Barroco: a temática do desengano

Quem já vivenciou a nossa “experimentação do Barroco”, percebeu o quanto a angústia, o sofrimento e a dor de existir são importantes para esse movimento. Como eu falei em sala, o homem barroco é o homem que vive a “passagem de uma grande dor” (este é quase o título de um ótimo conto de Caio Fernando Abreu). É o homem que transita entre as necessidades do corpo e as do espírito, a vontade de mergulhar na vida e em todos os seus prazeres plenamente e a de se resguardar para a vida futura, no plano espiritual. O sofrimento e a dor vêm muito da noção de que a vida humana é efêmera, fugaz, passageira. Ela vai acabar, isto é inevitável. O homem não passa de um joguete do próprio destino, e cada dia que se passa é um dia é menos.
Essa morbidez, esse pessimismo, se refletem na temática do desengano (desencanto, desilusão), que tenta, em vão, se consolar com as promessas da vivência religiosa. Nos textos, principalmente nos poemas de Gregório de Matos, a morbidez, o pessimismo e o desengano vão surgir através da reafirmação das ideias de que a vida é um sonho que passa rápido. Sobre isso leia as palavras do professor Sergius Gonzaga, que analisou brilhantemente o tema.

A vida é sonho
Título de uma peça do espanhol Calderón de la Barca, esta expressão traduz o caráter ilusório da existência terrena que não passa de uma realidade aparente, de um jogo, de um teatro, já que a única e verdadeira vida é a eterna. É uma idéia que evoca o mito da caverna, de Platão. De acordo com este mito, estamos, em nossas vidas, amarrados a um mundo de sombras, como pessoas que acorrentadas no fundo de uma caverna, de costas para entrada. Assim como elas, só podemos observar as sombras que se projetam de fora para dentro da caverna. A realidade só é vista quando nos libertamos de nossas amarras e podemos atingir a luz do lado de fora. Ou como diz o próprio Calderón:

Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção.

A vida é breve

A trajetória do homem guarda uma lamentável brevidade. O tempo voa, destruindo os prazeres, a beleza e a felicidade profana. Nada é estável ou permanente, tudo se desmancha, tudo muda. “Viver é trilhar curta jornada” – diz o espanhol Quevedo.
Oscilando entre a alegria da existência e a preparação para a morte, o artista barroco assume uma consciência trágica da avassaladora passagem do tempo. Mas também, diante das coisas transitórias, surge a contradição: vivê-las, antes que terminem, ou renunciar ao terreno e entregar-se à eternidade? Usando o termo latino, o homem barroco se questiona: carpe diem? Devo aproveitar o momento? Gregório de Matos estabelece um paralelo entre a efemeridade pessoal e a permanência de um rio:

Vás-te, mas tornas a vir,
eu vou, e não torno mais.
Vazas, e tornas a encher:
em mim tudo é fenecer,
tudo em mim é acabar.

Viver é ir morrendo aos poucos
Esta percepção de que o sopro da vida já traz em si a própria finitude surge como fonte de grande angústia para a alma barroca. Cada minuto vivido é um minuto de aproximação do abismo sombrio. A idéia da morte torna-se onipresente porque não há como esquecê-la. No texto de Quevedo o começo e o fim se confundem (bem ao gosto dos paradoxos da linguagem Barroca – veja as expressões paradoxais destacadas em negrito):

“O berço e a sepultura são o princípio da vida e o seu fim. E por isso, a um juízo inconsciente, os dois têm entre si as maiores distâncias. A visão desenganada, (ao contrário) não apenas os vê como próximos, senão juntos: sendo verdade que o berço começa a ser sepultura, e a sepultura, berço da vida póstuma. Começa o homem a nascer e já a morrer; por isso, quando morre, acaba ao mesmo tempo de viver e de morrer.”

Em tempo: o que é paradoxo?

O paradoxo, assim como a antítese (anti= contrário; tese = idéia), é a apresentação de idéias opostas em um texto que servem para assinalar o contraste entre elementos do mundo. A diferença é que na antítese, os opostos fazem parte de seres diferentes, enquanto no paradoxo fazem parte do mesmo ser.

Para ficar mais claro: quando alguém diz que “À luminosidade do dia se seguiu a escuridão da noite”, temos duas idéias opostas – luminosidade e escuridão. Como a luminosidade faz parte do “ser” dia, e a escuridão do “ser” noite, temos uma antítese. Já se alguém diz que “O claro-escuro da noite era perfeito para os apaixonados”, temos um paradoxo. Observe que neste caso claro e escuro fazem parte do mesmo “ser” noite.
Para ajudar mais ainda: lembre-se do símbolo do Tao, da cultura oriental. Aquele símbolo do yin e do yang. Naquela mesma esfera, convivem dois elementos opostos, a energia positiva e a negativa, simbolizada pelas cores branca e preta. Onde há energia negativa há positiva e vice-versa. Lembre-se que na parte branca há uma bolinha preta e na parte preta há uma bolinha branca. As duas energias se confundem e fazem parte do mesmo elemento: ou seja, o símbolo do Tao é um paradoxo. Se separarmos o Tao em duas esferas, uma somente yin e a outra somente yang, teremos uma antítese: as energias opostas fazem partes de seres diferentes.

Dúvidas? Se tiverem, gritem!
Cheiro pra todo mundo, e até a próxima!

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