inexiste, entretanto, no texto de Caminha, pelo menos no excerto que lemos. Aparentemente, Caminha se manteve mais neutro em sua posição ideológica, e a informação, no excerto, realmente parece servir apenas para satisfazer a curiosidade real sobre o Brasil.

E quanto a Nóbrega e Staden? Os excertos parecem intentar demostrar como é perigosa a nova terra e seus habitantes. Provavelmente depois da leitura destes textos, o homem do século XVI não esperaria muito para reagir de forma violenta se encontrasse com indígenas, como realmente acabou ocorrendo – e resultando em extermínio.

Uma ou outra forma de se responder à questão 5 é satisfatória para nosso início de trabalho. Mas assinalo que esta segunda demonstra uma capacidade de leitura muito mais atenta e aprofundada dos trechos. Gostaria muito que, ao fim de nosso ano letivo, boa parte de vocês tivessem este tipo de análise crítica. Se Deus quiser, chegaremos lá.

Restou-nos a questão 6. Como já assinalamos anteriormente, o título da obra de Hans Staden apresenta um ponto de vista negativo sobre os índios brasileiros: selvagens demonstra um julgamento de valor que parte do ponto de vista do homem europeu. Além disso, as características nus, ferozes e devoradores de homens representam pecado, violência e pecado/ausência de pudor, respectivamente. Isto responde ao item A.

Vamos ao item B: “descobrir” e “achar” denominam ações diferentes? Pensemos: Isaac Newton “descobriu a lei da atração dos corpos” ou “achou a lei”? Em que consiste uma ação e outra? Ora, nós achamos aquilo cuja existência se conhecia, mas que tinha um paradeiro ignorado ou esquecido. Achamos uma nota de 10 reais no bolso da calça guardada. Um dia aquela nota era conhecida e ali foi esquecida. Achamos um livro que guardáramos em algum lugar, mas que foi dali retirado por outra pessoa. Se Newton houvesse “achado” a lei de atração dos corpos, ela já seria conhecida antes. Como essa lei não era conhecida, trata-se de uma “descoberta”. Por isso, dizer que os portugueses “acharam” o Brasil associa-se à idéia de que já se conhecia a existência do Brasil, mas que sua localização não era precisa. Descobrir o Brasil, por outro lado, é encontrar uma terra completamente desconhecida.

Para concluirmos, observem o item C: que título se conecta a uma série de eventos e a uma obra longa. A palavra História do título dos textos de Gândavo e de Staden salta aos nossos olhos neste momento. Porém, apenas o título de Gândavo tem esta conotação, pois é a história de toda uma terra, e não apenas de um povo. Presume-se que na província de Santa Cruz existam muitos povos, além de componentes naturais que serão abordados em um compêndio sobre sua história. Já “os selvagens nus e ferozes devoradores de homens” delimitam a concentração do texto de Hans Staden apenas a este povo. Por isso, a resposta é o título do texto 1.

Terminamos desta vez por aqui! Aproveitem MUITO o carnaval!!
Beijos e até a próxima!

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