Barroco – temas, textos e gabaritos

Hello,

É, não deu para postar ontem. Mas hoje concluimos essa parte inicial da nossa revisão. Inicial, porque, por enquanto, não vamos evidenciar tanto assim nos nossos dois autores, Vieira e Gregório. Isso são cenas dos próximos capítulos.

Num comentário da postagem anterior, Aline me perguntou se a temática da morte que é o eixo central de As intermitências da morte pode ser visto como um diálogo deste livro com o Barroco. Pode sim, pois a efemeridade da vida humana é uma temática central para os autores deste período. Nós vimos isto nos vários poemas da ficha 9, que trabalhamos em sala de aula (por sinal, para quem não pegou o gabarito da questão de vestibular, a resposta é C).

A morte, por sinal, é um tema muito constante na história da literatura. O medo de morrer, o desejo de morrer foi muito evocado pelos poetas românticos do século XIX e pelos simbolistas da transição para o século XX (veja um exemplo aqui e outro aqui). A morte é abordada de maneira extremamente bem humorada por Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, com seu defunto-autor que se sente livre, finalmente, para ser absolutamente sincero, já que a morte o deixa situado à parte das convenções sociais. E está aí, ela, de novo, em As intermitências.

Sabendo disso, você, sabiamente, pergunta: “Como reconhecer, então, que este tema está sendo tratado em um poema barroco e não em poemas de outros períodos literários?

Existem dois elementos que dão contornos específicos a essa temática. Um está na angústia por reconhecer o ser humano — veja, O ser humano, a espécie humana — como um ser limitado e frágil, impotente diante da passagem do tempo e da morte. A angústia pela morte, em outros tempos, está muito mais no plano individual, como exemplificam os dois poemas linkados acima. O poeta romântico lamenta a própria morte, o fim da sua experiência na terra e questiona o estado do mundo após sua partida. O poeta barroco universaliza a experiência da morte, apresentando-a como algo a que todos estão destinados, sem particularizar a experiência.

O outro elemento que deixa bastante claro que a abordagem do tema é feita em uma obra barroca está no plano da linguagem. Além dos contornos temáticos apresentados acima, a literatura barroca tem características que são específicas: a linguagem complexa, rebuscada, o uso das antíteses e dos paradoxos, a busca por imagens poéticas inovadoras, o uso do paralelismo como recurso estilístico frequente e, no caso deste tema, a preferência pelo soneto, entendido como uma forma poética adequada para temas graves e uma postura lírica compenetrada.

Não entendeu? Vamos a exemplos textuais que vão se somar aos da ficha 9.

À fragilidade da vida humana
Francisco de Vasconcelos

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em Vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baixel,
para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Este soneto de Francisco de Vasconcelos pauta-se, como no À morte de F. (primeiro soneto da ficha 9, do mesmo autor, e que já está analisado em um post antigo aqui no blog procurem os arquivos), na oposição antes × depois, vivo × morto. Aqui esta oposição foi feita de forma mais simples: ele escolheu nos quartetos denominar a metáfora para o ser humano morto, derrotado nos versos ímpares e nos pares mostrar como ele era antes, acumulando com isso mais uma metáfora. Assim, o barco (baixel) derrotado era um Narciso (personagem da mitologia grega que simboliza a vaidade humana) convencido; o sol apagado (o farol que está escurecido) era a beleza do monte, a elegância do prado; a rosa que murchou era um pavão vistoso e belo na primavera (Abril); o período de extrema seca (tão seco que parece ser incendiado pelo vulcão do monte Vesúvio) foi um período de ventos (Zéfiro), de temperatura amena.

Observe que, seguindo o mesmo esquema do soneto que estudamos em sala, Francisco de Vasconcelos primeiro enumerou as metáforas, nos quartetos, reservando para os tercetos as considerações filosóficas sobre elas. Assim, ele retoma, nos tercetos, o que significa cada um dos símbolos anteriores e suas antíteses de forma mais direta (“Se a nau, o Sol, a rosa, a primavera / Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel“). Repare que esta retomada foi feita em ordem paralelística, o primeiro elemento de uma lista correspondendo respectivamente  ao da outra. No último terceto ele envolve o leitor no tema, mostrando a universalidade da experiência da finitude humana. Por sinal, na retomada final das referências, há uma pequena troca na ordem dos elementos negativos da condição humana (para haver paralelismo perfeito ele deveria ter posicionado incêndio antes de eclipse).

Esta temática da efemeridade da condição humana é um eixo central da poesia lírica barroca, que desaguou em três vertentes principais: a lírica amorosa, a lírica filosófica e a lírica religiosa. A efemeridade da vida corresponde à temática da lírica filosófica. O tema pode se apresentar tratando da condição humana como um todo ou da vaidade e dos desejos e sonhos humanos (sentimentos abordados de maneira universal, referentes a todos os seres humanos).

