Gabaritos 2009 – Ficha 2

Neste material sobre a literariedade textual e a presença da função poética da linguagem, vimos em sala (e revisamos aqui) que a criação literária se faz sentir principalmente na superfície do texto, com o uso de uma linguagem criativa, inovadora, conotativa. Principalmente, mas não só, pois a criação no campo do imaginário também é uma premissa do texto literário.

Por isso mesmo, podemos identificar, na questão 1, que os textos A e D são textos utilitários, isto é, não-literários. No texto D não há qualquer preocupação com os efeitos estéticos da mensagem, apenas com sua clareza, concisão e coerência. Já no texto A, embora exista um trabalho conotativo da linguagem em expressões como “O contraste entre o sofrimento e a alegria, entre a adversidade e a felicidade(em que se percebe o uso da personificação – ou prosopopéia – e da antítese, respectivamente), o objetivo central do texto é informativo, explicativo – é um texto que quer ilustrar ao leitor como era o mundo há quinhentos anos.

Quando se analisam as funções da linguagem em um texto é primordial ter esta noção em foco: um texto geralmente tem mais de uma função da linguagem operando ao mesmo tempo nele. O que vai ser determinante para identificar qual função é a principal é o objetivo central do texto no seu contexto de produção. É importantíssimo levar o contexto da produção escrita em consideração porque as noções de como se deve escrever um texto de qualquer gênero ou tipologia são suscitíveis às transformações sociais e à passagem do tempo, ao suporte textual (papel de carta, outdoor, filme, meio eletrônico) e à relação social entre os interlocutores. Uma carta de uma namorada ao amado produzida no século XVII e outra no século XX têm tanta diferença entre si quanto uma reportagem produzida para o jornal e uma, de um mesmo autor, sobre o mesmo tema, produzida para um telejornal ou um jornal eletrônico.

Os textos B, C e E são os textos literários expostos na questão. O texto B tem sua literariedade bastante explícita em decorrência do uso dos versos. Geralmente a literariedade nos poemas é reconhecida de forma mais fácil, justamente porque a estrutura textual já trabalha claramente com recursos estéticos facilmente identificáveis, como a rima (que no texto é externa – trás, mais, sinais, animais – e interna – rumo e prumo, no segundo verso). Além disso, de uma maneira geral já se espera do poema um uso das figuras de linguagem, que são, como vimos, as principais responsáveis pela conotação que caracteriza a linguagem poética. No caso do texto temos antítese (primeira verso) e metáfora (terceiro e quarto versos) sendo usadas de forma bastante óbvia.

Entra fundo musical incidente: é a chamada do plantão jonalístico. Depois de alguns segundos de música tensa, anuncia a voz do locutor.

LOCUTOR: INTERROMPEMOS ESSE POST PARA UM ALERTA EXTRAODINÁRIO. DENTRO DE INSTANTES SEGUIREMOS COM A NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL.

Um alerta sobre a literariedade em poemas: nem sempre a conotação, a simbologia da linguagem é conseguida através do uso das figuras de linguagem. Principalmente depois da década de 60 instaurou-se uma tradição poética que procura criar os efeitos estéticos da linguagem através do uso de recursos gráficos, como os poemas abaixo demonstram.

apartheid-soneto

jomard-muniz-de-britto

Jomard Muniz de Britto – poema sem título

Clichetes, Philadelpho Menezes

Clichetes – Philadelpho Menezes

Observem que o poema de Avelino de Araújo só usou palavras no título. O texto, em si, é construído na associação visual da imagem que compõe o corpo do poema com as duas palavras do título. Analisando esta combinação temos o desenho de uma cerca de arame farpado, a palavra apartheid e a palavra soneto. E a indicação do contexto histórico da produção do texto remonta ao ano de 1988. A leitura mais imediata que o texto provoca  – entre outras possíveis – é a que relembra o significado de apartheid, o regime político de segregação racial que imperou na África do Sul até os anos 90. No apartheid eram determinadas as áreas das cidades em que os negros poderiam viver e em quais eles poderia circular. Se ultrapassassem os limites estabelecidos eram violentamente reprimidos pela polícia. A palavra soneto, por sua vez, evoca a forma fixa mais clássica de poesia: o poema com 14 versos, distribuídos em duas estrofes de 4 versos (dois quartetos) e duas estrofes de 3 versos (dois tercetos). É a forma em que estão distribuídas as linhas que formam a imagem do corpo do texto. Linhas que são fios de arame farpado, objeto usado para fazer cercas que delimitam propriedades… ou que formam cercados para animais.

