Anchieta e O auto de São Lourenço – literatura a serviço da religião

No post passado eu trouxe para vocês algumas informações básicas sobre o Pe. José de Anchieta, sua biografia, produção escrita e sobre o Auto de São Lourenço, especificamente, dentro desta produção. Hoje vamos continuar no mesmo tema, com alguns aprofundamentos.

O Auto de São Lourenço é uma das oito peças conhecidas de Anchieta. Além dele o autor também produziu Quando, no Espírito Santo, se recebeu uma relíquia das Onze Mil Virgens (em português), Dia da Assunção, quando levaram sua imagem a Retiriba (em tupi – a imagem é a imagem de Nossa Senhora da Assunção), Na Festa de Natal (em tupi, português e espanhol – é uma adaptação do Auto de São Lourenço, que mantém os personagens e o conflito principal, mas muda o argumento), Na vila de Vitória (em português e espanhol) , Recebimento que fizeram os índios de Guaraparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte (em português e tupi), Na Aldeia de Guaraparim (em tupi) e Na Visitação de Santa Isabel (em espanhol). De um outro texto, o Auto da Pregação Universal (em português e tupi), sobreviveram ao tempo apenas fragmentos.

A escolha dos idiomas usados para a composição destas obras não é um acaso. Aquelas que se destinaram aos grupos indígenas (sendo, para isso, escritas em tupi — algumas com versos em guarani também) têm uma orientação catequética muito mais evidente, situada, muitas vezes, em primeiro plano na obra. As demais, produzidas em espanhol e português, apenas, desenvolveram mais plenamente o prazer estético, visto que mesmo tendo um compromisso religioso, são textos que se dirigem para um público que compartilha da mesma herança cultural e visão religiosa do autor.

Esta disposição da arte a serviço da religião é muitas vezes limitadora na obra de Anchieta. O grande crítico literário Massaud de Moisés em seu História da Literatura Brasileira (Cultrix, 1997, v.1, pp. 35 e pp. 37) destaca que a poesia é reduzida como mero instrumento de expressão de trabalhos missionários em sua obra de catequese — aquela que notadamente vai ser produzida em tupi e que se constitui não apenas dos autos mas também de alguns poemas (18 dos 73 que são conhecidos). Moisés também considera que, embora esses textos em línguas indígenas tenham grande importância histórica e etnográfica, não são significativos para a literatura brasileira, visto que não têm com ela a identidade do meio de expressão primário, que é o idioma.

Eu, particularmente, devo discordar do grande teórico que é Massaud de Moisés. Se não há uma língua brasileira propriamente dita, mas um português (ou vários :P) do Brasil, em cuja formação as línguas indígenas têm papel importante, estas obras devem ser consideradas, sim, parte integrante do nosso tesouro literário — ainda que seja necessária para o público brasileiro a tradução linguística. Além disto, no contexto de produção, são estes textos que mais diziam respeito à realidade do que vai ser nossa nação, juntamente com os produzidos em português, evidentemente.

Bianca, os outros textos, em espanhol e latim, como é que fica?

Não fica, minha flor, meu anjo. Ou melhor, fica, tecnicamente, no âmbito da literatura em língua espanhola e na literatura em língua latina. Veja: em língua. Não dá para falar em literatura latina no sentido de do império romano em pleno século XVI né?

Voltemos então a nos concentrar especificamente no Auto de São Lourenço . Por que ele é tão importante a ponto de fazer a UPE querer torturar tanto vocês assim fazendo-os ler a peça completa?

Ah, não é tão tortura assim, vai. O problema do texto, para nós, é o vocabulário, com muitas expressões em tupi e que não são dicionarizadas. Não fosse isso, seria um texto bem legal sim!

E é justamente este “ser legal” que constrói a importância do texto: é a peça mais complexa, de maior qualidade, que tem mais êxito na identificação/diversão do público e, consequentemente, em sua conversão. Assim, é o exemplo mais bem sucedido que se tem do teatro de catequese, o qual, por sua vez, era o instrumento mais eficiente de conversão dos indígenas.

E porque ele é tão bem sucedido? Em decorrência da manipulação ideológica feita com perfeição por Anchieta, um mestre no uso dos recursos disponibilizados pelo teatro medieval.