Em termos de poesia lírica amorosa, o Barroco vai se centrar principalmente no lamento pela impossibilidade de concretização amorosa, seja porque o amor é vivenciado de forma platônica, seja porque concretizá-lo no plano físico é condenar-se ao inferno (afinal, o sexo, no ponto de vista religioso extremista da época, é considerado pecaminoso). Tanto é assim que Ana Miranda põe na boca de Gregório de Matos em seu romance histórico Boca do Inferno (vejam a ficha 8) aquilo que era consenso na época — e que com muito humor pode ter sido muitas vezes repetido, realmente, pelo poeta baiano — : “Demônios sois vós, mulheres“. Não é à toa que o amor na poesia do Classicismo e do Barroco será paradoxalmente uma doce tirania: a satisfação do desejo ou a satisfação do sentimento platônico são vivenciadas tanto quanto o remorso por sucumbir ao plano carnal e a frustração por não ter o amor vivido além das fantasias. Por isso mesmo as mulheres barrocas são santas, princesas mas também podem ser bruxas ou ainda anjos tentadores, como declara Gregório de Matos  neste famosíssimo soneto.

Tá, vocês querem exemplos… Um exemplo da primeira atitude amorosa, a da lamentação pela impossibilidade de concretização do amor, está no soneto abaixo.

A um rouxinol cantando
Francisco de Vasconcelos

Ramalhete animado, flor do vento,
Que alegremente teus ciúmes choras,
Tu cantando teu mal, teu mal melhoras,
Eu chorando meu mal, meu mal aumento.

Eu digo a minha dor ao sofrimento,
Tu cantas teu pesar, a quem namoras,
Tu esperas o bem todas as horas,
Eu temo qualquer mal todo o momento.

Ambos agora estamos padecendo
Por decreto cruel do Deus Menino;
Mas eu padeço mais, só porque entendo.

Que é tão duro, e cruel o meu destino,
Que tu choras o mal, que estás sofrendo,
Eu choro o mal, que sofro, e que imagino.

Neste soneto, muito mimosamente o eu lírico se compara a um rouxinol, referência poética muito comum, não só por que seu canto é muito melodioso, mas, principalmente, porque geralmente o rouxinol fica escondido pela vegetação quando canta. Além disto, o rouxinol é um pássaro solitário, simbolizando, então, a timidez.

A analogia, no poema, serve para demarcar as diferenças (para não variar) entre os objetos associados (o eu lírico e o rouxinol). Se em comum o que os dois têm é o uso de sua arte para conquistar a amada (o canto do rouxinol e o canto do eu lírico — sua poesia), o que os diferencia é que o rouxinol usa o canto para conquistar a parceira, tem esperanças de se livrar da solidão, o que alivia o sofrimento. O eu lírico, pelo contrário, ao usar seu canto (a poesia) não tem esperanças, e sofre mais ainda, pois espera sempre o mal — provavelmente a rejeição, já que, no fim do texto, o eu lírico afirma que chora o mal que sofre e um outro, o que imagina.

Bianca, como você tem certeza de que o tema deste texto é amoroso? Não há a presença da palavra amor, amada, nem nome de mulher no texto!

Boa pergunta, pequeno gafanhoto. Há outras duas referências neste texto que assinalam com clareza a temática amorosa. Veja a palavra namoras (segundo verso da segunda estrofe), que tem o sentido de sentir paixão (não é um namorar de relacionamento ainda). Além dela observe a referência Deus Menino (segundo verso da terceira estrofe). O Deus Menino na mitologia greco-romana é Eros ou Cupido, o deus do amor que decreta cruelmente que as pessoas devem se apaixonar, flechando-as no coração. Aqui (e no Zéfiro do poema anterior) se faz sentir a influência da poesia do Classicismo, que gostava muito de fazer referência à mitologia greco-latina. Como vimos na questão 4 da ficha 10 (cujo gabarito é E) o homem barroco se sente dividido entre a cultura antropocêntrica do Renascimento (e o semipaganismo que acompanha essa noção antropocêntrica) e a cultura teocêntrica e cristã da Idade Média. Daí que os motivos e referências mitológicos ainda existem na arte Barroca, embora venham em muito menor número que os religiosos.

Assim como a temática da efemeridade humana não é exclusiva do Barroco, o amor irrealizável também não é. Basta ler ou ouvir Certas coisas, de Lulu Santos, que está na ficha 8 (link no post anterior) que vemos um autor contemporâneo criar um eu lírico que prefere manter seu amor não anunciado, justificando seu comportamento contraditório através da demonstração de que tudo, na vida, é contraditório.

