A poesia clássica e a poesia iconoclasta

Ai, que saudade, que saudade, que saudade de vir escrever aqui!

Pra quem não sabe, em março começou o meu mestrado em Teoria da Literatura e eu estou feito uma baratinha tonta para dar conta das aulas: as das escolas e as da minha pós. Sabem quando eu digo pra vocês aproveitarem beeeemmm muito agora, porque depois só piora? Se vocês acham que estudam demais, deixa titia montar uma equação:

dar aulas para 650 alunos no total + planejar aulas, material e atividades + cursar 3 disciplinas de mestrado + ser gente = o que você faz entre meia-noite e seis da manhã? = estudar um mínimo de 210 páginas por semana**

** das quais no mínimo 70 são em inglês. Sobre filosofia kantiana.

É por isso que eu dei uma sumidona daqui. Mas não, eu não abandonei o espaço. Mai teco, não largo meu cantinho nem a pau, nem a pedra e nem no fim do caminho! Agora, que vou demorar a postar, ah, infelizmente vou. Mas será como no ditado: tarda, mas não falha, tá?

Bom, enfim, dadas as justificativas de minha looonnnga ausência, vam’bora pro que interessa né?

Eu fiquei devendo as regras da poesia clássica, ou erudita, na postagem passada. Para isso, vamos relemembrar um princípio básico:

A poesia popular é originalmente produzida numa cultura iletrada, ligando-se às grandes massas da população. Sendo sua origem primeira iletrada, ela é fortemente conectada à oralidade, e, por isso, suas formas, as regras de sua configuração têm como principal objetivo favorecer a memorização do texto, para que ele se mantenha vivo e circulando naquele grupo social. É por isso que os poetas populares conectam-se aos versos curtos, as redondilhas, e daí a importância das rimas e dos aspectos sonoros do texto. Daí também a forte conexão entre a poesia popular e a canção popular (não aquilo que chamamos de música popular brasileira, mas as cirandas, as canções de ninar, as ladainhas religiosas, os repentes sertanejos).

A poesia clássica, ou erudita, por sua vez, é produzida por (e para) as elites intelectuais, os grupos que se mantém no poder social e que são privilegiados em termos de acesso à cultura letrada. Enquanto a poesia popular, por exemplo, é produzida nas mais diversas variações de um idioma (variações regionais, principalmente), a poesia clássica/erudita é produzida dentro da norma padrão. E é produzida através da escrita e para ser lida, fato que faz sua organização interna ser bastante diferente daquela da poesia popular. Como o texto não precisa mais ser memorizado por completo para não se perder, porque há o registro escrito que o perpetua no tempo, outras formas são valorizadas pelos poetas eruditos. Os versos são mais longos, geralmente com 10 sílabas poéticas (o famoso decassílabo), podendo chegar até 12 sílabas (o verso dodecassílabo ou alexandrino, o favorito dos poetas parnasianos). Há uma preocupação maior em um refinamento do vocabulário, em se pesquisar termos cultos, pouco conhecidos e pouco usados no cotidiano. A forma da poesia erudita, de maneira geral, faz com que ela soe mais solene, menos próxima da vivência do dia a dia, enquanto a forma da poesia popular a mantém próxima da comunidade. O mesmo vale para seus temas, as referências simbólicas que tanto uma como outra usam. O imaginário da poesia clássica (principalmente no período que chamamos de Era Clássica da Literatura, que na língua portuguesa vai do século XVI ao século XVIII) volta-se para a mitologia greco-romana. Já o imaginário de poesia popular volta-se ou para o maravilhoso cristão (com referência a santos, à Virgem Maria, por exemplo), ou para os personagens populares de conhecidos pela comunidade. Isso não significa que esses dois itens da poesia popular não possam aparecer na erudita, mas o contrário é que se torna praticamente impossível. Um poeta erudito pode fazer um texto sobre o sertão e nele mencionar o vaqueiro ou até Lampião. Mas um poeta popular (popular mesmo, de origem) falar em Musas, em Apolo, Diana, Júpiter, taí algo praticamente impossível de se encontrar. Eu não conheceço nenhum caso.

