Gêneros Literários – da teoria à prática

Como eu prometi para vocês, vou hoje deixar um post com análises mais práticas dos gêneros literários e com o gabarito das questões da ficha 5 e da ficha 6. Uma boa forma de revisar para a prova, não é?

Temos discutido essa compreensão da literatura em três gêneros, três modos de expressão, e vimos que eles não são suficientes para abarcar todo o fenômeno literário. No mínimo, de imediato, temos que pensar em um quarto gênero, o narrativo, e em breve lidaremos muito com o gênero satírico (que hoje se mantém como uma atitude em textos de gêneros diversos, mas que não se sustenta mais como um gênero autônomo).

A primeira coisa que vocês não podem esquecer nunca, nunquinha mesmo, quando forem classificar um gênero literário é que gênero literário é uma coisa e gênero textual é outra. Os gêneros textuais analisam a estrutura e a função que um determinado tipo de texto exerce numa sociedade. São gêneros textuais a bula de remédio, o artigo de opinião, o outdoor, o anúncio publicitário… Os gêneros literários referem-se particularmente ao universo da literatura. Portanto, fazem parte de um conjunto maior (o dos gêneros textuais), mas são uma forma bem particularizada deles. Existem crônicas que são literárias e crônicas que não são. Para ficar mais fácil, pegue um papel e vamos a uma teoria básica de conjuntos. Desenhe um círculo grande e adicione a legenda: gêneros textuais. Agora desenhe um círculo menor dentro do grande e coloque a segunda legenda: gêneros literários. Todos os gêneros literários são gêneros de texto (fica bem óbvio agora), mas o contrário não é verdade.

Segunda coisa a ficar bem clara: os gêneros literários não estão ligados às formas literárias — ou seja, o verso e a prosa. Todos os três gêneros podem ser escritos em prosa e todos os três podem ser escritos em verso. É claro que é mais comum pensarmos num gênero, como o lírico, escrito em verso, mas o mais comum não torna a forma em prosa impossível. Confira isto num trecho de Água Viva, de Clarice Lispector, um texto particularmente desafiador para a classificação nos quatro gêneros (contando com o narrativo).

Muita coisa não posso te contar. Não vou ser autobiográfica. Quero ser “bio”.

Escrevo ao correr as palavras

Antes do aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto senão refletido nas águas de um lago. Depois de certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre. Nem nunca haverá. Nunca é o impossível. Gosto de nunca. Também gosto de sempre. Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente?

No fundo de tudo há  a aleluia.

Este instante é. Você que me lê é.

Custa-me crer que eu morra. Pois estou borbulhante numa frescura frígida. Minha vida vai ser longuíssima porque cada instante é. A impressão é que estou por nascer e não consigo.

Sou um coração batendo no mundo.

Você que me lê que me ajude a nascer.

Notaram a relevância do eu falando sobre si próprio, suas impressões e percepções sobre o mundo? O gênero lírico é então bem evidente em estrutura (a narrativa simples, sobre si mesmo) e em conteúdo. Porém, tecnicamente, temos uma narração envolvendo o geral do livro, pois há um relato da vivência de uma passagem de tempo pela narradora que é personagem (e a única do livro, além do leitor a quem ela se dirige), que é uma pintora. Segundo ela (a narradora-personagem), o que ela vive é uma espécie de crise existencial de fim de semana. Este livro curtíssimo (87 páginas apenas) é uma das leituras mais desafiadoras que eu já enfrentei em toda minha vida de leitura. Para vocês, por enquanto, eu recomendo os contos de Clarice (os de Felicidade Clandestina são maravilhosos!). Daqui a uns dois, três anos, quem quiser encarar o Everest que é Água Viva, vá em frente. Eu vou ficar torcendo!

Então, para martelar mais um pouquinho e ninguém esquecer: os gêneros não estão atrelados às formas!