A temática religiosa, por fim, vai ser desenvolvida principalmente de duas formas. Alguns textos, como o poema de Gregório de Matos Ao Santíssimo Sacramento Estando para Comungar (ficha 8), discorrem sobre a incapacidade do homem de compreender as vontades de Deus. Neste poema, especificamente, podemos ver que o autor preferiu usar um modelo medieval de poesia (ele abandonou a estrofação do soneto e a metrificação no verso decassílabo, optando por uma única estrofe e a métrica da redondilha) para se referir ao mistério da comunhão católica na missa (comer o pão e beber o sangue são referências diretas ao corpo e sangue de Cristo) e o que ela representa: o perdão aos arrependidos que têm o coração puro e à condenação à alma dos demais. O poema, assim, acaba destacando o caráter pecador do homem e seu desejo de unir-se a Deus. De uma maneira geral, nos poemas religiosos barrocos este perdão dos pecados pode advir ou da capacidade infinita de Deus perdoar o homem ou da remissão do ser humano através do sofrimento.

E os textos do Padre Vieira, Bianca, como ficam nesta temática religiosa?

Outra ótima pergunta. Ficam assim… Lembrando que o que Vieira escreve não pode ser considerado literatura propriamente dita (são textos de caráter persuasivo, em que se visa, através da presença de argumentos, convencer a plateia a agir ou pensar de determinada maneira — tanto é assim que Vieira usa o elemento mais clássico da função conativa da linguagem, o verbo no imperativo), embora seus textos sejam carregados de literariedade, o tratamento dado ao homem em face à religião é a de um pecador que deve rever seu comportamento como forma de alcançar a Deus. É justamente para isso que serve o sermão na sociedade do século XVII e na atual: doutrinar os fiéis, conduzindo-os para o comportamento adequado em seu cotidiano. O sofrimento humano, seja dos escravos dos engenhos (tema dos sermões de série Maria Rosa Mística e alvo da questão 1 da ficha 10 — gabarito C), seja de grandes figuras da sociedade, é sempre percebido como uma forma de vivência da fé. O bom cristão aceita o sofrimento como um desígnio de Deus e uma provação que, se cumprida adequadamente, é um sinal de que a alma terá sua salvação.

É claro que não é apenas o sofrimento da vida humana que é abordado nos textos de Vieira. O comportamento humano como um todo foi tematizado por ele, desde a cobiça e a ambição (tema da questão 5, ficha 10 — gabarito E), até a ação dos próprios missionários. Este último caso, por sinal, é o assunto do famosíssimo Sermão da Sexagésima, do qual se extraiu o excerto das questões 2 e 3 da ficha 10). Note que o fazer fruto, ou seja, fazer efeito da pregação religiosa (pregar a palavra de Deus) é o tema focalizado neste sermão, no qual Vieira vai condenar o cultismo (segundo ele os padres que usavam este estilo enfeitavam tanto o discurso que as pessoas se maravilhavam com a oratória do padre e esqueciam do conteúdo do texto). No trecho que lemos pudemos perceber que, mesmo fazendo esta condenação, Vieira não abandona a estética do texto, trabalhando, por exemplo, com a sutileza da diferença entre pregador e o que prega. Através da reiteração de exemplos (semeador × o que semeia, soldado × o que peleja, governador × o que governa), recurso típico de Vieira, ele usa do recurso cultista para chegar a um efeito conceptista: a sutileza do raciocínio de que a ação é que define as pessoas e não o título que recebem na sociedade.

Para terminarmos essa revisão, um alerta importante. A angústia existencial típica da poesia barroca diante da efemeridade da vida, da frustração amorosa ou do temor pela divindade desaparecem na prosa doutrinária de Vieira. Como padre contrarreformista, Vieira não tem motivos para se sentir dividido entre o plano espiritual e o plano carnal. Ele já optou pela espiritualidade ao escolher ser um padre e seus textos vão refletir esta escolha, sinalizando sempre para aquilo que é ligado ao divino.

Por hoje deu. Boa noite pr’ocês, amanhã a gente se vê. E para quem eu não encontrar antes, boa prova!

Beijinhos!

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12 thoughts on “Barroco – temas, textos e gabaritos

  1. Biaaaaaaaaaaaaanca :)
    Posta pelo amor de deus o gabarito da prova pq eu achei muito facil e to com medo disso :x HAUAHAUHAUA
    ;*

    • Vanessa,

      Como fonte de questões eu recomendo você pesquisar nos sites que divulgam provas de vestibular. Dá para montar uma boa biblioteca.

    • Lucas,

      Para se fazer um texto barroco duas coisas são indispensáveis: o uso de antíteses e de paradoxos. É preciso escolher um tema que pode ser visto de maneira ambígua, dualista, e discutir os pontos contrários deste tema.

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