05/12/2009

Gabarito da revisão final

Ai que saudade de ter tempo para deixar posts bem legais para vocês aqui!

Não é abandono não (não permanentemente)! É correria de fim de ano mesmo!

Vocês pediram o gabarito e ele está aqui. Qualquer dúvida mandem um sinal de fumaça!

1 – C

2 – D (lembrando, gente, a correção do enunciado: onde se lê texto 1 é texto 2 e onde se lê texto 2 é texto 3)

3 – C

4 – B

5 – E

6 – C

7 – D

8 – B

9 – E

10 – B

11 – D

12 – D

13 – E

14 – D

15 – B

16 – B

17 – D

18 – FVVFF

20/11/2009

Gabarito da trimestral

Hello, povo!

Não deu para postar antes, mas o gabarito está aqui! Espero que tenham se saído bem!

 

1 – B

2 – D

3 – C

4 – D

5 – D

6 – E

7 – D

8 – E

9 – C

10 – E
11 – C
12 – D
13 – D
14 – D
15 – B
16 – B

13/11/2009

Exercícios para o SSA – ficha 3

Fofinhos,

Eita que tá chegando a hora.  Suco de maracujá, salada de alface e boas noites de sono daqui pra domingo. O trabalho foi feito ao longo do ano e agora o que vocês precisam é de concentração e relaxamento.

Conselho de amiga? Tirem o sábado à tarde para descansar. Cineminha, pipoca e dormir cedo. Domingo de tarde vocês farreiam bastante, mas até lá, fiquem nas atividades light!

Aqui o gabarito da ficha, meu beijo e boa sorte! Que a Força esteja com vocês!

1 -52

2 -E

3 -B

4 -B

5 – E (Para quem não pegou a informação: temos correção a fazer. Na alternativa D, onde se lê texto 7, leia-se texto 8)

6 – C

7 – E

8 – C

9 – B

10 – D

11 – VFFVV

12 – D

13 – B

 

10/11/2009

Exercícios para o SSA – ficha 2

Gente, estou sumida, sem tempo nem para respirar. Fim de semestre é assim mesmo, principalmente esse, particularmente agitado, tanto para vocês como para mim!

Como eu combinei com alguns de vocês, fica aqui o gabarito da ficha 2 de exercícios para o SSA. Espero que tenham se saído bem!

1 – E

2 – B

3 – E

4 – C

5 – B

6 – C

7 – E

8 – B

9 – A

10 – B

11 – B

 

13/10/2009

Gabarito da Parcial – III Trimestre

Oi, povo!

Só não atendi aos pedidos antes porque o meu digníssimo chefinho, atarefadíssimo com a Bienal, não havia liberado ainda o gabarito da parte de gramática. Aqui o gabarito fofo da provinha de vocês!

1 – D

2 – A

3 – B

4 – E

5 – D

6 – D

7 – A

8 – C

9 – B

10 – A

11 – D

12 – B

13 – E

Espero que tenham gostado dos resultados!

Beijinhos!

11/10/2009

Pensando sobre o 12 de outubro…

Não, não é todo 12 de outubro em que isso acontece. Mas calhou de, esse ano, eu ficar pensando em postar alguma coisa sobre crianças e livros. E isso me fez pensar, claro, no eu mesma criança e os livros. É, eu era uma menina que nadava em livros.

Engraçado que geralmente as pessoas fazem uma correlação esquisita criança + livros = solidão. Ou então criança + livros = aversão a movimento e alegria. Taí algo que não poderia ser mais falso, pelo menos na minha biografia. Contrariando todas as expectativas para um rato de biblioteca, eu fui uma grande esportista na infância. Teve época de na mesma tarde ir ao treino de volley, de ginástica e de natação. E por isso mesmo, a hora de ficar em casa era a hora de voar de outros jeitos, de mergulhar nos meus livros e exercitar outra coisa, a minha imaginação. Era um amor tão roxo, meus livros e eu, que minha mãe passou um tempo escondendo os livros pela casa, para ver se a mania diminuía um pouco. Como vocês suspeitam, não diminuiu e cá estamos nós.

Um poeta amigo meu em certo texto se definiu: “eu sou os livros que bebi“. Eu parafraseio meu querido amigo Marcos, acrescentando. É que eu sou os livros em que mergulhei, os professores que observei e as pessoas que amei. Uma divisão boba até, com esses verbos, porque, evidentemente, eu mergulho nas pessoas que amo, e amo os livros que me sorveram.