Com a associação da imagem do arame farpado disposto numa cerca de quatro-quatro-três-três às palavras apartheid e soneto Avelino de Araújo nos diz muito sobre o regime do apartheid: esse regime segregacionista, ao confinar seres humanos a áreas restritas, trata-os como animais. Três palavras e uma imagem foram suficientes para construir este sentido.

E o texto de Jomar Muniz, que não tem título? Não tem verso, não tem rima e nem tem ordem lógica para a disposição das palavras. O leitor tem que brincar com elas e com os espaços preenchidos em preto para recriar o sentido pretendido pelo poeta. O simbolismo gráfico, nesse caso, está em algo que não se mostra, justamente aquilo que se esconde, como uma carta virada ao contrário.

O simbolismo gráfico dos recursos visuais muitas vezes busca elementos banais do cotidiano, como uma caixa de Chicletes®, para promover a limpeza do olhar de que fala Otto Lara Resende na crônica Vista Cansada. É nele que se baseia o texto de Philadelpho Menezes. Veja que ele fez algumas poucas, mas significativas alterações, na imagem banal da caixa da conhecida marca de goma de mascar. Ela agora vira uma goma de mascarar, de sabor mental, chamada Clichetes. Algumas poucas letras marcam a substituição das palavras e promovem a alteração do sentido desgastado da imagem, renovando-o. para entendê-lo é preciso fazer a análise da palavra mais desafiadora, que ocupa o centro do texto: Clichetes. Com um pouco de conhecimento de formação das palavras percebemos que trata-se de um neologismo formado por clichê+ete+s. O sufixo ete é usado em português, junto com eta, ito e outros sufixos para formar diminutivos.

Juntando tudo temos o aproveitamento da imagem comercial de uma guloseima que consumimos cotidianamente, assim como no cotidiano mascaramos a verdade com pequenos clichês, pequenos estereótipos sobre as pessoas, as coisas que nos rodeiam. Ou vocês acham que são só os estrangeiros que têm uma visão clicherizada de nós? E que nossa sociedade não rotula facilmente as pessoas que a compõem: modelo = burra, lutador de jiu-jitsu = briguento, poeta = vagabundo, político =  ladrão, empresário bem-sucedido = porco capitalista/materialista, professor de sociologia = comunista, tatuado = marginal… É isso: clichetes, pequenas verdades que consumimos cotidianamente para mascarar a ausência de análise crítica, de independência mental.

Isso é poesia visual, ou poesia neo-concreta, produções bastante contemporâneas a nós. Fica o alerta de que nem tudo que se produz hoje de poesia visual ou neo-concreta é interessante e bom. Mas existe muita obra de valor feita desse jeito, como os poemas que eu deixei aqui. E eles são bons exemplos de que arte não é um domínio elitizado para poucos. Hoje tem gente fazendo até mais que poesia visual, tem gente produzindo muita poesia virtual interessantíssima. É só procurar!

LOCUTOR: VOLTAREMOS AGORA À NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL.

Entra fundo musical incidente.

Ok. Voltemos à terra e à primeira questão. Temos no texto B um poema de moldes tradicionais, facilmente reconhecível como literário. O texto C e o texto E foram produzidos em prosa, o que não deixa a literariedade tão óbvia quanto no texto em verso. Vamos a eles.