É por isso que na ficha 5, temos em verso tanto textos de caráter lírico (aqueles estruturados no relato do eu — os textos 1, 6, 7 e 8 ) como de textos de caráter épico (aqueles estruturados na narração que contém ações de personagens — em verso o texto 5, e em prosa o texto 3). E os textos dramáticos (estruturados para a representação por atores, contendo, para isso, apenas os diálogos dos personagens e as rubricas — textos 2 e 10), que estão escritos em prosa (como também estão os texto 3, 4 e 9), poderiam muito bem estar escritos em verso — lembram do Auto de São Lourenço?

Aí você, observador como é, a essa altura, pergunta: “Bianca, os textos 4 e 9 você identificou que foram escritos em prosa. Mas não disse a que gênero pertencem!

Disse mesmo não pessoa, porque nós vimos a classificação em três gêneros, e os textos 4 e 9, apropriadamente, pertencem a um não previsto por Platão e Aristóteles: o narrativo. O lindo conto de Marina Colassanti, A moça tecelã — confira aqui, não pode se encaixar no gênero épico, embora se estruture da mesma forma, porque o conteúdo não é o mesmo: a narrativa de uma grande batalha, relevante para a história e a identidade de um povo. Nestes textos os heróis são sempre clássicos: perfeitos, não titubeiam em cumprir sua missão (Lêonidas, de 300, Super-homem, Moisés, depois de descobrir seu destino, Chuck Norris, em quase todos os filmes em que defende o ideal americano das ameaças estrangeiras). Por isso que, com o tempo, foi necessária a criação de um quarto gênero: o conteúdo das narrativas se ampliou muito e as histórias e os heróis passam a representar coisas mais próximas do cotidiano e das pessoas comuns, com dúvidas, ansiedades e mobilizações mais pessoais do que sociais (e aí temos os grandes heróis contemporâneos de maior sucesso nos blockbusters — Wolverine, Batman e Homem-Aranha, todos motivados por necessidades pessoais ou em conflito entre suas vontades pessoais e suas obrigações sociais. Bem que o cabeça de teia deseja deletar a frase de tio Ben da memória!).

O texto 9 é mais complicadinho de classificar, pela originalidade encontrada pelo autor para estruturar o trecho que lemos. É nele que vemos se aplicar perfeitamente uma concepção do crítico literário norte-americano Ezra Pound. Pound diz que “Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado no mais alto grau possível“. É o que acontece no texto 10, o Capítulo do Velho Diálogo de Adão e Eva. Eita que Machado é … é Machado! Com apenas sinais de pontuação, um título e o nome dos personagens ele consegue construir um discurso carregado de ironia e de malícia. Ele não precisa escrever o que Brás Cubas e Virgília conversam através de palavras. Fica implícito em toda situação que envolve os personagens (sim de Memórias Póstumas de Brás Cubas — você ainda vai ler este clássico!): um casal de amantes (ela é casada) que se encontra furtivamente para… Ora, para fazer o que Adão e Eva faziam! E não, não é ficar de conversinha para nomear os bichos. Adão fez isso sozinho. Junto com Eva ele tem coisa muito mais interessante, do ponto de vista prático, do que dar nomes às coisas: sexo, claro! Afinal, foram eles que descobriram o pecado inicial, que se vai convencionar como sendo o pecado da carne.

Como perceber que este texto é em prosa, se ele só tem diálogos? Porque não há uma unidade rítmica no texto (ponto necessário para a estrutura em verso). Sem palavras, sem ritmo. Além disto, um poema é dividido em cantos, uma narração em prosa em capítulos, e um texto dramático em atos.

E o conteúdo dos outros gêneros? O do lírico é o olhar, a percepção pessoal sobre o mundo (geralmente expressa de forma subjetiva, com um eu claro, mas que vimos que pode não ser deste jeito). O do dramático, na época de Platão e Aristóteles estava ligado aos conteúdos dos dois sbugêneros conhecidos até então: os acontecimentos trágicos e funestos, ligados ao destino (conteúdo da tragédia) e os acontecimentos alegres, imbuídos de certa crítica social (conteúdo da comédia). Hoje, os conteúdos são tão variados quanto os do gênero narrativo. Se lembrarmos que o gênero dramático contemporaneamente se realiza não apenas no teatro, mas também no cinema e na televisão, vemos que as possibilidades são praticamente infinitas.