Amo tanto que precisei, como a Lygia Bojunga, fazer algo por eles, numa troca um pouquinho diferente. Não tenho talento para escrever para crianças. Quem sabe um dia terei para outros públicos, mas para criança não. Escrever para criança requer um quê de ver sem filtros que eu não consigo. Mas faço a minha troca, ao meu modo: se não dou aos outros o que ler, dou o meu jeitinho de levá-los a ler. E basta que um, um dia por ano, diga que uma leitura foi divertida ou significativa que eu me derreto toda e passe o resto do ano tendo a certeza de que vale a pena.

Aos livros e à infância ficam os meus pensamentos de hoje. Os meus e os da Lygia Bojunga, no poema que me traz duas gotículas à linha d’água de meus olhos. Eles ficam brilhantes, como eu vejo que ficavam quando, com minha mãe, eu chegava à antiga Livro 7 e dizia “eu quero esse, esse, esse, esse, esse…” ou quando meu avô entrava à noite em casa com mais um Lobato em suas mãos. Aos livros da minha infância, à minha mãe, ao meu avô e ao Lobato, as palavras da Lygia, que são minhas também.

LIVRO: a troca
Lygia Bojunga Nunes

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena
os livros me deram casa e comida.
Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo;
em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada;
inclinado, encostava num outro e fazia telhado.
E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá
dentro pra brincar de morar em livro.
De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto
olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois,
decifrando palavras.
Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça.
Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto
mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando
de consertar o telhado ou de construir novas casas.
Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava
a minha imaginação.
Todo o dia a minha imaginação comia, comia e comia;
e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no
mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu,
era só escolher e pronto, o livro me dava.
Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca
tão gostosa que — no meu jeito de ver as coisas —
é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no
livro, mais ele me dava.
Mas como a gente tem mania de sempre querer mais,
eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar
tijolo pra — em algum lugar — uma criança juntar com
outros, e levantar a casa onde ela vai morar.

05/10/2009

Arcadismo – Gabaritos e comentários – Ficha 15

Questão 1 – itens A e B

Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre!
De cada ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para fausto d’El-Rei: para a glória do imposto

Que restou do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras…Templos que são fantasmas ao sol-posto.

Os belos versos de Manuel Bandeira no poema Ouro Preto (ou seja, sobre a cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica, contextualização que nos ajuda a lidar com o poema — veja o texto completo aqui) descrevem o processo de retirada do ouro dos rios e das montanhas mineiras e da finalidade dada à riqueza encontrada no Brasil: o pagamento dos impostos excessivos e o fausto do rei. O versos inicial já antecipa, na sucessão branco — preto — podre a consequência dessa exploração: se no início o que temos é riqueza, simbolizada no ouro branco (uma variação bastante valiosa do metal e também uma alusão ao brilho, ao esplendor de um momento próspero), depois temos um estágio em que o valor decai (o brilho se apaga, fica preto, assim como a cidade, que era uma Vila Rica se tornou a cidade de Ouro Preto — a característica positiva do adjetivo rica deixa de ser diretamente a ela associada)  até a degradação total, em que a cidade de Ouro Preto (o título afinal determina que é sobre ela que se fala) está, uma ruína do que foi.

Questões 2, 3 e 4

A leitura do 3º poema que compõe as Cartas chilenas (texto integral aqui, entre outras fontes) nos mostra uma das ações reprováveis do governo de Luís da Cunha Meneses: a construção de uma monumental cadeia, “Um soberbo edifício levantado / Sobre ossos de inocentes, construído / Com lágrimas dos pobres“. Tão soberbo, tão grandioso e opulento que é comparado à Torre de Babel e às pirâmides do Egito. A referência comparativa à Torre de Babel se fundamenta na história bíblica desta construção: os homens desejavam fazer uma construção tão alta e monumental que atingisse o céu — o que os tornaria famosos, pois o monumento exaltaria a própria imagem humana, assim como as pirâmides exaltam a figura do faraó que nela jaz. Por isso mesmo pode-se reconhecer que nessa carta Critilo denuncia uma obra faraônica, como são designadas as obras grandiosas em objetivo e despesas e que são executadas para servirem como marco de uma administração política — afinal, sua característica básica é exatamente a grandiosidade do projeto, o que as liga diretamente a quem as empreendeu (daí que a notícia sobre a última obra intentada no governo João Paulo se refere a uma medida governamental semelhante à do Fanfarrão Minésio). A história brasileira, por sinal, está recheada por obras faraônicas — muitas projetos de governos da ditadura militar — que não foram concluídas ou que são verdadeiros elefantes brancos (se não incomodam ou atrapalham, não têm utilidade prática alguma) para a população.

