A Missão

Quem assiste ao filme A missão tem a oportunidade de acompanhar uma obra que trata do mesmo tema do poema épico de Basílio da Gama O Uraguai. As diferenças de ponto de vista das duas obras sobre o Tratado de Madri, a vida dos índios, os interesses da Igreja e do Estado, no entanto, não poderiam ser mais diferentes. De maneira nitidamente oposta à efabulação de O Uraguai, em que o jesuíta é o inescrupuloso que cobiça o poder a todo custo, são ospadres jesuítas os protagonistas (e “mocinhos”) da história.

Em A missão, se existe um vilão, ele é encarnado no governo português, que ordena a luta, e no governo espanhol, que poderia ter agido em defesa dos índios, mas que não o faz para poder lucrar com a venda e a compra ilegal de escravos. A Igreja, encuralada pela sua perda cada vez maior de poder na Europa, e lutando para manter ainda viva a ordem dos jesuítas, tanto em Portugal  como no restante da Europa, no máximo, peca pela omissão. E nem disso se pode realmente acusá-la: no contexto do século XVIII, a Igreja Católica Apostólica Romana há muito tempo já havia perdido a influência sobre a maior parte dos governantes europeus e em nada lembrava a instituição que, séculos antes, mantinha seu exército e podia financiar expedições de batalha, como as Cruzadas.

Contrariamente à característica mais básica dos textos épicos, a luta em A missão é um episódio relegado apenas ao desfecho da obra. Mais ainda: é um evento que não traz muita satisfação aos guerreiros. Os soldados do exército luso-espanhol não querem lutar e isto é dito claramente por um deles. O comandante (pena que Gomes Freire de Andrade não receba o crédito no filme) precisa alertá-los que é uma questão de dever. Quer coisa mais antiépica que isso? Compare essa disposição para a luta com a dos espartanos de 300! Com o detalhe que os espartanos vão para a guerra tendo a morte como certa, e os soldados portugueses e espanhóis têm todas as armas e munições da época ao seu favor.

E o índiode A missão? É um “mocinho”, sim, mas  diferente do “mocinho” de O Uraguai. No épico, o índio é moralmente superior e um herói moral que não precisa de brancos para se defender. Segundo o poema de Basílio da Gama, a guerra foi vencida pelo fato de os portugueses terem armamento pesado a seu dispor (o que se confirma se lembrarmos que as guerras guaraníticas duraram 17 anos). O nativo sabia usar a natureza em seu favor para guerrear. Porém, em A Missão, o índio aculturado é alvo fácil para os portugueses se não  contar com a defesa do jesuíta rebelde (Robert de Niro numa interpretação ABUSADA, como sempre. Eu juro que queria saber quem autorizou De Niro a ser tão perfeito assim como ator! #amoprasempre) . Esta fragilidade revela bem a ideologia da obra. Se era função dos jesuítas proteger o índio da escravidão, o índio, este pobre ser desgarrado da cultura católica, que precisava ser protegido como se protege um animal em uma reserva ecológica, coitado… O índio sem o jesuíta, não ia nem saber cantar em latim! Tadinho!

Apesar dos pesares ideológicos, A missão é um filme interessante. Existe uma reconstrução de época muito consistente e o simples debate, por si, já conta muitos pontos a favor do filme. Fora a coisa que é a trilha sonora do Ennio Morricone, um dos meus compositores favoritos. Curte aí um pouquinho dessa trilha arrepiante, junto com algumas cenas do filme.

Ennio Morricone e sua sugestivíssima Na terra assim como no céu. Essa música me deixa com olho marejado, sempre.

 

3 thoughts on “A Missão

  1. Marcelo,
    As repostas estão no próprio texto. Leia com um pouquinho mais de atenção que você vai encontrar.
    Um abraço!

  2. Thiago Asfora,
    Não publiquei seu comentário, mas o li. Eu expliquei isso tudo em sua sala de aula sim. Mas você e Samico estavam mais interessados em uma conversa paralela, então fica difícil lembrar, não é?😉
    Espero que o texto o ajude na avaliação hoje à noite.
    Boa prova!

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