E quanto ao conteúdo dos textos da ficha 5, como é que podemos classificar?“, você fica aí pensando. Basta encontrar a temática deles. Os textos 3 e 5, como já vimos que são épicos, sabemos que tematizam grandes batalhas. Os textos 1, 6, 7 e 8 são líricos, então fica bem fácil de definir também.  O desafio fica justamente nos dois gêneros que têm mais pluralidade temática, o narrativo e o dramático. O interessante é que cada gênero tem um texto sobre um dos temas: o 2 (exerto de O santo e a porca, peça de Ariano Suassuna) e o 4 falam sobre a ganância humana. O 9 e o 10 (excerto de Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri) sobre relacionamentos humanos.

Tivemos nestes textos da ficha 5 textos puros, fáceis de classificar. Com o Drama de Angélica, na ficha 6, a coisa é mais complicada. O texto é uma canção — confira aqui — (pela necessidade de ritmo é um poema, por isso está em verso), tem atos (estrutura do texto dramático) e um narrador (coisa de texto épico ou narrativo). Esta estrutura narrativa em verso, por sinal, é ressaltada na segunda estrofe: o adjetivo épica anuncia que há um caráter narrativo no texto e que seu conteúdo é importantíssimo para o narrador (e só para ele, no caso), enquanto os substantivos poesia, métrica e rima denotam para nós a forma em verso usada para a canção. Portanto, é um texto híbrido, e para classificá-lo temos que considerar o que vai predominar nele: a estrutura em atos ou a presença do narrador. Como se retirarmos a divisão dos atos não há um prejuízo tão grande para a obra, temos nele um texto predominantemente narrativo, ok?

Um elemento interessantíssimo de O drama de Angélica é a complexidade do vocabulário, da escolha feita pelos autores para o esquema de rimas do texto e as referências culturais nele feita (principalmente quando sabemos que a canção é uma toada sertaneja de 1943). Todas as rimas do texto são proparoxítonas, feito dificílimo e conseguido graças à esperteza e domínio artístico dos dois autores: ritmo, maligna, perplexo e convexo, as únicas palavras que não são gramaticalmente proparoxítonas, tornam-se, na fala, proparoxítonas. Veja que na fala elas são pronunciadas como “rítimo”, “malíguina”, “perpléquisso” e “convéquisso. Os encontros consonantais tm e gn e o som do x provocam na fala uma sílaba não prevista na escrita. Danados esses autores!

Danados e versados! As referências a Os Lusíadas e à beleza helênica de Angélica mostram-nos um conhecimento deles da cultura clássica. Beleza helênica é a fantástica beleza de Helena de Esparta, a mulher que mobilizou a guerra de Tróia. E os autores sabem que Os Lusíadas são “coisa metódica“. E são. Além daquele pequeno detalhe da métrica decassílaba nos 8.816 versos, tem mais uma: os tais 8.816 versos são TODOS organizados em estrofes de 8 versos — que chamamos de oitava. E não em qualquer oitava: em oitava real, o que significa que TODAS as 1.102 estrofes de Os Lusíadas rimam exatamente do mesmo jeito ABABABCC.

Não entendeu o jeito? Olha aqui:

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Metódico mesmo, né? E esse modelo foi imitadíssimo por muito tempo, pois foi e é considerado um exemplo de máximo domínio técnico da arte poética. Não é à toa que sobrevive e fascina leitores em todo mundo nos últimos 500 anos.

É isso povo. Beijinhos, estudem e boa prova!

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5 thoughts on “Gêneros Literários – da teoria à prática

  1. muito legal mas esta faltando alguns conteudos mas fora isso ta bom de maisn

    parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Adorei a explicação.Li todos os textos indicados com o link, e com certeza me ajudou a aprender mais sobre gêneros literários e ver com um olhar mais crítico!

  3. aonde eu encontro esses textos de todas essas fichas? =D

    Adoreeii tudo ai, parabéns, esse site vai ser uma boa base pro meu objetivo!

    beeijoo ;*

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