Uma coisa importante, importantíssima que precisa ficar muito clara aqui, e que está diretamente ligada ao último parênteses. Preste muita atenção. Seguinte:

Ao assinalar as características da poesia popular eu me refiro especificamente à tradição popular da poesia, ou seja, às formas que essa poesia firmou e transmitiu de geração para geração. A forma foi fixada em virtude das necessidades da oralidade, mas isso não significa que essa tradição poética permaneça até hoje relegada apenas ao plano do oral. Observe a poesia de cordel: a maior parte dos cordéis hoje são produzidos diretamente no plano da escrita (há não muitas décadas os principais casos eram de transcrição do oral para o escrito, como é o caso da obra do Patativa do Assaré, lembram?). Acontece que o cordel se originou no plano da tradição popular de poesia e, hoje, mesmo sendo produzido diretamente para ser lido, ele conserva a forma popular que o originou. Então, por favor, sempre que eu mencionar aqui poesia popular e poesia clássica ou erudita, não se preocupe em pensar qual a origem social do autor do texto, mas sim em lembrar das características da forma de cada uma, certo? Principalmente porque muitos poetas eruditos, mesmo quando a separação entre a produção de cada uma dessas duas tradições era marcada por grandes abismos sociais, usaram formas populares em algumas de suas produções. Gregório de Mattos, poeta brasileiro do século XVII é um exemplo. Veja só esse poema dele, de forma popular (redondilhas maiores —7 sílabas — com rimas toantes — tipo de rima em que apenas as vogais se mantém, no caso as vogais “a” “e” dos versos ímpares  alternadas as versos brancos), e esse poema, de forma erudita (estruturado em soneto, a forma fixa favorita da poesia de gênero lírico, com versos decassílabos, vocabulário refinado, referências à mitologia greco-romana).

Não estranhem os dois temas terem temática religiosa: era um tema muito comum no movimento literário em que se insere a obra desse autor, o Barroco. O importante é vocês notarem que ele, poeta erudito por sua formação social (na época podemos apontar isso com muita clareza), expressou-se nas duas formas, e que essas formas não misturam suas regras. Se não entenderam isso, por favor, deixem suas dúvidas lá nos comentários, tá?

Agora está na hora de alguém fazer uma pergunta básica: “Bianca, todo soneto tem verso decassílabo?

Resposta padrão: quase todos. A alternativa para o decassílabo, no soneto, é o alexandrino.

E a continuação da pergunta básica: “Por quê?

Resposta: porque a tradição é essa. Não tem outro motivo. O soneto é uma forma clássica, e quem se propõe a escrevê-lo segue as propostas da forma clássica. Essa proposta implica a métrica decassílaba ou dodecassílaba.

A pergunta derradeira, que nos conduz então ao próximo e último assunto do post: “E se eu não quiser fazer o soneto com decassílabo? E se eu quiser fazer com outra métrica?

Resposta: “Então, meu bem, você é um iconoclasta e não um poeta de tradição clássica.

iconoclasta (adj.) 1. Que ou quem destrói imagens religiosas ou ídolos. 2. Que ou quem não respeita tradições e monumentos.

Toda vez que eu penso nos poetas iconoclastas eu só me lembro de Geração Coca-Cola, da Legião. “Somos os filhos da revolução” e “(…) vocês vão ver / Suas crianças derrubando reis / Fazer comédia no cinema com as suas leis” são versos para mim que sintetizam o que representaram os movimentos iconoclastas, principalmente no século XX. Claro que o experimentalismo de novas alternativas de expressão literária além daquelas previstas na tradição popular e na tradição clássica não tinha o furor punk das canções da Legião Urbana no início dos anos 80. Mas o movimento punk em si uma conexão interessantíssima com a poesia iconoclasta. Muito mais que correntes pelo corpo, cabelos espetados, roupa rasgada e aquela imagem de inconformismo e violência que nós temos do punk, esse movimento cultural nascido nos anos 70, é uma reação às regras sociais coercitivas e uma luta pela liberdade de expressão. O lema do punk era Do it yourself: Faça você mesmo! Quem quiser saber um pouco mais sobre o punk, eu sugiro olhar aqui e aqui.

E é do it yourself que resume o princípio da poesia iconoclasta. Crie suas próprias regras, explore os significados e belezas das palavras de um jeito que ninguém fez antes. A primeira vez que isso aconteceu foi no Romantismo, o primeiro movimento literário que direciona a poesia erudita para a representação do gosto da burguesia. Uma nova classe é a elite intelectual, novas formas para representá-la (até rolar um saudosismo das antigas e os burgueses quererem se mostrar tão refinados quanto os aristocratas que os antecederam — e olha daí porque os poetas do Parnasianismo, que veio logo depois do Romantismo, sofisticaram ainda mais as regras da poesia erudita. Gente complexada querendo pagar de intelectual dá nisso: poeta parnasiano com dicionário de rimas e de palavras que podem entrar num poema — e principalmente, dicionário das que não podem, porque são de “mau gosto”!).