Além do caráter faraônico da obra em si, Critilo também denuncia as irregularidades com que foi praticada: com desvio de dinheiro público e às custas do trabalho forçado de pessoas inocentes. Uma obra assim, como ele mesmo descreve, “nunca serve / De glória ao seu autor, mas, sim, de opróbrio“.

Questão 5 – A

Questão 6 – E

Questão 7 – Essa é uma das questões de vestibular com as quais eu implico. Oficialmente o gabarito conduz à alternativa A. Entretanto, o paralelismo não é um recurso claro e marcante no texto. Fazendo a escansão do poema, encontramos versos que são redondilhas maiores (7 sílabas poéticas). E nenhuma das outras alternativas se encaixa no texto.

Questão 8 – C

Questão 9 – C

Questão 10 – A

02/10/2009

Arcadismo – gabaritos

Hellos,

Eu prometi que colocaria esse bendito gabarito hoje, não prometi? Tá bom que é aos 45 do segundo tempo, mas ainda é sexta. E eu me virava em cinco mas cumpria a promessa! :D

Então, caminhando e cantando e seguindo a canção direto para a ficha 14, mãos à massa!

Para agilizar, o gabarito das objetivas vai expresso, no caldo de cana, e eu darei mais atenção às discursivas. Se alguém tiver dúvida sobre as objetivas, levanta a mão!

1 – C
2 – A
3 – B
4 – A
5 – C
6 – E
7 – C
8 – E
9 – B
10 – C
11 – E
12 – E
13 – A
14 – D

Focalizando as discursivas agora. A questão 14 solicitou de vocês a indicação dos pontos de contato entre os dois textos de Alberto Caeiro (este e este) e os dois texto de Ricardo Reis (este e este) e o Arcadismo.

Veja que o primeiro texto de Caeiro retrata, ainda que apenas numa projeção da mente dele do que ocorrerá, uma cena típica de carpe diem na paisagem bucólica, quando o eu lírico e a musa inspiradora (é um poema de O pastor amoroso) poderão desfrutar de prazeres simples (colher flores) em meio a um locus amoenus. Já o segundo texto reflete sobre a tristeza percebida nos versos de Cesário Verde (grande poeta português do fim do século XIX). Essa tristeza é atribuída à inadequação sentida pela personalidade poética do Cesário no ambiente da cidade, o que nos conduz à ideia do fugere urbem árcade.

Observando os textos de Reis, notamos que ambos mencionam o carpe diem (afinal, como destaca o primeiro texto, o momento é a única coisa que não pode ser tirada do homem, pois é fugidio — por isso mesmo devemos ser, como belamente metaforiza o segundo poema, como as flores que estão plenas durante a duração de um dia: esse dia, o de hoje, o agora, é a nossa única certeza). Neles também é perceptível a referência à mitologia greco-romana (Minos, Plutão e Átropos estão no primeiro poema, assim como o rito de se dar ao morto uma moeda, um óbolo, para a paga do barqueiro que o conduziria ao Hades; no segundo poema temos Adônis e Apolo).

Uma outra conexão que podemos fazer, mas apenas com os textos de Reis, é a preocupação com a estética e com a manutenção do tom sóbrio e contido com que são expressas as emoções. Caeiro, em sua simplicidade, não se preocupa se é ou não é espontâneo.

A questão 16, para terminarmos, pedia que fossem identificadas as ideias dos dois poemas (este e este) que se opõem a conceitos e preceitos da arte árcade. Observe que o primeiro texto é metalinguístico e nele Caeiro discute a inutilidade do fazer poético, da busca pela perfeição na arte, pois a natureza basta por si só, segundo ele. Além de um tapa nos artistas como um todo, pois a arte em si é vista como uma busca inútil pela beleza, o poema dá um soco mais concentrado nas escolas que valorizam o fazer poético como forma, como a construção minuciosa e detalhada de algo (como um trabalho de marcenaria ou de construção). Para Caeiro, seguir modelos de criação artística é algo triste, inútil. Já o segundo poema destaca o fingimento poético da poesia lírica de Virgílio, que, assim como os árcades, se disfarçou em pastor. Caeiro denuncia que os pastores de Virgílio são Virgílio, ou seja, que o fingimento poético é uma bobagem, um artificialismo inútil — principalmente se temos a realidade natural, que é bela, é antiga, perfeita, e existe concretamente. Irônico isso vindo de alguém que não é mais do que criação de outrem, não é? Pois é, mas é assim mesmo! :) E é por isso que é bom!! :D

Dúvidas, perguntas, questionamentos?

