Um pouco da visão do índio

Vou deixar para vocês, hoje, um pouco da visão dos nossos indígenas no século XVI. O registro foi feito por um francês que esteve aqui no Brasil no período quinhentista. Seu nome era Jean de Léry. Ele deixou muitas informações sobre a forma de organização da sociedade indígena e suas crenças religiosas. O excerto que vou deixar para vocês mostra os postos de vista do indígena sobre a sociedade européia coletados por Léry em uma conversa com um velho índio tupinambá. Perceba que não apenas os colonizadores tinham julgamentos sobre a cultura “selvagem” (denominação que em si só já encerra um julgamento de valor) como também os índios julgavam – aprovando ou não – os costumes portugueses. Isto nos ajuda a apagar um pouquinho da memória a idéia de que o índio era (é, ainda, para alguns) um inocente sem a menor capacidade crítica e, por isso, facilmente manipulável.

“Devo começar pela descrição de uma das árvores mais notáveis e apreciadas entre nós por causa da tinta que dela se extrai: o pau-brasil, que deu nome a essa região. Essa árvore, a que os selvagens chamam de arabutan, engalha como o carvalho de nossas florestas e algumas há tão grossas que três homens não bastam para abraçar-lhes o tronco. (…)
Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan. uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, maírs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual faziam eles com seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitso navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros.
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta desses para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontear riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”

Sabe a fama de “preguiçoso”, “indolente” dos índios? Vem daí, desse estágio de harmonia com a natureza que não cobra dela mais do que ela pode dar. E sabe a fama de “trabalhador”, “previdente”, “civilizado” dos colonizadores? Cinco séculos depois resultou em poluição, queda drástica da biodiversidade, efeito estufa…
Só para nos lembrarmos que isso de quem é e quem não é civilizado é só uma questão de ponto de vista.
Essa semana eu ainda deixo os gabaritos das questões de vestibular sobre Quinhentismo. Depois do carnaval já começamos o Barroco!

Cheiro pra todo mundo e até a próxima!!

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