A iconoclastia romântica foi tímida, se comparada com os iconoclastas do século XX. As melhores obras do período são aquelas que ainda seguiram fórmulas eruditas ou populares. Mas é importante lembrar que o primeiro passo foi dado por esses poetas do século XIX que se aventuraram em poemas constituídos apenas por versos brancos, por estrofes irregulares, por versos livres. Esses recursos são a primeira forma de oposição ao princípio da regularidade que regia a ideia de forma perfeita da poesia erudita. Depois vieram os experimentalismos mais revolucionários:

  • as inovações no campo do vocabulário, no que Augusto dos Anjos foi um pioneiro no Brasil, adicionando o vocabulário científico, e as palavras proibidas, porque de mau gosto, aos seus sonetos em decassílabos perfeitos. Eu nunca esquecerei o dia em que li o primeiro soneto de Augusto dos Anjos, sua obra mais popular, Versos íntimos. Foi uma sensação!
  • a criação de novas palavras através da manipulação de seus constituintes (letras e morfemas) e do jeito de escrever — confira aqui como sutilmente Drummond explorou esses recursos nesse fantástico O homem: as viagens.
  • a exploração dos aspectos visuais do texto. Aquele conceito de que poema é um texto escrito em verso não se aplica aos poetas concretistas e aos representantes da poesia visual e da poesia objeto. Muito menos os representantes da poesia digital! Confira os trabalhos de Augusto de Campos aqui (não deixe de conferir os clip-poemas também!). E aproveite também para conferir o trabalho de Arnaldo Antunes como poeta. Ele liberou em seu site um link para um resumo de seus livros e cada um disponibiliza alguns dos textos. Deles o Palavra Desordem é um dos (se não  for o) mais visuais.

Importante: um poeta iconoclasta ESCOLHE ser iconoclasta por uma opção estética. Poeta que é poeta, para quebrar regras, conhece a tradição e suas regras, mas escolhe não segui-las. Ser poeta iconoclasta não é uma questão de não saber seguir a regra, mas de achar que as tradições não dão a forma ideal para a expressão que se deseja dar à palavra. Se alguém faz poesia de qualquer jeito e diz que é iconoclasta para justificar esse qualquer jeito, não é um artista com domínio do que faz, é um mistificador, e só. Fica o alerta, porque sempre existem alguns desses espalhados por aí, e é preciso olho bem vivo para separar esse joio dos que são verdadeiramente artistas.

E sim, um poeta pode usar formas iconoclastas, eruditas e populares ao longo da sua vida. Não é comum isso acontecer, porque geralmente as pessoas têm um conceito de belo que acabaria se chocando com uma das formas, em algum momento. Mas não há nada que impeça isso.

Eu demoro, mas quando chego venho cheia de coisas para escrever aqui né? Mas por hoje acabou. Estudem aí que eu vou estudar cá — 70 páginas (num original em inglês) de uma análise de Edgar Allan Poe. Beijinhos!

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6 comentários sobre “A poesia clássica e a poesia iconoclasta

  1. Bianca Campello,

    Li o seu texto. As bases referentes ao Poema Visual passam por inúmeras fases, entre as quais e a mais importante, o Poema/Processo com Wlademir Dias-Pino e outros grandes nomes, em 1969. Daí chegamos ao Poema Visual, por volta de 1972 e sua evolução até os dias atuais.
    Temos um sítio na internet : http://www.poemavisual.com.br
    Ali está um número representativo do Poema Visual, desde os primeiros poetas do início da década de 1970, até aqueles que aderem até hoje à essa manifestação experimental.
    Sucesso em seu mestrado.

    • Hugo,

      Obrigada pela visita e pela contribuição! Vou adicionar o link ao espaço de vocês na lista dos sites. Espero que as razões de minha vida (sim, meus alunos, vocês são uma boa parte da razão de minha vida!) explorem bastante o espaço de vocês!

  2. “Um poeta erudito pode fazer um texto sobre o sertão e nele mencionar o vaqueiro ou até Lampião. Mas um poeta popular (popular mesmo, de origem) falar em Musas, em Apolo, Diana, Júpiter, taí algo praticamente impossível de se encontrar. Eu não conheceço nenhum caso.”

    Peço licença pra mostrar um:

    Latona, Cibele, Reia
    Íris, Vulcano, Netuno
    Minerva, Diana, Juno
    Anftrite, Androcleia
    Vênus, Climene, Amalteia
    Plutão, Mercúrio, Teseu
    Júpiter, Zoilo, Perseu
    Apolo, Ceres, Pandora
    Inácio, desata agora
    o nó que Romano deu

    Romano Caluete (ou Romano de Mãe D’água) viveu nos idos da primeira metade do século XIX e travou, com Inácio da Catingueira, a famosa “Peleja da Fundação” (por ser uma das primeiras de que se tem registro), em 1870, na então Vila de Patos (hoje Município de Patos), Estado da Paraíba.
    Um doido!

    Parabéns pela iniciativa e um grande e fraterno abraço.
    Lindoaldo

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