Beijos!

01/10/2009

Arcadismo – Sempre mais do mesmo

Ôooooo

Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?

(Mais do mesmo. Legião Urbana.)

Referência interna, exclusiva para fãs: Urbana Legio Omnia Vicint!

Era o que eles queriam ouvir e ler, sim. Eles quem? Os consumidores de literatura do século XVIII, claro! E quem são? Burgueses que querem comprovar para os aristocratas que podem ser tão cultos quanto eles, mas de um jeito diferente: sua cultura ilustrada vai se afirmar através da ciência, da razão e do cultivo do bom gosto clássico, elegante em sua linguagem minimalista, sem excessos.

E qual é esse mais do mesmo, o repetido repetitório, como diria Drummond, que eles tanto queriam ler/ouvir? Olha só:

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores,
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares, o sutil Nordeste
Os torna azuis; as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza
!

Olhe de novo:

Ah! enquanto os Destinos impiedosos
Não voltam contra nós a face irada,
Façamos, sim façamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração, que frouxo
A grata posse de seu bem difere,
A si, Marília, a si próprio rouba,
E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores.
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

Entenderam o que é o mais do mesmo? O tal do convencionalismo árcade de que eu falei tanto no post anterior, no campo temático dá é nisso: de Bocage, autor do primeiro texto, a Tomás Antônio Gonzaga, do segundo, nem o nome da pastora-musa teve alteração. As imagens, o cenário, exatamente o mesmo: uma natureza bucólica, um locus amoenus, o desejo de viver o presente e seus prazeres. A pastora bela e delicada, quase uma fadinha da Disney, com seu vestido esvoaçante, os cabelos loiros cacheados ornados por uma grinalda de flores, pele rósea, lábios róseos, depilação em dia, hálito de menta, dentição completa, alinhada e digna de estrelar uma propaganda de creme dental.

Seguindo o mais do mesmo em todos os lugares, em todos os tempos do século XVIII (e, aqui no Brasil, adentrando o século XIX, já que oficialmente o Arcadismo se encerra com o início do Romantismo em 1836), a convenção saturou. Ficou artificial, como boy band pré-fabricada, seguindo o modelo: o carinha latino, o bom moço, o bad boy, o esportista. E fica mais artificial ainda quando sabemos que aquela idealização da vida no campo, perfeitamente compreensível em países com processos de urbanização e revolução burguesa, como Inglaterra e França, em Portugal e no Brasil não convencem ninguém. Como se justifica idealizar o campo e afirmar sua superioridade sobre a cidade se o que temos, lá e cá, são cidades ainda no modelo de vilas campesinas? Claro que uma ou outra eram diferentes, como Salvador cá, Lisboa e Coimbra lá, mas a situação geral era exatamente a da cidadezinha qualquer drummondiana.

Então o tal do artificialismo que você mencionou no post anterior vem dessa repetição excessiva do modelo pastor-apaixonado-convida-pastora-de-beleza-idealizada-para-uma-sessão-de-carpe-diem?

Principalmente. Mas tem mais. Um elemento básico da convenção árcade na imitação de Horácio e Virgílio é o uso, na poesia lírica, de pseudônimos latinos. Estes pseudônimos são nomes falsos usados pelos poetas no exercício de seu fingimento poético. Seguindo os lemas da arte clássica e da arte classicista — o Bom, o Belo, o Verdadeiro — a poesia do século XVIII vai buscar o verdadeiro com esse pseudônimo: ao invés de usar sua própria assinatura, o autor procura se despersonalizar, assinando como se o texto houvesse realmente sido elaborado por um pastor. Daí que teremos a obra não de Gonzaga, mas de Dirceu, e não de Cláudio Manoel da Costa, mas de Glauceste Satúrnio.

