No início dos tempos

O Quinhentismo, como começamos a ver, é o período em que se começa a escrever sobre o Brasil. Essa escritura tem dois objetivos principais: informar Portugal sobre como é a natureza e o homem que vive na nova terra e catequizar as populações indígenas. É por isso que, de acordo com o objetivo do texto, classificamos a produção desse período de literatura de informação ou literatura de catequese.

Quer dizer que não houve, então, literatura propriamente dita sendo produzida neste período? Não é que não houve, mas não sobre o Brasil e muito menos por brasileiros (já que ainda estávamos em formação e o acesso a cultura era restrito às pessoas que iam a Portugal se educar). Esta produção só vai acontecer no século XVII.

O que é importante saber sobre o Quinhentismo? Bem, o que se destaca neste período é a visão que os portugueses apresentam, em seu texto, sobre o indígena, sua cultura e sobre a natureza do nosso país. Estes elementos são tão importantes que vão ser revisitados, resgatos posteriormente, durante o Romantismo (segunda metade do séc. XIX) e o Modernismo (principalmente na primeira fase do movimento, entre 1922 e 1930).
Hoje, eu vou deixar para vocês um trechinho da obra de Pero de Magalhães Gândavo, História da província de Santa Cruz. Neste trecho, Gândavo faz uma descrição do físico, dos hábitos de comportamento e da moral dos indígenas. Repare que ele apresenta, mais ou menos explícita, de acordo com o texto, uma visão negativa dos silvícolas. Para Gândavo, eles são “machos” e “fêmeas”, não “homens” e “mulheres”, o que os desumaniza. Além disto perceba a quantidade de características negativas enumeradas no texto (deixarei as passagens demarcadas em negrito para ajudar você a localizá-las).

Boa leitura!
Um cheiro!

Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm o rosto amassado, e algumas feições dele à maneira de chinês. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de boa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer, temerária na guerra e de muito pouca consideração: são desagradecidos em grande maneira, e mui desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo. Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamentos senão de comer, beber, e matar gente, e por isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tornam a emagrecer, e muitas vezes pode deles tanto a imaginação que se algum deseja a morte, ou alguém lhe mete em cabeça que há de morrer tal dia ou tal noite não passa daquele termo que não morra. São mui inconstantes e mudáveis: crêem ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem por dificultoso e impossível que seja, e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se neles não houvera razão de homens: ainda que todavia seu ajuntamento os machos e fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha.

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