O primeiro fator é a língua. A pluralidade linguística do auto permitiu que Anchieta escolhesse que língua vai ser falada por que tipo de personagem. O segundo é o maniqueísmo. Com a divisão dos personagens em tipos, Anchieta deixa claros os limites entre bem e mal. Escolhendo para cada um dos lados da batalha uma língua, Anchieta, simbolicamente, cria uma ideia de língua do bem (ou línguas do bem, no caso) e língua do mal. E adivinha qual é a língua do bem? Aliás, quais são. Claro, o português e o espanhol. E para o papel de língua do mal — aquela falada pelos personagens do mal, os demônios — resta o tupi (maior representante da cultura indígena) e os dois únicos versos em guarani.

Unindo o fator 1 ao fator 2, temos que o sincretismo cultural, típico do teatro dirigido para a catequese indígena, nada mais é que um recurso de manipulação. Anchieta aproxima-se dos índios, linguistica e culturalmente, para que o universo teatral seja mais facilmente digerido pelo índio. Consequentemente, a absorção da ideologia eurocêntrica, que vai tachar de demoníacos elementos típicos da cultura indígena que ameaçam o colonizador: a violência, a antropofagia, as cauinadas (sempre associadas às duas primeiras ações). Em menor escala, na peça, é reprovado também um outro comportamento, o qual não ameaça a integridade física dos portugueses, mas sua integridade moral: a liberdade sexual.

São estes elementos os mais discutidos na peça, principalmente no segundo ato, em que se desenrola o confronto entre os demônios e os santos e o anjo. Praticamente todo o conflito central da peça se define e se resolve nesta etapa do texto, sendo o restante da ação formado por uma espécie de epílogo, que vai demonstrar o que acontece com aqueles que vão contra a vontade divina (o fim dos imperadores romanos, sufocados pelos demônios, por ordem de Deus transmitida pelo anjo), evento narrativo que é reforçado pela apresentação dos dois personagens alegóricos da obra: o Amor e o Temor de Deus. Os dois surgem no quarto ato do texto com uma única finalidade: dirigir-se à plateia para fazer uma palestra do que se deve e não se deve fazer por amor e por temor a Deus e como devem buscar a proteção de São Lourenço (protetor da aldeia) e São Sebastião (santo padroeiro do Rio de Janeiro).

Este plano para a aculturação indígena não fica restrito, no entanto, apenas às entrelinhas simbólicas dos texto. Elementos muito superficiais são usados para se atingir este objetivo. Anchieta faz verdadeiras listas de tribos indígenas que são influenciadas pelos demônios, todas elas inimigas dos índios tupis aos quais o texto se dirige. Os nomes dos vilões correspondem a personagens da Confederação dos Tamoios (caso de Guaixará e de Aimbirê) . Os ajudantes dos demônios são identificados como animais perigosos, nojentos, peçonhentos, que são usados também para descrever os demônios. E, para completar a questão política da peça, muitas vezes afirma-se que as tribos sujeitas à influência demoníaca são as aliadas dos franceses (os tamoios, principalmente), inimigos diretos dos portugueses naquele momento da colonização (havia grande disputa de terras entre eles — o governo francês não reconhecia a divisão do Novo Mundo apenas entre Espanha e Portugal —, principalmente na região do Rio de Janeiro).

Entendem agora a que os críticos se referem quando falam da complexidade do Auto de São Lourenço? É um texto de tipo Shrek: ele tem várias camadas. Portanto, é um texto literário (embora haja toda a polêmica em decorrência de seu caráter persuasivo): é um texto carregado de significados.

Próximo post: Gêneros literários! Aguardem!!

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6 thoughts on “Anchieta e O auto de São Lourenço – literatura a serviço da religião

  1. Professora! Nos disponibiliza o q é q vai cair (as páginas) da prova no SL sábado, pls!

  2. Olá professora Bianca,
    Estou no último período de letras produzindo meu trabalhoa acadêmico que diz respeito à literatura. Vou falar da influência da canção do exílio que aliada ao movimento romântico produziu um mito nacionalista que até hoje se reflete no imaginário cultural brasileiro. Mas antes de chegar ao cerne da questão do meu trabalho estou fazendo um resgate histórico da produção literária (ou não) no Brasil desde a Carta de Caminha até os precursores do romantismo. Vejo suas postagens aqui e gostaria de um auxílio bibliográfico principalmente com relação ao período da história da literatura brasileira que compreende 1500 a 1601.

  3. Olá, Professora Bianca. Meu nome é Daniele Ribeiro. Moro em Minas e leciono aqui Literatura para alunos do Ensino Fundamental e primeiro ano do Ensino Médio. Amei seu blog.Tenho dado sempre uma olhadinha nos textos que você posta aqui. Fique com Deus. Até mais!

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