Procura, mas não consegue muito. Isso porque o pseudônimo age apenas como um disfarce para a identidade do autor: é só uma questão de capa. A linguagem, o estilo são os mesmos que aquele escritor usaria se fosse assinar a obra com seu próprio nome. E essa é uma diferença gritante entre o fingimento poético dos árcades e o Fernando Pessoa no século XX. Pessoa não adota simplesmente nomes falsos para despistar sua identidade: os heterônimos, todos, escrevem de jeitos completamente diferentes sobre temáticas também completamente distintas. Eles têm uma biografia específica, cada um. Usando uma imagem que acho que facilitou a vida de muitos de vocês numa postagem anterior sobre Fernando Pessoa, o caso é o seguinte: os árcades fizeram fakes em que apenas mudaram o nome para um nick qualquer, sem alterar o resto do perfil e o jeito de postar nas suas comunidades. É só comparar, por exemplo, Gonzaga e os seus dois fakes, o pseudônimo usado para a poesia lírica (o Dirceu de Marília de Dirceu) e para a poesia satírica (o Critilo de Cartas chilenas) com Pessoa e os três heterônimos principais. É como se Gonzaga entrasse no Orkut e não quisesse que ninguém soubesse que era ele. Cria dois perfis, que frequentam as mesmas comunidades, têm as mesmas informações pessoais e profissionais, usam basicamente a mesma linguagem. Só que um posta em comunidades de relacionamento amoroso, apenas, e o outro em comunidades de discussão política. Já Pessoa entrou no Orkut, fez o seu perfil e resolveu brincar de fazer fakes com nome, informações pessoais e profissionais, comunidades de interesse e jeito de postar completamente diferentes uns dos outros e dele mesmo. E ficou brincando com esses fakes do jeito que lhe era conveniente, mas a cada vez que postava raciocinando como o fake, e não como ele mesmo.

Retomando: o artificialismo vem, portanto, de um esgotamento do tema geral e também do uso de um recurso de fingimento poético que, pretendendo dar uma aura de verdade à obra, não atinge seu objetivo. Ao invés de lermos o texto e sentirmos nele um pastor de verdade como autor, lemos o texto e percebemos que por trás dele está um homem letrado, ilustrado.

Ok, entendi. Agora fala mais dessas obras de Gonzaga e das obras dos outros autores importantes da época.

Oxe, mas é agorinha!

Dentre os autores árcades de língua portuguesa, os mais relevantes são o português Manuel Maria du Bocage, o mezzo português, mezzo brasileiro Tomás Antônio Gonzaga e o brasileiro Cláudio Manoel da Costa.  Bocage é considerado até hoje um dos poetas mais populares da história da literatura portuguesa. Ele e o nosso Gonzaga, nascido português, mas brasileiro por sua infância em nossas terras, para as quais regressou já maduro, têm em comum essa popularidade em sua época, o fato de ambos terem se dedicado à poesia satírica e à poesia amorosa e o de esta última prenunciar elementos do movimento romântico, que sucedeu o Arcadismo. Uma distinção essencial entre eles é a aventura de Bocage na poesia satírica de verve mais ferina, na poesia erótica e na pornográfica. Não é à toa que a Desciclopedia o elegeu como membro fundador do desciclopedismo em Portugal.

Um grande poeta, Bocage. Um Gregório de Mattos português e árcade. Pena que não iremos estudá-lo efetivamente, já que nossa concentração é nos autores brasileiros.

E Gonzaga? Só isso sobre ele?

Não, calma. Tem mais sim!

O nosso popstar árcade é um poeta bem multifacetado até (para os padrões convencionais do Arcadismo). É que Gonzaga, no seu Marília de Dirceu, mesmo na primeira parte do livro, em que ele busca a adequação completa aos postulados do movimento, deixa escapar elementos do seu eu que lhe dão autenticidade. E esse biografismo, em si, já é um prenúncio do movimento romântico. Vemos várias vezes na obra como um todo que Dirceu sente necessidade de repetir para Marília que embora ele ainda não esteja velho, ficará, e que a vida simples é o que mais importa como forma de viver (aurea mediocritas rules! Confira essas preocupações de Dirceu aqui e aqui — ambas são liras da primeira parte). E essa necessidade é também uma necessidade de Gonzaga em seu idílio amoroso pela jovem Maria Doroteia, muito mais moça e muito mais rica que o noivo. Além disso há referências constantes ao letramento e cultura de Dirceu, à sua atividade com papéis (versos e pleitos, ou seja, decisões jurídicas), que vão se desviando daquele artificialismo insosso. Para ajudar a popularidade do poeta, ainda temos a sua prisão como inconfidente e a produção da segunda parte do livro — em que Dirceu também está preso e lamenta a ausência de Marília, mais biografismo — como um elemento de forte apelo ao público da época, que se condoía com o sofrimento do pobre poeta-pastor. Junto a esse elemento pré-romântico básico temos outros: a natureza que muitas vezes deixa de ser bucólica e passa a reagir aos sentimentos de quem a descreve, como um espelho das emoções, a valorização da emoção sobre a razão (é famosíssimos o verso Eu tenho um coração maior que o mundo), a fuga da realidade através da lembrança do passado ou do sonho (em vários poemas da segunda parte Dirceu esquece que está preso transportando-se para suas lembranças ou sonhando com Marília; veja um deles, que eu considero lindo de doer, em que acontece o primeiro caso aqui.). Aiai… é ler e suspirar.