No texto E temos uma prosa poética em que o autor (Arnaldo Antunes) faz um exercício metafórico e sonoro. É uma prosa poética porque a criatividade lingüística deste texto é bastante elevada, não só pelo uso das metáforas mas também – uma coisa necessária para se perceber que alguém construiu um poema em prosa (depois da poesia visual, ou junto com ela, teve gente que começou a fazer poema na estrutura da prosa… mas esse assunto fica pra depois, ok?) – pelo ritmo e pela sonoridade do texto. Observe como o autor repetiu as vogais a e o e a consoante s no texto, e como isso cria uma sonoridade particular nele. Leia em voz alta que ajuda muito. Este efeito de sonoridade é conseguido através da assonância (repetição de vogais) e da aliteração (repetição de consoantes), duas figuras de linguagem.

O texto C, em que a maior parte das turmas teve alguma dificuldade para encontrar a literariedade, tem o seu discurso poético construído de forma menos evidente que o texto E por ser uma narração. Se a criatividade do discurso atinge os níveis e a frequência do texto E, a narração acabaria se perdendo. Mas a criação está lá, tanto na metáfora “A rede perdera o sentido ” e “ o mundo recomeçava ao redor“. E está no campo do imaginário, afinal temos uma personagem cujas emoções e percepções nos são apresentadas por um narrador. Este detalhe ficaria mais evidente com a contextualização do excerto: é um trecho do conto Amor, de Clarice Lispector.

Questão 1, enfim terminada. Ufa! Vamos à questão 2.

Sartre, em sua definição, restrinje o escritor de literatura àquele que se preocupa com o modo de expressar suas idéias. Esta restrição se justifica porque o texto literário é justamente aquele que enfatiza a criatividade, a inovação, a simbologia na construção do sentido. As idéias não perdem sua importância, mas o que determina o texto não é o seu conteúdo e sim a preocupação cuidadosa em expressar esse conteúdo de forma inovadora, conotativa. Isto é atingido através da ênfase na função poética da linguagem. Os textos não-literários, por sua vez, usam a linguagem de forma mais utilitária, objetiva. O foco principal é o que dizer: informações, emoções, argumentos, definições de palavras e signos lingüísticos. A plasticidade, o efeito estético do como não tem importância primordial nestes textos.

Agora passemos às questões 3 e 4, pautadas na análise do texto de Moacyr Scliar. O autor compara no texto a gaveta em que se guardam os textos à adega em que se guardam os vinhos porque é lá que estes objetos (texto e vinho) vão ser apurados, melhorados. É o tempo em que o escritor fica distante de seu texto que faz com que suas idéias e sua expressão sejam refinadas, assim como é o tempo em que o vinho descansa na adega que seu sabor e aroma se desenvolvem. Por isso mesmo, a gaveta não pode ser o lugar de destino das obras que mesmo após o processo de maturação não são boas (o que elimina os itens A, C e E da questão 4). O destino de um texto é a impressão, se for bom, ou o lixo, se for ruim. Daí o gabarito ser a alternativa B: o cesto de lixo recebe aquilo que descartamos. A letra de forma do item D é uma referência às fontes usadas em publicações de texto na imprensa ou nos livros.

O desafio da questão 5 é não substituir as expressões por outras que no contexto adquirem também conotação. Por exemplo, trocar bailam por dançam não retira a conotatividade do texto. Borboletas continuam sendo animais que não podem dançar, pois esta é uma ação humana. Entre outras substituições possíveis temos:

  • reflexo por espelho
  • voam, movimentam-se graciosamente por bailam
  • desorientadas, ofuscadas, encandeadas por bêbadas

É isso. Observações, pedidos, reclamações: é só usar o espaço dos comentários.

Beijos! Sejam felizes!

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5 thoughts on “Gabaritos 2009 – Ficha 2

  1. Olá,

    Vi a análise do poema visual Clichetes e gostei bastante. Sou professora de Língua Portuguesa e gostaria muito de utilizar um fragmento de sua análise no blog em que discuto textos literários com meus alunos.
    Se for possível a liberação, ficarei muito grata.
    Aguardo resposta.

    Um abraço!

    • Olá, Raphaelle!
      Pode usar a análise inteira se você quiser. É só dar o crédito da autoria.
      Manda um link do seu blog pra mim. Assim eu posso acompanhar as discussões que você desenvolve também.
      Professores unidos podem até ser vencidos, mas que a gente fica mais forte, ah, fica!

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