E fora essa coisa árcade-que-antecipa-o-futuro, ainda temos a obra satírica, outra face de Gonzaga. Disfarçado em Critilo para se proteger das represálias políticas, lá foi Gonzaga vingar-se das maracutaias do governador fanfarrão que explora os pobres, os indefesos, desobedece ordens reais, é feio e ignorante e inculto (os dois últimos defeitos gravíssimos na época da Ilustração!).  Fanfarrão Minésio, governador de Santiago do Chile que representa Vila Rica, representa o governador mineiro Luís de Sousa Meneses, uma figura tão torpe que é comparada a Sancho Pança, Nero e até Calígula (ele mesmo, o doidinho que elegeu o próprio cavalo como senador). Estas críticas foram efetuadas através de manuscritos anônimos, graças ao pseudônimo, que surgiram como se fossem cartas de um morador de Santiago (o tal Critilo) a um amigo na Espanha (Doroteu, associado ao poeta-inconfidente-e-amigo Cláudio Manoel da Costa) para denunciar o governador fanfarrão, torcendo-se para que os grandes de Espanha tomassem conhecimento dos fatos e providências contra o “indigno, indigno chefe“. Note, então, que a crítica não se dirige ao governo português (mesmo sendo Gonzaga um separatista). Ao todo, foram treze os poemas produzidos e divulgados até a prisão de Gonzaga; infelizmente, de alguns deles restaram apenas fragmentos.

Vistas as obras de Gonzaga, vamos ao Cláudio Manoel da Costa e suas Obras.

Costa é o introdutor do Arcadismo no Brasil — é ele quem publica o primeiro livro, justamente o tal Obras, e é o sócio-fundador da Arcádia Lusitana, a academia literária de Vila Rica. É a publicação de seu livro, em 1765 o marco que assinala o início do Neoclassicismo tupiniquim.

Sendo o primeiro, o abre-alas do movimento, Costa é um autor que ainda conta com alguns resquícios barroquistas em seu estilo. Entretanto, ao mesmo tempo, é o nosso árcade que seguiu de mais perto as convenções europeias — seus sonetos riquíssimos são composições de altíssima qualidade. Um elemento que o destaca, no plano temático, é a alternância de imagens da natureza absolutamente convencionais, europeias, com a natureza agreste de Minas (confira a primeira aqui e a segunda aqui). Em ambos os cenários, a cena mais comum é a do lamento pelo amor perdido ou não correspondido.

Enquanto a pastora-musa de Gonzaga é uma só, Costa inventa várias, com os nomes usados pela época: Nise, Lise, Anarda, Daliana… No fim, todas são as mesmas, o mais do mesmo, uma ideia vaga, uma mulher simbólico, cuja única característica é a capacidade de fazer Glauceste sofrer. E ponto.

Ponto para ponto final. Este post já está no limite. Eu sei, eu prometi o gabarito da ficha 14, mas fica para amanhã — promessa, ok?

Beijinhos!

29/09/2009

Arcadismo – Eita vida besta, meu Deus!

Oi,pessoas!

Aproveitando que hoje vimos vídeos sobre Drummond e Clarice (clique nos autores para acessar), vamos, finalmente, para uma postagem sobre Arcadismo partindo de versos do nosso poeta mineiro!

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

É, para a maioria de nós, seres urbanóides, o ritmo de vida das cidadezinhas quaisquer espalhadas até hoje em nossos rincões é uma vida besta. Pelo menos até o stress do engarrafamento da Agamenon nos fazer pedir ir embora para uma Pasárgada qualquer, em que tenhamos menos carros, menos calor, e que a correria pré-semana de provas nos faça pedir mais tempo para curtir prazeres simples da vida: uma tarde numa rede, sentindo o vento no cabelo, uma caminhada com os pés descalsos na areia da praia, mergulhados na linha d’água, um pôr-do-sol solitário ou bem acompanhado… Talvez uma vida não tão besta assim, não é?

Foi justamente o que pensaram os escritores do século XVIII, quando a Europa vivia em países como a Inglaterra um processo consistente e acelerado de urbanização, decorrente da Primeira Revolução Industrial, e a derrocada da aristocracia — superficial, opulenta e pedante — em nações como a França. A vida difícil nas cidades levava a imaginação humana a desejar um paraíso onde se pudesse viver com simplicidade, mas com conforto e com o desfrutar de prazeres.  E como a cidade é que não era esse lugar, o jeito era idealizar uma vida tranquila e serena no campo, sem  as pressões sociais da aristocracia e sem o ritmo de trabalho artificial e exaustivo das primeiras fábricas.

Juntando esse desejo com o resgate promovido pelo Iluminismo (ou Ilustração) da visão de mundo racional, cientificista e antropocêntrica vivenciada na Antiguidade Clássica e no Renascimento (século XVI, quando se viveu na arte o Classicismo, lembram?), o que vemos no século XVIII é uma verdadeira volta àquilo que de mais representativo na arte esses dois períodos nos trouxeram: a poesia pastoril de Horácio e Virgílio, a pintura suave e de temática natural ou mitológica da renascença,  os avanços científicos do século XVI e um otimismo e crença no poder humano comuns aos dois períodos — e completamente abandonados durante o Barroco.  Entretanto, se no Renascimento temos gênios plurais, como Leonardo da Vinci, que são artistas e cientistas ao mesmo tempo (e por isso os termos Renascimento e Classicismo às vezes se confundem tanto, sendo este último apropriado para designar apenas a produção artística e o primeiro para o movimento cultural como um todo — artes e ciência) no século XVIII ciência e arte estão completamente separadas. Observe que os grandes nomes  da ciência (como Newton) e da filosofia (Descartes, Voltaire, Hume, Rousseau) não registram nenhuma produção no campo artístico.  E vice-versa: os grandes pintores, escultores, arquitetos e poetas não se aventuraram também nas ciências.  (Seria a Revolução Industrial começando a demandar a especialização humana nas áreas de conhecimento? Não sei, só sei que foi assim.)

Essa separação no exercício das atribuições do artista e do cientista dá a impressão, em primeiro plano, de que arte do século XVIII acaba se tornando alienada dos acontecimentos práticos e cotidianos do mundo exterior. Afinal, enquanto os burgueses, os operários e camponeses lutam por melhores condições sociais e proclamam uma série de revoluções burguesas, dentre as quais os movimentos de independência no continente americano e a Revolução Francesa são os que mais se destacam, de que falavam os poetas, o que pintavam e esculpiam os artistas plásticos? Quadros singelos de hamornia, tranquilidade e felicidade, eram essas as obras construídas na época. Mas não se engane: esses mesmos artistas vão exercer, fora de seu trabalho nas letras, nas telas e nas formas, importantes papéis sociais. Só para citar o exemplo do Brasil, teremos em todos os nossos poetas da escola mineira — ou Arcádia mineira — um inconfidente, inconformado com a exploração da colônia e planejando sua independência.

Vá, pergunte: por que não levar essas discussões para a arte, então?

É que uma característica marcante do século XVIII é gostar demais daquilo que gregos e romanos estipularam como bom gosto na arte. Esse modelo de bom gosto era tão importante, tão importante na época, que imitar com perfeição suas formas, seus temas, suas atitudes era a norma social, a convenção que definia quem era um bom artista e quem não era. Era bom artista o bom imitador; era mau artista aquele que destacasse suas qualidades individuais, que não conseguisse apagar completamente seu “eu” por trás dos modelos que deveriam ser seguidos: no caso da literatura, o da poesia lírica pastoril cultivada por Horácio e Virgílio.  E como esses artistas — assim como os escultores greco latinos e renascentistas e os pintores da renascença — não viveram aquele contexto histórico de tantas transformações sociais, na maior parte das obras importantes da época, elas não vão sequer ser mencionadas.

Observe que temos aqui o destaque à primeira e mais essencial das características da arte do século XVIII: o convencionalismo. Essa palavra é a chave para todas as outras que se seguem: imitação dos modelos clássicos de poesia — o que significa, no plano estético, um culto ao soneto e ao verso decassílabo, e, no plano temático, o pastoralismo —, racionalismo, emoções apresentadas de forma contida e reservada, cultivo às referências da mitologia greco-latina… Era assim que Horácio, na Grécia, Virgílio, em Roma, escreviam a poesia lírica; era assim, então, que o bom poeta procederia no século XVIII. Daí que a arte desse período é batizada de Arcadismo e de Neoclassicismo. O primeiro nome evoca uma lendária  montanha grega, onde viveriam tranquilamente pastores com seus rebanhos, num ambiente todo ele contemplativo e mágico, com ninfas, sátiros, pastoras de uma beleza delicada e perfeita, o ambiente perfeito para se aproveitar a mocidade, a vida e seus prazeres (carpe diem!!) e comemorar isso com poesia e música: ou seja, poesia lírica. Essa montanha, a Arcádia, batiza as academias literárias em que se encontram os escritores da época. Arcadismo é, então, o gosto artístico cultivado nas academias literárias — na época, as arcádias.

Tá, eu sei que para você a ideia de um bando de marmanjo (já que na época o machismo não dava muita liberdade para as mulheres terem uma vida social efetiva… a ETERNA insegurança masculina e sua necessidade de ter certeza de que não vai ser traído!) se encontrando para falar de poesia parece, no mínimo, ser a coisa mais desinteressante da face da Terra. Mas tente pensar da seguinte forma: no século XVIII não tinha MP3, televisão, cinema… As festas eram praticamente todas religiosas. Teatros ainda são raros (no Brasil então… melhor nem comentar). Diversão significava ler, tocar ou ouvir um instrumento, cantar, pintar. E conversar sobre essas atividades. Então tente pensar na vida nessas academias como aquele encontro de amigos em que se leva um violão e as pessoas comentam dos últimos filmes e livros. A essência e as atividades são quase as mesmas.

Acho que explicar o nome Neoclassicismo nem precisa não é? Mas para os desligados de plantão, vamos evidenciar: neo = novo, classicismo = gosto clássico. O nome, então, ao mesmo tempo menciona o resgate ao Classicismo (século XVI) e ao Clássico (antiguidade grega e romana). E já que estamos falando dos termos usados para a referência ao movimento, não custa lembrar que temos também Setecentismo, palavra que faz referência direta ao período em que esse gosto, essa noção de estética, esteve mais em alta: o século XVIII. Estranhando a mistura de oito com sete? Então não misture mais: contamos o século pelo último ano dele. O XVIII, portanto, termina em 1800, o que significa, portanto, que começou em 1701. Os anos que nele perduram, portanto, são os anos setecentos.

Fácil como espremer caldo de cana! E essa expressão tão nordestina (como pitomba e pitoco, palavrinhas tão bonitinhas que encontramos só, só, somente, só aqui e em canto nenhum mais — pleonasmo intencional, que fique claro :D ) também se aplica ao jeito de escrever dos autores dessa época. Lembram que nas características eu mencionei que as emoções são contidas? Que a relação com o mundo é racional? Que na época vigora um grande otimismo? Sabe o que isso significa?

Respire fundo e comemore: significa que agora, com o Arcadismo, ao estudar Literatura, SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Os poetas árcades lançaram um produto novo e revolucionário: o descomplicador de textos inutilia truncat®! Diga adeus àquelas metáforas viajadas e aqueles poemas embaralhados do Barroco! Com o descomplicador de textos inutilia truncat® os poetas poderão ser entendidos sem levar alunos indefesos ao desespero. A fórmula mágica do inutilia truncat® elimina todas as figuras de linguagem excessivas e que tiram a clareza do texto. Adeus hipérbato! Xô vocabulário rebuscado!  Ganhe tempo entendendo os poemas de primeira e carpe diem! É o inutilia truncat® facilitando a sua vida!

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Por quê? Porque para eles era assim, oras! Por quê? Para serem diferentes do Barroco em tudo, pronto, falei!

E é verdade. Lembram na postagem sobre artes plásticas no Barroco o destaque que eu fiz sobre como, no século XVII, dando continuidade a conquistas técnicas do século XVI os artistas acabaram se expressando de maneira completamente diferente, assegurando a marca da sua identidade? A relação entre a arte do século XVIII e a do século XVII não vai ser diferente. E com um agravante: temos um movimento de ideologia antropocêntrica e burguesa se opondo a uma arte que ostentava ideais religiosos e aristocráticos. Não é só um gosto diferente, mas toda uma compreensão e vivência social e política de mundo. A burguesia vai conquistar o mundo a partir do século XVIII e uma necessidade básica dela é assinalar que isso significa um novo tempo, um novo momento, em todos os sentidos possíveis — inclusive o estético.

Para começar, that’s all folks! Assinalem a palavra convencionalismo como sendo o primeiro elemento chave para entender o Arcadismo. Vejo vocês ainda essa semana no próximo post com a segunda palavra, artificialismo, e um capítulo especial dedicado a pseudônimos, heterônimos e poetas líricos que se expressaram em língua portuguesa.

Beijinhos e até a próxima postagem!